É o rosto público de uma das marcas mais polémicas em França. Sino-americano, Donald Tang é presidente executivo da Shein desde 2023. Eis o essencial para compreender este perfil pouco comum - e as várias funções que foi acumulando ao longo da carreira.
A abertura da primeira loja física da Shein no BHV Marais tem sido alvo de críticas intensas. Não só porque o gigante chinês do comércio electrónico é acusado de contribuir para o declínio de insígnias francesas históricas, como também por comercializar artigos proibidos em França e considerados altamente perigosos. Ainda assim, sabe-se relativamente pouco sobre quem está no comando da empresa - e Donald Tang é, de longe, o dirigente mais exposto.
Uma chegada complicada aos Estados Unidos
Nascido em Xangai, em 1963, Tang deixou a China aos 18 anos para se instalar na Califórnia. Foi uma aposta arriscada: tinha quase nenhum dinheiro e mal falava inglês. Para pagar os estudos, acumulou pequenos trabalhos na restauração, muitas vezes em condições duras e, por vezes, abusivas. Mesmo assim, aguentou, adaptou-se e foi ganhando experiência até conseguir uma função de gestor.
Em 1986, concluiu o curso de engenharia química na California State Polytechnic University, em Pomona. O início profissional, porém, esteve longe de ser linear. Recebeu 58 recusas de empresas norte-americanas, fracassos que mais tarde atribuiria à sua falta de jeito e a uma atitude pouco adequada.
Ascensão fulgurante em Wall Street
Em 1987, Donald Tang entrou no sector financeiro através da Merrill Lynch, integrando a equipa dedicada a investidores institucionais. Alguns anos depois, em 1992, foi contratado pela Bear Stearns e, em poucos meses, subiu na hierarquia a um ritmo invulgar.
Logo em 1993, assumiu a liderança da operação asiática do banco de investimento como presidente-director geral. A partir de Hong Kong, conduziu a expansão do grupo na China e em Singapura, aconselhando várias grandes operações de aquisição num país em plena transformação económica. Anos mais tarde, tornou-se presidente da divisão asiática, consolidando-se como um dos interlocutores mais sólidos entre Wall Street e Pequim.
Em 2001, Tang foi promovido a vice-presidente da Bear Stearns e passou a supervisionar a expansão internacional do grupo. É nessa fase que a sua reputação se cimenta: a de um estratega capaz de circular entre dois universos - a finança norte-americana e uma China em rápida ascensão. Uma figura influente, com leitura apurada de ambas as culturas… e capaz de tirar partido disso.
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Incursão em Hollywood
Depois da crise financeira de 2008 e do colapso da Bear Stearns, Donald Tang mudou por completo de terreno. Deixou Wall Street e virou-se para a indústria do entretenimento, numa transição ambiciosa que, mais uma vez, lhe permitiu apoiar-se nas suas ligações tanto à China como aos Estados Unidos.
Em 2012, desempenhou um papel determinante ao aconselhar o conglomerado chinês Dalian Wanda na compra da AMC Entertainment por 2,6 mil milhões de dólares. A operação, de grande impacto, transformou a Wanda num dos maiores operadores de salas de cinema do mundo. Tang percebeu então que podia existir uma ponte económica entre Hollywood e Pequim - e quis ser um dos seus arquitectos.
Em 2015, fundou a Tang Media Partners (TMP), uma holding com base entre Los Angeles e Xangai. A ambição era clara: construir um verdadeiro eixo entre as indústrias culturais dos Estados Unidos e da China. A TMP adquiriu uma participação maioritária na IM Global, associou-se à Tencent para lançar uma joint venture dedicada a séries televisivas e multiplicou investimentos em música e cinema. Em 2017, foi mais longe ao comprar a distribuidora norte-americana Open Road Films, criando a Global Road Entertainment, estrutura pensada para unificar todas as suas actividades.
O projecto, contudo, não durou. Apesar da ambição, a Global Road foi travada por dificuldades financeiras e acabou em falência em 2018. Ainda assim, Tang tem demonstrado uma capacidade de recuperação fora do comum.
O homem que molda o futuro da Shein
Donald Tang chegou à Shein em 2022, inicialmente como conselheiro do fundador, Chris Xu, mas impôs-se a grande velocidade. Em poucos meses, passou a vice-presidente e, em 2023, a presidente executivo, tornando-se o rosto público de um grupo conhecido pela sua opacidade. Cabem-lhe agora os dossiês centrais: assuntos públicos, desenvolvimento, finanças, expansão global… tudo o que condiciona o futuro do gigante do fast-fashion.
Sob a sua direcção, a Shein reforçou a posição entre as maiores marcas mundiais do sector, alcançando milhões de clientes em mais de 150 países. Tang impulsiona de forma agressiva a expansão física e comercial, multiplica parcerias e tenta conduzir a empresa num ambiente regulatório explosivo.
Também dirige a grande operação de charme junto de reguladores e investidores. A meta é preparar o caminho para uma muito aguardada entrada em Bolsa, provavelmente em Hong Kong.
Uma personalidade muito extrovertida
Hoje, Donald Tang é a face mais expressiva e mediática da Shein - o oposto absoluto de Chris Xu, um fundador discreto e quase invisível. Extremamente à vontade em público, ao ponto de combinar o vestuário com o do seu cão, Tang assumiu-se como gestor de crises e porta-voz oficial da empresa. Viu-se isso, por exemplo, na polémica em torno da visita de influenciadores às fábricas do grupo, ocasião em que insistiu na vontade da Shein de melhorar as suas práticas, em particular no que toca às condições de trabalho.
À frente de uma empresa frequentemente criticada pelo impacto ambiental e por desvios em determinadas cadeias de produção, Tang não evita estes temas. O seu objectivo tem sido reposicionar a Shein como um actor mais transparente, sem travar a expansão mundial do gigante do fast-fashion. E, ao que tudo indica, ainda há muito trabalho pela frente…
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