Quando se fala em dinossauros, é comum cair em dois estereótipos: predadores implacáveis ou herbívoros grandes e pouco exigentes que comiam tudo o que aparecia. Mas na Austrália houve um que baralha essa divisão simples: Muttaburrasaurus langdoni.
As pistas mais recentes sugerem que este gigante tinha preferências bem definidas - e um “truque” anatómico que o ajudava a encontrar exatamente o que procurava.
Há cerca de 96 milhões de anos, o Muttaburrasaurus percorria o que hoje é o centro da Austrália. Durante muito tempo, os cientistas assumiram que se comportava como muitos outros dinossauros herbívoros.
Investigação recente, no entanto, desenha um cenário diferente. Isto não era apenas mais um animal a pastar. Pode ter sido seletivo na alimentação, escolhendo plantas específicas e talvez até recorrendo a pequenos animais para variar a dieta.
Muttaburrasaurus langdoni‘s nose
Novas evidências fósseis obrigaram os cientistas a rever a cara deste dinossauro, sobretudo o nariz e a boca. As ideias anteriores apontavam para um bico sem dentes, parecido com o de herbívoros conhecidos de outras regiões do mundo. Mas essa hipótese não resistiu a uma análise mais cuidada.
O Dr. Matthew Herne, autor principal da University of New England, explicou o que a equipa encontrou.
“This was unexpected, because the beak (front part of the snout) of Muttaburrasaurus was thought to be toothless like many other well-known plant-eating species such as Iguanodon from Europe and the ‘duck-billed’ Hadrosaurs, mostly found in the Northern Hemisphere,” Herne explained.
“But ornithischian dinosaurs of this size normally have beak-like snouts without teeth, with a good example of this being Triceratops,” he continued.
Em vez de um bico liso, este dinossauro tinha dentes logo na parte frontal do focinho. Esse pormenor, embora pequeno, é importante.
Um bico estreito, com dentes alinhados, teria facilitado selecionar folhas e sementes específicas, em vez de arrancar o que estivesse mais perto. É possível que, ocasionalmente, também comesse invertebrados.
Built to smell its way around
O traço mais marcante de Muttaburrasaurus langdoni é o nariz arredondado, quase em forma de bolbo. Durante muito tempo, não se sabia ao certo para que servia. O novo estudo atribui-lhe uma função mais clara.
No interior do crânio, os cientistas identificaram grandes câmaras de ar acima do principal canal de passagem do ar. Essas câmaras provavelmente abrandavam o ar que entrava, dando mais tempo para as moléculas de cheiro serem detetadas. Isso aponta para um olfacto apurado.
O cérebro reforça esta ideia. Os seus bolbos olfativos - as estruturas que processam odores - estão entre os maiores observados em qualquer dinossauro.
“So we suspect that they indicate a very acute sense of smell, perhaps to help the animal find food, detect predators or assist in directional navigation,” explains Dr Herne, who is also affiliated with Queensland Museum and Australian Age of Dinosaurs Museum of Natural History in Queensland.
Ou seja, não era um comedor “por inércia”. Provavelmente dependia do cheiro para localizar as melhores fontes de alimento e manter-se atento ao perigo.
Walking tall when it mattered
O crânio revelou mais do que hábitos alimentares. Também deu pistas sobre como o animal se deslocava. Ao analisar o ouvido interno e a impressão do cérebro, os investigadores conseguiram inferir o seu equilíbrio e postura.
“We realised that its inner ear was more like dinosaurs that walked on two legs, like Tyrannosaurus rex, than others that spent more time on all fours,” says Professor Vera Weisbecker from Flinders University.
“So it’s possible that Muttaburrasaurus was a large herbivore walking and running on its hind legs when needed and used its front arms for support to crop food closer to the ground.”
Esta combinação sugere versatilidade. Poderia erguer-se para se deslocar ou fugir, e depois baixar-se para se alimentar.
Muttaburrasaurus langdoni and water
O ambiente em que o Muttaburrasaurus vivia também moldou os seus hábitos. Evidências geológicas indicam que permanecia perto do mar interior de Eromanga, que cobriu grandes áreas da Austrália entre cerca de 140 milhões e 90 milhões de anos atrás.
Viver próximo de zonas costeiras pode ter influenciado a sua dieta. As imagens das cavidades nasais sugerem que tinha glândulas de sal.
Estas glândulas poderiam eliminar o excesso de sal dos alimentos, uma vantagem se consumisse plantas de ambientes salinos ou até pequenos crustáceos junto à linha de água.
Os dentes acrescentam mais um detalhe à história. Em vez de cortarem a comida, estavam adaptados para triturar. Isso é semelhante à forma como animais modernos, como vacas e cavalos, processam material vegetal duro.
Eyes on the sides, not the front
A forma das órbitas indica que Muttaburrasaurus langdoni tinha um campo de visão amplo para os lados. Provavelmente não via tão bem diretamente à sua frente. Este tipo de visão é útil para detetar ameaças vindas de várias direções.
Esta configuração pode tê-lo ajudado a manter-se alerta em ambientes abertos. Se vivia em grupo, ainda não se sabe. Os cientistas continuam sem evidências suficientes para confirmar comportamento de manada.
Muttaburrasaurus langdoni‘s family tree
A descoberta também ajuda a posicionar o Muttaburrasaurus com mais precisão entre os seus parentes. O bico com dentes sugere que se separou mais cedo de outros dinossauros ornitópodes.
Esse detalhe liga-o a espécies mais antigas que também tinham dentes na parte frontal do focinho.
A imagiologia avançada teve um papel decisivo nestas conclusões. O Dr. Joseph Bevitt, da Australian Nuclear Science and Technology Organisation (ANSTO), referiu que as ferramentas modernas permitiram construir modelos 3D detalhados do crânio, mandíbulas e dentes. Esses modelos revelaram características que métodos mais antigos poderiam não detetar.
Quanto mais os cientistas estudam este dinossauro, mais ele se destaca. Não era apenas mais um herbívoro a vaguear pela Austrália antiga.
Tinha a sua própria forma de encontrar alimento, mover-se no ambiente e tirar partido do que o rodeava.
O estudo completo foi publicado na revista PeerJ.
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