Se alguma vez sentiste que o teu amor é tão grande que só uma comparação cósmica o consegue explicar, o Universo tem analogias à altura.
Seja pela orientação quase fortuita de objectos no espaço, por histórias antigas de amantes ou por estrelas cujo comportamento parece carregar simbolismo, o cosmos está repleto de sinais de que o amor está, de facto, por todo o lado.
Estrelas de batimento cardíaco
Até as estrelas podem parecer bater em uníssono. As chamadas estrelas de batimento cardíaco são sistemas binários que dão a impressão de pulsar como um coração.
Nestes pares, as duas estrelas descrevem órbitas elípticas altamente excêntricas uma em torno da outra. À medida que se aproximam muito e depois se afastam, numa coreografia orbital complexa, as forças de maré variáveis esticam-nas por instantes, tornando-as mais alongadas, semelhantes a uma bola de futebol americano, o que altera a forma como a sua luz nos chega.
Quando esta variação é representada numa curva de luz, o padrão pulsante faz lembrar o traçado de um electrocardiograma – razão pela qual são, talvez, os sistemas estelares mais românticos do céu.
A Nebulosa da Roseta
A Nebulosa da Roseta é um excelente exemplo de como a perspectiva pode acrescentar significado. Esta região de formação estelar, inserida numa enorme nuvem molecular, aparece na maioria das imagens como uma rosa luminosa, de tons arco-íris e muitas “pétalas” – o símbolo floral por excelência do amor romântico.
No entanto, basta mudares ligeiramente o foco para a flor delicada se transformar num crânio, uma viragem que dá à ideia de romance um peso bem mais profundo. De um lado, a nebulosa parece dizer "Amo-te"; do outro, "até que a morte nos separe".
A Nebulosa do Colar
Se alguma vez te ocorreu pendurar estrelas cintilantes ao pescoço da tua cara-metade… bem, por várias razões, não é a melhor das ideias. Ainda assim, existe no céu uma composição belíssima de detritos que pode servir de inspiração.
A Nebulosa do Colar (PN G054.2-03.4) formou-se quando uma estrela, num sistema binário muito próximo, se expandiu para gigante vermelha e engoliu a sua companheira, num processo a que os astrónomos chamam fase de envelope comum. À medida que as duas espiralavam para mais perto, expulsaram para o espaço as camadas externas da gigante, criando algo que se assemelha a um anel em expansão de diamantes brilhantes.
É um objecto que evoca fogo-de-artifício cintilante, o desprendimento das camadas exteriores e uma aproximação como nunca, num abraço apertado. Ui.
A Nebulosa do Coração
A Nebulosa do Coração (IC 1805) pode parecer uma escolha óbvia, mas a sua pertinência vai além da semelhança visual com um coração. Faz parte de um vasto complexo de nuvens de formação estelar na constelação de Cassiopeia, e o seu brilho resulta da ionização provocada por um enxame de estrelas jovens, quentes e intensas no seu núcleo.
É a força quente e criativa do cosmos: um berçário estelar activo a dar origem às estrelas cintilantes que enchem o Universo de luz.
A Nebulosa do Anel
Se gostas, põe-lhe um anel… e há uma estrela em fim de vida que parece ter feito precisamente isso na deslumbrante Nebulosa do Anel (NGC 6720). Na verdade, este objecto não é um anel; trata-se de uma concha tridimensional de gás, expelida por uma estrela semelhante ao Sol ao transformar-se numa anã branca.
Essa estrutura continua a expandir-se e, com o tempo, acabará por se dissipar por completo. Em escalas de tempo cósmicas, a sua existência é breve: nebulosas deste tipo duram, no máximo, algumas dezenas de milhares de anos. Mas a pequena anã branca no centro permanecerá; e pensa-se que, eventualmente, estas estrelas cristalizam em blocos de carbono – uma espécie de diamante estelar no céu.
Perseu e Andrómeda
Há muito tempo, as histórias de amor eram inscritas nas estrelas. A lenda de Perseu e Andrómeda fala de uma donzela bela, de um monstro aterrador, de um salvamento audaz por um herói corajoso e, no fim, do desabrochar do amor.
Este enredo foi projectado no firmamento em duas constelações vizinhas, para que Perseu e Andrómeda ficassem juntos para sempre, com o seu romance eternizado pela luz das estrelas.
Tislit e Isli
Nem todas as estrelas ou exoplanetas recebem nomes próprios para lá das suas designações oficiais. Mas existe um par especial: WASP-161 e WASP-161b – uma estrela semelhante ao Sol e o seu gigante gasoso em órbita apertada – oficialmente baptizados de Tislit e Isli, palavras amazigue (berbere) que significam "noiva" e "noivo".
A lenda de Tislit e Isli conta a história de um casal de tribos rivais, impedido de casar. Diz-se que as suas lágrimas deram origem aos lagos vizinhos, em Marrocos, que hoje têm os seus nomes. Agora, talvez, estejam finalmente unidos no céu.
Um mundo cor-de-rosa
Quem diria que até os planetas poderiam corar? Um exoplaneta encaixa nessa imagem – pelo menos sob a luz certa. GJ 504 b, com cerca de quatro vezes a massa de Júpiter, é um dos raros exoplanetas que foram directamente registados em imagem.
Em observações no infravermelho feitas com o Telescópio Subaru, no Havai, GJ 504 b surge num magenta vivo, uma cor atribuída ao calor irradiado pela sua atmosfera. Na realidade, está longe de ser o exoplaneta mais quente conhecido… mas pode muito bem ser o cor-de-rosa mais encantador.
Uma rosa galáctica
O Universo está cheio de galáxias e, por vezes, elas aproximam-se numa dança orbital complexa que pode acabar numa fusão. Um exemplo dessa dança, que traduz de forma particularmente bonita a “romântica” união, é o par de galáxias conhecido por Arp 273.
À medida que giram uma em torno da outra, o jogo gravitacional estica e distorce os seus braços espirais. Do nosso ponto de vista na Terra, a configuração actual lembra uma enorme rosa a abrir no espaço.
Não é amor no sentido humano, mas até a astrofísica em acção consegue esculpir cenas que nos fazem lembrar romance e beleza em escalas verdadeiramente vertiginosas.
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