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Monte Etna: o raro mecanismo de magma por trás do vulcão mais activo da Europa

Homem a analisar pedaço de lava solidificada perto de vulcão ativo com fluxo de lava ao fundo.

O Monte Etna tem mais de meio milhão de anos, mas este enorme estratovulcão da Sicília continua longe de dar sinais de abrandar.

Com cerca de 3 400 metros de altitude, é o vulcão mais activo da Europa e, muitas vezes, regista várias erupções no mesmo ano.

O enigma do Monte Etna

O mais intrigante é que o Etna parece anormalmente “vigoroso”. É conhecido por expelir lavas alcalinas - algo pouco comum em estratovulcões - e fá-lo com uma frequência que, à partida, não deveria ser possível, tendo em conta o tempo normalmente necessário para produzir lava alcalina rica em voláteis.

Esta combinação torna o Etna um verdadeiro enigma. Apesar de um registo histórico longo - e de décadas de monitorização e investigação contemporâneas - não existe um processo geológico consensual que explique por completo como o vulcão se formou, nem de onde vem, de forma tão recorrente, todo o magma alcalino que alimenta as suas erupções.

Um estudo recente, contudo, apresenta pistas novas. Os dados indicam que o Etna é alimentado por um mecanismo raro de fornecimento de magma, desconhecido até às últimas décadas, e que costuma estar associado a pequenos vulcões submarinos - não a grandes estratocones como o Etna.

Segundo os investigadores, isto sugere que o Etna se formou e funciona de maneira diferente da maioria dos outros vulcões e que “pode ser um lugar único na Terra”, devido à forma invulgar como liberta magma preso na zona de baixa velocidade do planeta e o projeta para a superfície.

Estas conclusões são relevantes para a vulcanologia em geral e, em particular, para avaliar os perigos específicos colocados pelo Etna. O vulcão ergue-se perigosamente perto das cidades de Catânia e Messina, no leste da Sicília, ambas com centenas de milhares de habitantes.

Como os vulcões normalmente se formam

Em termos gerais, os vulcões nascem quando material do manto derrete, formando magma, e este ascende, abrindo caminho através da crosta até atingir a superfície, onde arrefece e solidifica. Tipicamente, este processo ocorre por uma de três vias.

A primeira acontece quando duas placas tectónicas se afastam: o material do manto sobe, funde-se e liberta lava ao longo do limite entre placas, que depois solidifica, formando nova crosta oceânica.

A segunda via ocorre em zonas de subducção, quando uma placa desliza por baixo de outra. A placa subductante transporta água para o manto, baixando o ponto de fusão do material e alimentando erupções que podem ser violentas.

Por fim, no interior das placas tectónicas, um ponto quente de material do manto sobreaquecido pode ascender até à superfície, originando frequentemente vulcões em escudo, como os que deram origem ao Havai.

A maior parte dos vulcões da Terra encaixa numa destas categorias - mas o Monte Etna não.

Embora seja um estratovulcão situado sobre uma zona de subducção, a composição química das suas lavas assemelha-se à dos vulcões de ponto quente - apesar de não existirem pontos quentes conhecidos nas proximidades.

Uma possível explicação: vulcanismo “petit-spot” no Etna

Para perceberem a razão, os autores recolheram amostras do Etna e usaram-nas para reconstruir o perfil químico das lavas ao longo dos últimos 500 000 anos.

O resultado foi surpreendente: a composição das lavas manteve-se notavelmente estável ao longo da história do vulcão, mesmo tendo ocorrido alterações tectónicas que, em muitos contextos, influenciariam facilmente vulcões locais.

Este padrão sugere que o Etna não se comporta como os vulcões tradicionais, cujas erupções costumam envolver magma formado há relativamente pouco tempo.

Em vez disso, o Etna parece ser abastecido de forma lenta por magma já existente, que ficou retido entre o manto superior e a base das placas tectónicas, a cerca de 80 quilómetros abaixo da superfície.

A formação de lava alcalina requer um baixo grau de fusão parcial no manto para conservar os seus teores de álcalis - o que implica que grandes quantidades não se formam rapidamente. Ainda assim, o Etna produz lava alcalina em abundância, ao que tudo indica graças a esta fonte de magma particular.

À medida que a Placa Africana subducta sob a Placa Eurasiática, o magma alcalino proveniente de algumas bolsas do manto superior parece subir por fraturas na crosta, como água a ser espremida de uma esponja.

Deste modo, o Etna poderá ser um vulcão do tipo “petit-spot”, uma categoria identificada pela primeira vez em 2006 e definida por magma extraído de bolsas no manto superior.

Mesmo assim, continua a ser uma anomalia, uma vez que os vulcões “petit-spot” tendem a ser pequenos - e não gigantes como o Etna.

“Nosso estudo sugere que o Etna pode ter-se formado através de um mecanismo semelhante ao que gera vulcões submarinos ‘petit-spot’”, afirma o autor principal, Sébastien Pilet, geocientista da Universidade de Lausana.

“Isto é inesperado, uma vez que estes processos só tinham sido observados anteriormente em estruturas vulcânicas muito pequenas, que normalmente não se elevam mais do que algumas centenas de metros.”

O estudo foi publicado na revista Journal of Geophysical Research: Terra Sólida.

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