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Conclusões do Fórum Económico Famalicão Made IN sobre defesa e inovação em Portugal

Grupo de pessoas em reunião a discutir plano digital numa sala com vista para a cidade.

A conversa sobre Defesa deixou de caber apenas nos quartéis. Hoje, é também uma decisão sobre indústria, tecnologia e economia - com efeitos diretos no valor criado no país, no emprego qualificado, na soberania e na forma como Portugal se posiciona lá fora. Num cenário geopolítico volátil, com a guerra na Ucrânia, a reconfiguração de alianças e uma corrida tecnológica cada vez mais intensa, o país enfrenta uma escolha clara: limitar-se a adquirir capacidades no exterior ou usar o investimento em Defesa para subir na cadeia de valor, reforçar a indústria nacional e ganhar escala no contexto europeu.

Foi precisamente essa mensagem que atravessou o Fórum Económico Famalicão Made IN, este ano sob o tema “A Melhor Defesa é a Inovação”. Organizado pela Câmara Municipal de Famalicão, realizou-se esta quarta-feira, dia 29 de abril, na Casa das Artes de Famalicão, com o Expresso como media partner. A ideia central ficou nítida: a indústria de segurança e Defesa pode tornar-se um dos grandes motores de inovação, soberania e crescimento económico em Portugal - mas só com visão estratégica, escala europeia, integração entre Estado, ciência e indústria, e uma aposta consistente na cadeia de valor. Num mundo mais instável, o risco já não está em investir em Defesa; está em fazê-lo sem inteligência e sem ambição.

5,8

mil milhões de euros foi o valor que Portugal investiu, cumprindo, pela primeira vez, em 2025, a meta de investir 2% do PIB em Defesa, com o apoio do programa SAFE (Strategic Architecture for European Defence)

O debate sobre defesa, inovação e economia mostrou um alinhamento claro entre decisores políticos, indústria, autarquias e reflexão estratégica. Apresentado pela jornalista Cristina Freitas, da SIC, juntou intervenientes como Mário Passos, presidente da Câmara Municipal de Famalicão; Nuno Melo, ministro da Defesa Nacional; e Paulo Portas, keynote speaker, numa reflexão sobre a Europa 2030. Representantes centrais da indústria e do ecossistema tecnológico, como Miguel Braga, diretor da área de Aeronáutica e Defesa do CEIIA; Pedro Petiz, diretor de Desenvolvimento Estratégico da Tekever; e Braz Costa, diretor-geral da COTEC e presidente do CENTI, integraram um painel dedicado à “Competitividade e inovação na indústria”. Já Ricardo Pinheiro Alves, presidente do IDD Portugal Defence; António Baptista, diretor-geral de Armamento e Património da Defesa Nacional; e Fernando Cunha, CEO da Beyond Composite, discutiram oportunidades de negócio na área da defesa - ambos os painéis moderados por Bernardo Ferrão, Diretor de Informação da SIC.

Conheça as principais conclusões do debate

Defesa como política económica e industrial

  • Indústria, inovação e segurança andam hoje lado a lado, frisou Mário Passos, defendendo que a Defesa é um instrumento de soberania económica e que o futuro pertence aos territórios capazes de transformar inovação em valor.
  • Investir em Defesa é “um acto de lucidez orientado para a paz”, mas também para o desenvolvimento económico. Nuno Melo destacou, em particular, a aposta no ciclo de vida dos equipamentos - produção, manutenção e modernização em Portugal.
  • Paulo Portas foi direto: não há paz sem Defesa, e a prosperidade económica europeia depende de uma capacidade de segurança credível.
  • Para Ricardo Pinheiro Alves, a Defesa cria emprego e produz efeitos económicos diretos e indiretos, com maior impacto quando o investimento fica na economia nacional.

Subir na cadeia de valor é a questão central

  • Miguel Braga identificou como grande desafio estratégico a passagem do protótipo ao produto, sobretudo em áreas como drones e satélites, sublinhando que sem apoio público consistente não existe salto estrutural.
  • A falta de integradores e prime contractors nacionais, alertou Fernando Cunha, é um travão: cada investimento deve ser avaliado pelo nível de dependência tecnológica que gera no longo prazo.
  • Mário Passos voltou a reforçar que não chega produzir: é essencial criar, liderar e controlar valor.
  • Nuno Melo referiu que os programas em curso - drones, satélites, blindados, construção naval e eventual fábrica de aviões - procuram precisamente reposicionar Portugal na cadeia de valor.
  • António Baptista lembrou que a indústria portuguesa tem qualidade, mas precisa de escala para competir.

Portugal como polo especializado

  • O Diretor de Desenvolvimento Estratégico da TEKEVER foi claro: o mercado da Defesa é internacional e nenhum país médio consegue competir sozinho. A resposta passa pela integração europeia. António Baptista destacou ainda a relevância do SAFE e dos programas conjuntos para ganhar escala, reduzir riscos e partilhar conhecimento.
  • No mesmo alinhamento, Paulo Portas defendeu o reforço do pilar europeu da NATO, rejeitando uma Defesa exclusivamente europeia desligada dos EUA, por ser mais cara e menos eficaz.
  • Miguel Braga alertou também para a necessidade de proteger o valor nacional nas aquisições públicas, evitando que o investimento “fuja” para fora depois de capacitar empresas portuguesas.

Território, clusters e pessoas fazem a diferença

  • Mário Passos apresentou Famalicão como exemplo de território industrial com inovação aplicada, forte vocação exportadora e investimento contínuo. Braz Costa salientou que Portugal tem hoje capital humano e competências técnicas que não existiam há duas décadas, mas precisa de ligar melhor as pontas das cadeias de valor.
  • Tanto Ricardo Pinheiro Alves como Fernando Cunha reforçaram a importância de ouvir as empresas, trabalhar em rede e preparar os próximos ciclos de investimento, evitando decisões pontuais e avulsas.

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