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Como os grandes símios imitam expressões faciais com precisão

Homem de bata branca observa chimpanzé sentado à mesa com tablet e objetos coloridos num ambiente fechado.

Um simples sorriso pode esconder um significado profundo. Um estudo recente mostra que os grandes símios recorrem a expressões faciais de forma cuidadosa e precisa durante as interações sociais.

Em vez de apenas exibirem emoções, estes animais imitam as expressões uns dos outros com uma exactidão inesperada.

A investigação, conduzida por cientistas da Universidade de Portsmouth, procurou perceber de que maneira a comunicação poderá ter evoluído muito antes de os humanos começarem a usar a linguagem.

Grandes símios copiam expressões de riso

O trabalho centrou-se na forma como orangotangos e chimpanzés reproduzem “caras de riso” durante as brincadeiras. Estas expressões lembram os sorrisos e o riso nos humanos.

Nas pessoas, um sorriso genuíno é conhecido como sorriso de Duchenne e envolve tanto a boca como os olhos. Os resultados sugerem que os grandes símios também recorrem a expressões com pormenor semelhante, activando músculos faciais específicos de forma coordenada.

Esta correspondência ajuda os indivíduos a compreenderem-se melhor e torna mais fácil antecipar como o outro poderá agir a seguir.

Estudar grandes símios em ambientes reais

Os investigadores acompanharam 96 grandes símios, entre os quais 39 orangotangos e 57 chimpanzés. Os animais viviam em contextos naturais ou semi-naturais, como o Centro de Reabilitação de Orangotangos de Sepilok, na Malásia, e o Orfanato de Vida Selvagem de Chimfunshi, na Zâmbia.

A equipa registou centenas de sessões de brincadeira e analisou como um símio reagia à expressão facial de outro.

Sempre que um indivíduo fazia uma cara de riso, os cientistas verificavam se o parceiro a reproduzia no espaço de 3 segundos. Este intervalo curto permitiu captar tanto reacções rápidas e automáticas como respostas mais lentas.

Não é apenas copiar, é copiar ao detalhe

Os dados revelaram algo invulgar: os grandes símios não se limitavam a imitar expressões de forma genérica - igualavam o tipo exacto de movimento facial.

Por exemplo, quando um símio apresentava uma cara de riso sem mostrar os dentes superiores, era frequente o outro repetir exactamente essa mesma variante. A isto chama-se replicação facial exacta.

“O que descobrimos foi notável”, afirmou a autora principal do estudo, Diane Austry, investigadora da Universidade de Portsmouth.

“Estes animais não replicam apenas uma expressão geral; copiam o mesmo padrão de movimentos faciais que o seu parceiro social utiliza.”

“Os grandes símios mostraram o mesmo padrão tanto em respostas rápidas e automáticas como em respostas mais tardias.”

Expressões mais suaves são preferidas

O estudo concluiu que os grandes símios tendem a imitar expressões mais suaves. São as caras de riso em que os dentes superiores não ficam visíveis e que se associam menos a brincadeiras mais duras ou arriscadas.

Mostrar os dentes pode, por vezes, funcionar como sinal de agressividade ou de perigo. Ao corresponderem a expressões mais “brandas”, os símios mantêm as interacções mais amistosas e seguras.

Esta afinação cuidadosa ajuda-os a manterem ligação emocional e a diminuir mal-entendidos durante a brincadeira.

Aprender enquanto se brinca

Para os grandes símios, brincar não serve apenas para entretenimento - é também uma forma de desenvolver competências sociais e emocionais. O estudo observou que sessões de brincadeira mais longas aumentavam a precisão com que os orangotangos copiavam expressões.

Interacções prolongadas dão mais tempo para observar e responder, além de facilitarem a leitura das emoções do outro. Com o tempo, isso reforça os laços sociais.

Muitas respostas ocorreram muito depressa, frequentemente em 1 segundo. Isto indica que algumas reacções são automáticas, enquanto outras precisam de mais tempo.

Grandes símios, humanos e a imitação de expressões

“Este nível de replicação explícita não era anteriormente conhecido em todo o conjunto dos grandes símios”, disse a Dr.ª Marina Davila-Ross, professora associada de psicologia comparativa na Universidade de Portsmouth.

“Além disso, estas expressões são partilhadas com os humanos - investigação anterior que mediu a actividade muscular mostra que chimpanzés e humanos usam os mesmos músculos para produzir caras de riso. Isto aponta para uma complexidade real na comunicação positiva entre os grandes símios.”

A investigação aponta para a possibilidade de humanos e grandes símios partilharem um sistema comum de comunicação facial. Esta capacidade poderá recuar a 10 a 16 milhões de anos.

Os cientistas designam este fenómeno por continuidade evolutiva: a ideia de que a comunicação humana tem raízes profundas em espécies anteriores.

Diferenças entre espécies

Tanto os orangotangos como os chimpanzés demonstraram este comportamento, mas com padrões distintos.

Os chimpanzés evitavam muitas vezes imitar expressões em que os dentes superiores estavam visíveis, sobretudo durante brincadeiras mais bruscas. Isso poderá ajudá-los a não emitir sinais que favoreçam o conflito.

Nos orangotangos, verificou-se uma ligação mais forte entre sessões de brincadeira mais longas e uma correspondência mais precisa. Esta diferença pode relacionar-se com a organização social de cada espécie.

Os chimpanzés vivem em grupos numerosos, enquanto os orangotangos tendem a viver de forma mais independente.

Mais do que apenas brincadeira

Os investigadores pretendem analisar de que modo estas expressões funcionam fora do contexto lúdico, onde a face pode transmitir significados diferentes consoante a situação.

“No futuro, estamos interessados em explorar como estas expressões podem ser usadas para além da brincadeira”, disse a Dr.ª Davila-Ross.

“O conceito de continuidade evolutiva é fascinante - nos humanos, os sorrisos têm muitos propósitos, desde expressar felicidade até transmitir escárnio, por isso seria interessante examinar estas expressões fora de um contexto de brincadeira.”

Um significado mais profundo por trás de um sorriso

Este trabalho altera a forma como compreendemos a comunicação animal. Uma expressão facial simples pode transmitir emoção, criar confiança e orientar o comportamento.

Os grandes símios reagem com cuidado e precisão, sugerindo que as bases da comunicação humana vão muito além das palavras. Um sorriso não é apenas uma resposta: é uma forma poderosa de ligação, mesmo entre espécies.


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