Ter um passaporte, pagar impostos ou poder contestar uma decisão em tribunal parecem coisas totalmente do século XXI. Mas estes gestos do dia a dia assentam numa linha histórica que recua até ao início do século III. Em 212 d.C., o imperador Caracala mudou, por decreto, as regras de pertença ao Império Romano - e acabou por lançar algumas das bases do que hoje reconhecemos como direitos modernos de cidadania.
Num império enorme e diverso, a decisão não foi um detalhe administrativo. Foi uma viragem na forma como o Estado definia quem “contava” perante a lei - e quem ficava fora.
Ein Kaiser, ein Erlass, Millionen neue Bürger
Caracala, imperador romano da dinastia dos Severos, liderava em 212 d.C. um vasto império multiétnico. Da Britânia ao Reno e ao Danúbio, e daí até ao Egipto e à Mesopotâmia, viviam sob domínio romano populações muito diferentes - e, do ponto de vista jurídico, estavam longe de ser tratadas da mesma maneira.
Na altura, apenas uma pequena parte das pessoas tinha a cidadania romana plena; as estimativas apontam para cerca de 10 a 15 por cento. Essa minoria beneficiava de direitos específicos: casamentos reconhecidos legalmente, heranças mais protegidas, salvaguardas face a certas penas e acesso a cargos. O resto da população livre era, na prática, súbdita sem estatuto de cidadão.
Com a chamada Constitutio Antoniniana, o édito do imperador, isso mudou de forma abrupta: todos os homens livres do império passaram a ser declarados cidadãos romanos - com uma exceção importante: o grupo dos chamados dediticii, pessoas sem direitos de cidadania, muitas vezes antigos inimigos ou indivíduos colocados numa condição especialmente desprotegida, ficou excluído.
Pela primeira vez na história romana, quase todos os habitantes livres do império partilhavam o mesmo estatuto de cidadão - pelo menos no papel.
Para quem foi abrangido, não se tratou apenas de um gesto simbólico. Passaram a ter novos direitos: podiam celebrar casamentos reconhecidos, transmitir património com mais clareza, atuar sob a proteção do direito civil romano e eram oficialmente vistos como parte de uma ordem política comum.
Vom Herrschaftsgebiet zur verwalteten Gemeinschaft
Durante muito tempo, a expansão romana foi sobretudo um projeto de conquista militar. O passo de Caracala deslocou o centro de gravidade para a integração e a administração. O império passou a definir-se menos pela separação entre “romanos” e “submetidos” e mais por uma ordem jurídica partilhada.
Juristas da época registaram que, a partir daí, “todos os que vivem no espaço romano são cidadãos”. As fronteiras entre Roma, Itália e províncias esbateram-se - pelo menos no texto da lei. Um comerciante sírio, um camponês egípcio e um artesão gaulês deveriam, no essencial, ter a mesma posição jurídica que um habitante urbano de Roma.
Mehr Bürger, mehr Einnahmen: Die Schattenseite des Edikts
Caracala não era um idealista movido por filantropia. Por trás do gesto aparentemente generoso havia motivos bem concretos - financeiros e de poder. Porque, com a cidadania, vinham não só direitos, mas também obrigações.
Muitos impostos no sistema romano atingiam originalmente apenas cidadãos, como um imposto sucessório de cinco por cento sobre heranças e legados. Quem não era cidadão ficava, em grande medida, fora desse alcance. Com o édito, o número de contribuintes aumentou de repente, e de forma significativa.
A nova “igualdade” perante a lei significou, para milhões, sobretudo isto: passaram a cair na rede das autoridades fiscais romanas.
O contexto é claro: o exército imperial consumia uma fatia enorme do orçamento do Estado - estimativas falam em até 80 por cento da despesa. Caracala tinha aumentado substancialmente o soldo dos soldados para garantir a lealdade das tropas. Para isso, precisava de receitas mais previsíveis e em crescimento.
Ao transformar quase todos os habitantes livres em cidadãos, tornou-se possível uniformizar impostos. A antiga separação - complexa - entre tributos de cidadãos e encargos de não cidadãos perdeu relevância. Para a administração nas províncias, o cenário ficou mais simples: um império, um esquema fiscal de base, uma base de cobrança muito mais ampla.
- Mais cidadãos significavam: mais contribuintes.
- Mesmo direito significava: regras mais uniformes para heranças e património.
- Obrigações padronizadas facilitavam a fiscalização e a cobrança dos impostos.
Observadores da Antiguidade acusaram Caracala de ter “honrado” os provinciais apenas para lhes impor novos impostos. A crítica não era descabida, embora rivalidades pessoais também tenham influenciado esses juízos.
Gleiches Recht für alle – aber nicht für jeden gleich
No pergaminho, a reforma soava radical: um estatuto comum de cidadão, um direito comum. No terreno, porém, o quotidiano manteve-se bem mais contraditório.
Em teoria, o cidadão romano era especialmente protegido. Tinha direito a um processo regular, em muitos casos não podia ser torturado nem sofrer penas humilhantes, e podia recorrer de decisões até ao imperador. Com a expansão massiva da cidadania, esta possibilidade passou, em princípio, a estar aberta a milhões.
Mas tribunais, funcionários e elites locais continuaram a variar muito. Em regiões remotas, o direito romano misturava-se com costumes locais antigos. No Egipto ou no Norte de África, práticas tradicionais mantiveram-se vivas, ainda que oficialmente subordinadas ao enquadramento romano.
Além disso, nem todos os “novos cidadãos” passaram a ter verdadeira participação política. Muitos receberam uma espécie de cidadania mais limitada. Adotavam agora um nome latino, muitas vezes com o elemento “Aurelius”, numa referência direta a Caracala, mas continuavam excluídos de certos cargos honoríficos e dos lugares de topo nas cidades.
A nova unidade jurídica funcionou como um filtro: ligou mais pessoas ao Estado, sem lhes dar a todas as mesmas oportunidades.
Os dediticii, explicitamente excluídos, ficaram à margem do sistema. Não tinham direitos plenos, eram frequentemente usados como mão de obra barata ou em unidades especiais, e só de forma limitada conseguiam defender-se contra arbitrariedades. A criação de um estatuto quase universal de cidadania tornou a sua exclusão ainda mais visível.
Von lateinischen Dreifachnamen zum modernen Reisepass
Muitos elementos que hoje nos parecem banais já apontavam, então, para uma administração “moderna”. Os romanos usavam tipicamente três nomes: um nome próprio, um nome de família e um cognome. Esta combinação funcionava como uma espécie de identificador inicial.
Com a expansão da cidadania, inúmeros indivíduos receberam oficialmente nomes latinos, foram inscritos em listas e registos e passaram a aparecer em formulários que documentavam impostos, serviço militar e atos jurídicos. Quem era cidadão existia no sistema - quem não era ficava desprotegido ou apenas registado de forma limitada.
Hoje, essa função é desempenhada por passaportes, Cartão de Cidadão e certidões de nascimento. Um Estado moderno define a sua população por inscrições em registos e por combinações inequívocas de nome, data de nascimento e número. A lógica aproxima-se do modelo romano: só quem pode ser identificado e atribuído de forma clara é que pode ser protegido, tributado e administrado.
Steuern als Bürgerpflicht – damals wie heute
Quem vive hoje numa democracia associa direitos de cidadania a votar, liberdade de expressão ou liberdade de reunião. Há, porém, outro ponto - menos popular - que faz parte do pacote: pagar impostos. A ideia de que todos os cidadãos devem contribuir para a comunidade segundo a sua capacidade também tem uma antepassada romana.
Com o passo de Caracala, ficou evidente: ser cidadão é participar - mas também pagar. Sem receitas, o império não conseguia financiar os seus exércitos, manter estradas ou sustentar a administração. Assim, a ligação entre estatuto e obrigação tributária foi estabelecida em grande escala.
Was diese 1.800 Jahre alte Entscheidung mit uns zu tun hat
Quem hoje vai a tribunal e contesta um despacho administrativo está, indiretamente, a tocar numa tradição romana. A ideia de que todos os cidadãos devem ter, em princípio, os mesmos direitos - mesmo que a realidade muitas vezes não cumpra o ideal - apareceu no Império Romano numa forma precoce.
O édito de Caracala criou uma moldura jurídica comum sobre uma área gigantesca. Mais tarde, o direito medieval e o da Idade Moderna voltaram repetidamente às fontes romanas, por exemplo através da compilação legislativa de Justiniano. Via universidades e chancelarias, essa herança acabou por chegar a constituições modernas e a códigos civis.
Claro que os valores são muito diferentes: os direitos de cidadania na Antiguidade não incluíam sufrágio universal nem igualdade entre géneros. Ainda assim, certos “componentes técnicos” - espaços jurídicos unificados, cobrança fiscal centralizada, identidade ligada à pertença ao Estado - foram testados e desenvolvidos nessa época.
Por isso, quando alguém segura hoje um passaporte moderno, não está apenas a olhar para um pedaço de plástico com elementos de segurança. Está a ver a velha ideia de que um Estado reconhece pessoas como cidadãos, atribui-lhes direitos, impõe-lhes deveres e integra-as num mesmo enquadramento legal. Em 212 d.C., um imperador romano mexeu nessas engrenagens - provavelmente sem imaginar até onde o seu decreto iria ecoar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário