A existência de um partido como o Chega, com a influência que hoje detém, tem efeitos que se fazem sentir para lá dele: as instituições degradam-se e os restantes atores políticos acabam, muitas vezes, por absorver parte do estilo. A pouco e pouco, deixa de chegar ter razão; começa-se a desconfiar da força dos argumentos e troca-se o debate pela teatralização, pela mentira, pelo insulto infantil e pela falta de educação. As celebrações e cerimónias do 25 de Abril deixaram dois exemplos claros desse desvio.
Vídeos manipulados e o debate sobre a IL no 25 de Abril
Uma das estratégias recorrentes de Ventura e companhia passa por editar e manipular vídeos que, depois, circulam e viralizam nas redes sociais, com o objetivo de ridicularizar adversários. No programa de debate “Estado d’Arte”, da RTP Notícias, onde participa Susana Peralta (de quem sou amigo), Henrique Pinto de Mesquita lamentou que, noutras ocasiões, quando membros da IL desceram a Avenida da Liberdade nas comemorações do 25 de Abril, tenham levado “uns apertos”. A queixa era legítima: há um setor da esquerda que, na prática, não aceita todos nessas comemorações. Peralta respondeu de imediato, sem hesitar, que esses apertos tinham sido uma vergonha.
No dia seguinte, Mariana Leitão publicou nas redes sociais um vídeo onde se ouvia Peralta dizer “e bem”, acompanhando-o com a legenda: “No programa ‘Estado D’Arte’, da RTP Notícias, foi dito que ‘é bem’ que a Iniciativa Liberal leve uns apertos na descida da Avenida da Liberdade. Ora, foi exatamente contra os que se acham donos do país e que acham que têm o direito a ‘dar uns apertos’ a quem exerce a sua liberdade que se fez o 25 de Abril.” Para sustentar uma mensagem falsa, a líder da IL fez um corte milimétrico e colocou a visada no pelourinho das redes sociais, para que fosse alvo de insultos. Como depressa ficou esclarecido, aquele “e bem” era um aparte dirigido ao convite que o Livre tinha feito à IL para desfilar no Dia da Liberdade. Uma semana depois, Mariana Leitão não apagou o vídeo nem publicou uma nota mínima de retratação.
É verdade que Leitão tem razão quando denuncia a tentação de certa esquerda de se arrogar o direito de definir quem pode e quem não pode celebrar o 25 de Abril. E, como se confirmou logo no dia seguinte, a comitiva da IL voltou a ser insultada durante o desfile - algo que é, tal como Peralta afirmara, uma vergonha. Mas, para ela, não bastou ter razão.
A esquerda, a rua e a resposta de José Neves
Para a esquerda que não quer dividir a rua com a IL, há um remédio simples. Cito José Neves, professor na Nova FCSH, dirigindo-se à esquerda irritada com a IL: “Pessoal, se estão muito incomodados com a presença da Iniciativa Liberal na manifestação do 25 de abril, tenho uma solução para vocês: ide à manifestação do Primeiro de Maio, que aí os amigos do Cotrim não metem os pés.”
Um gesto na Assembleia da República e a transparência
O segundo exemplo ocorreu nas comemorações oficiais do 25 de Abril na Assembleia da República. O deputado socialista Pedro Delgado Alves levantou-se e, de forma ostensiva, virou as costas ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, no momento em que se aplaudia a sua intervenção. Não foi apenas a recusa em aplaudir: houve a vontade deliberada de garantir um momento teatral e infantil.
O discurso de Aguiar-Branco foi, do ponto de vista da retórica parlamentar, possivelmente o melhor da sessão. Trouxe humor, exemplos, caricatura, ironia e uma ideia central: estamos a ir longe demais nas regras de transparência exigidas aos políticos, com efeitos nefastos.
Os problemas da nossa democracia não decorrem das regras de transparência e dos conflitos de interesses. Pelo contrário, talvez não tenhamos ido suficientemente longe
Mais uma vez, na substância, Pedro Delgado Alves tem razão. Os problemas da nossa democracia não se explicam por excesso de transparência nem pelos mecanismos de prevenção de conflitos de interesses; pelo contrário, talvez o país nem sequer tenha avançado o suficiente. Recuar nesse campo seria terreno fértil para populistas. Ainda assim, aquilo que Aguiar-Branco defendeu não constitui um ataque à democracia, não é um insulto dirigido a alguém, nem uma agressão aos valores constitucionais. É uma opinião - da qual discordo de forma veemente - que deve ser contrariada com argumentos. De resto, o Presidente da República, que falou no final, respondeu-lhe de imediato. Delgado Alves não podia replicar naquela sessão, mas terá muitas oportunidades para o fazer.
Os dois episódios não são equivalentes em gravidade: num, fez-se circular uma mensagem falsa; no outro, encenou-se um gesto pueril. Em ambos, porém, o confronto de argumentos foi trocado por encenação moral.
Post-scriptum - O Presidente da República convidou-me, e aceitei, para ser consultor para assuntos económicos da Casa Civil. Sou professor a tempo inteiro na Universidade do Minho e é nessa qualidade que continuarei a assinar. Evitarei falar de assuntos que envolvam o Presidente da República quando haja conflito de interesses, mas opinarei com liberdade. Nada do que eu escreva compromete o Presidente, sou seu consultor e não seu porta-voz.
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