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Cheng Li-wun prepara viagem aos EUA após visita a Pequim

Mulher em fato profissional, com passaporte e bilhete, em sala de reuniões com aeroporto ao fundo.

Poucas semanas depois de regressar de uma deslocação oficial a Pequim, a líder da oposição em Taiwan, Cheng Li-wun, confirmou que já prepara uma nova viagem - desta vez para o outro pólo da equação política: os Estados Unidos da América (EUA). Num programa de rádio, Cheng Li-wun adiantou que pretende ir aos EUA em junho, por cerca de dez dias, e que está a articular o percurso com Washington. Ainda assim, disse não poder confirmar, para já, se irá reunir-se com responsáveis do Departamento de Estado norte-americano, segundo noticiou o jornal “Taipei Times”.

Viagem a Pequim: mensagem de “paz” e aproximação no estreito

Cheng Li-wun tornou-se a primeira líder do partido nacionalista de Taiwan, o Kuomintang (KMT), a deslocar-se a Pequim em dez anos. Enquadrou a travessia do estreito como uma missão “pela paz”, uma fórmula que repetiu ao longo da visita e que surgiu em paralelo com o debate no Parlamento taiwanês sobre um plano extraordinário de despesa em defesa. “O que deve voar no céu são pássaros, não mísseis”, disse.

Na mesma linha, assumiu a intenção de “reconciliação e unidade” no estreito e deixou subentendido que, caso o KMT volte a governar em Taiwan, vai convidar o Presidente chinês, Xi Jinping, a visitar a ilha. Do lado de Pequim, Xi defendeu que o KMT e o Partido Comunista devem unir esforços “para criar um futuro brilhante da reunificação da pátria” e reiterou que a China “não vai tolerar” a independência de Taiwan.

Sondagem TVBS: apoio a negociações, mas divisão sobre Cheng Li-wun

Uma sondagem da emissora TVBS indicou que dois terços dos inquiridos querem que sejam retomadas negociações oficiais entre as duas margens do estreito. Esse apoio, contudo, não significa necessariamente que desejem ver a oposição a liderar esse processo: apenas 39% disseram apoiar o encontro de Cheng Li-wun com Xi Jinping.

Os resultados também expõem uma forte polarização sobre o significado político do encontro: 43% responderam que acreditam ter contribuído para a paz, enquanto 39% discordaram dessa leitura e 19% afirmaram não ter opinião.

“Apesar de a sua postura na China ter agradado a alguns elementos dentro do KMT, não reuniu muito apoio entre o eleitorado de Taiwan alargado. Pode usar a visita aos EUA para tentar contrabalançar parte do impacto político da sua viagem à China. Durante a visita, pode posicionar-se e ao KMT como defensores da manutenção de estabilidade entre Taiwan e a China”, escreveu Allen Carlson, professor associado da Universidade Cornell, em resposta ao Expresso.

Para Carlson, esta abordagem poderá ser “apelativa” para a administração de Donald Trump - que vai a Pequim em maio, uma viagem que adiou por causa da guerra contra o Irão -, já que “tem interesse em prolongar a atual détente relativa entre os EUA e a China e em declarar vitória ou, pelo menos, o fim da guerra comercial entre os dois países”. Ainda assim, o académico ressalva o reverso: “Ao mesmo tempo, os críticos da China no Congresso (e na administração) vão provavelmente vê-la como sendo demasiado branda com Pequim. Podemos esperar que a sua receção na América seja, na melhor das hipóteses, mista”, analisa.

Influência “marginal” na administração americana

É expectável que a viagem da líder do KMT aos EUA inclua reuniões com figuras políticas, a quem Cheng quer apresentar temas estratégicos que considera “muito mais críticos” do que o orçamento da defesa. A mensagem a transmitir passa também por sublinhar que procurar aproximação à China não equivale a “virar as costas aos EUA”. Recorde-se que o Partido Democrático Progressista (DPP), que está no poder, apresentou uma proposta governamental de 40 mil milhões de dólares (34,5 mil milhões de euros) para investimento extraordinário em defesa.

Entretanto, o Presidente de Taiwan, Lai Ching-te, defendeu que os diferentes partidos “podem competir”, mas que, “em matéria de defesa nacional”, é preciso “mostrar ao mundo que estamos unidos”. Na sua perspetiva, a paz entre Taipé e Pequim “deve basear-se na força” e não ser um “presente de ditadores”.

Ainda assim, Carlson considera que a capacidade de Cheng Li-wun para influenciar o nível de apoio dado por Trump a Taiwan deverá ser “marginal”. “A política dos EUA é ditada mais por preocupações com a China do que com a política complexa e variável da democracia vibrante de Taiwan. Não que as oscilações entre o KMT e o DPP não tenham importância, mas Washington fará, em relação a Taiwan (e à China), o que considerar mais adequado aos interesses nacionais americanos”, observa.

Enquadramento: estatuto de Taiwan e pressão militar da China

Taiwan é governada de forma autónoma desde 1949, quando os nacionalistas chineses perderam a guerra civil contra o Partido Comunista e se refugiaram na ilha, que conserva a designação oficial de República da China. Dispõe de Constituição própria e de um sistema democrático. A China, oficialmente República Popular da China, reivindica Taiwan como parte do seu território e realiza com regularidade manobras militares nas imediações da ilha.


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