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Estreito de Ormuz: o petróleo já não causa recessão, mas ainda condiciona o BCE

Homem de negócios analisa gráficos financeiros sentado à secretária com moedas e laptop numa sala iluminada.

Durante muitos anos, o Estreito de Ormuz foi praticamente um sinónimo de crise. Qualquer interrupção neste ponto crítico marítimo para o comércio internacional, um dos corredores mais importantes para a passagem de petróleo a nível mundial, seria suficiente para desencadear choques económicos globais, agravar a inflação e, nalguns casos, empurrar economias para recessão. Hoje, essa relação automática já não é tão clara.

Ao olhar para o passado, encontra-se uma ligação forte entre grandes choques energéticos e danos macroeconómicos. Os choques petrolíferos da década de 1970, bem como a invasão do Kuwait em 1990 e a subsequente Primeira Guerra do Golfo, estiveram associados a recessões e a fases de estagflação. Mesmo episódios mais recentes, como a guerra do Iraque em 2003, também deixaram marca na economia, embora de forma mais contida. Já em 2022, a invasão russa da Ucrânia provocou uma crise energética com pressões inflacionistas intensas, em particular através do gás natural.

Ormuz e os preços da energia: impacto mais contido

O enquadramento atual é claramente distinto. Embora um bloqueio de Ormuz continue a ser um risco muito elevado para o fornecimento de petróleo, os efeitos observados até agora têm sido mais moderados. Tanto o gás natural como a eletricidade permanecem muito abaixo dos níveis de 2022. Na Europa, o TTF holandês (preço de mercado) subiu numa primeira fase, mas acabou por corrigir; nos Estados Unidos, o índice de referência Henry Hub continua abaixo dos níveis pré-conflito. Esta estabilidade tem ajudado a travar efeitos em cadeia nos mercados energéticos e, por extensão, na inflação.

Menor intensidade energética e um cabaz energético mais diversificado

Parte desta capacidade de resistência explica-se por mudanças estruturais na economia global. Desde os anos 70, a intensidade energética diminuiu de forma expressiva, o que reduz o impacto direto de choques petrolíferos na inflação. Em paralelo, o cabaz energético primário tornou-se mais diversificado: as energias renováveis e a energia nuclear ganharam peso e a eletrificação da economia tem vindo a aumentar.

A China é um exemplo elucidativo desta transformação. Apesar de continuar dependente de combustíveis fósseis, a dimensão da sua economia, combinada com um peso relativamente baixo do petróleo no seu consumo energético - o mais baixo do mundo, a par da Islândia - e com o domínio do carvão como principal fonte de energia, maioritariamente produzido internamente, ajuda a amortecer o efeito de choques petrolíferos.

Mercados financeiros e matérias-primas: sinais de menor vulnerabilidade

Também nos mercados financeiros há sinais de robustez. O S&P 500, depois de uma correção superior a 10%, voltou a máximos históricos, e os principais índices acionistas europeus igualmente recuperaram. Este padrão contrasta com o observado noutras crises e constitui evidência empírica de uma menor vulnerabilidade estrutural.

A leitura é reforçada pela evolução recente das matérias-primas. Nos últimos anos, o cobre, considerado o principal termómetro da atividade económica, valorizou de forma significativa, enquanto o petróleo desceu e perdeu importância como indicador do ciclo económico, passando a refletir sobretudo dinâmicas específicas do mercado energético e tensões geopolíticas. O ouro, por sua vez, mantém um papel estrutural de ativo de refúgio, particularmente relevante em períodos de incerteza económica e geopolítica.

Ainda assim, o petróleo continua a ter um papel central na economia global. O consumo mantém-se elevado, perto dos 100 milhões de barris por dia, muito acima dos 50 milhões em 1970. Tal como o carvão substituiu gradualmente a biomassa sem que esta tenha desaparecido, também o petróleo deverá perder hegemonia nas próximas décadas - mas trata-se de uma mudança lenta. No curto prazo, a sua relevância é visível na forma como influencia as expectativas de política monetária.

No final de março, quando o Brent cotou a 120 dólares por barril, os mercados passaram a antecipar que o BCE faria três subidas de 25 pontos base das taxas de juro ao longo de 2026. Chegou mesmo a estar, nessa altura, em cima da mesa uma subida já na reunião de 30 de abril, mas essa hipótese foi sendo afastada à medida que o petróleo recuou em abril.

Em suma, Ormuz pode não ser o gatilho de uma crise global e o petróleo já não ter a mesma capacidade de provocar recessões, mas continua, ainda assim, a definir o compasso da política monetária - pelo menos no caso do BCE.

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