Da crise de 2008 à procura de uma nova bolha
Quando observo a atual corrida ao crédito, vem-me logo à memória uma notícia satírica do “The Onion”, publicada em julho de 2008: “Recession-Plagued Nation Demands New Bubble To Invest In”. Nessa altura, a crise financeira ainda estava a ganhar força e faltavam dois meses para o colapso do Lehman Brothers, mas o jornal norte-americano já gozava com a pressa coletiva em encontrar uma nova bolha onde todos pudessem voltar a investir com entusiasmo.
As crises tendem a funcionar, durante algum tempo, como travão aos comportamentos de risco - um efeito preventivo que, com os anos, se vai esbatendo. Em Portugal, essa experiência ajudou a consolidar a noção de que era essencial controlar as contas públicas e baixar a dívida. Ainda assim, é possível que não tenha existido pedagogia suficiente sobre aquilo que o endividamento implica do ponto de vista macroeconómico.
Quinze anos após a troika: o regresso do crédito das famílias
Passados quinze anos desde o arranque do programa da troika - com o memorando assinado na manhã de 3 maio de 2011 - voltamos a ver os particulares a recorrer ao crédito como se o futuro não trouxesse consequências.
Entretanto, Estado e empresas mostraram contenção; as famílias, nem por isso. A dívida pública está hoje abaixo de 90% do PIB (apesar de ter aumentado em termos nominais) e a dívida das empresas não financeiras aos bancos equivale a dois terços do que era. Já do lado das famílias, o ritmo parece ignorar o passado: o crédito bancário total voltou a atingir, no final do ano passado, o máximo de 2011 e já vai em 146,4 mil milhões.
A fatia mais relevante é, naturalmente, a do crédito à habitação. Só no ano passado, o stock aumentou €11,9 mil milhões - o terceiro maior crescimento anual de sempre, apenas superado por 2006 (€15,2 mil milhões) e 2007 (€12,3 mil milhões).
Riscos agregados e o alerta do Banco de Portugal
Há, ainda assim, dois aspetos que importa realçar. Primeiro: em percentagem do PIB, a dívida das famílias é hoje significativamente inferior ao nível que tinha quando a troika chegou a Portugal. Segundo: como os restantes setores (Estado e empresas) têm permanecido mais contidos, o peso do endividamento total (incluindo o externo) também é mais baixo.
Mesmo assim, os riscos não desapareceram - até porque esta corrida ao crédito não dá sinais de estar a terminar. E, pior, está a ser estimulada pelo Governo, pelo menos no segmento dos jovens, através de isenções fiscais e garantias públicas.
O problema é que a soma de milhões de decisões individuais ‘sensatas’ de recorrer ao crédito pode produzir um resultado agregado desastroso. É como uma estrada em que cada condutor tem apenas um carro e, no entanto, todos juntos criam um engarrafamento. Com o endividamento acontece o mesmo.
Não é por acaso que o Banco de Portugal já alertou para os riscos associados aos incentivos ao crédito. Ainda não estamos em cima do icebergue, mas já o vemos ao longe. Não convém acelerar em demasia. Esta pode vir a ser uma corrida perigosa.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário