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Águas residuais podem revelar cancro colorrectal: dados do Kentucky apontam para um novo rastreio

Cientista a analisar um frasco com líquido amarelo num laboratório iluminado junto a uma janela.

Nas ETAR não circula apenas sujidade: novos dados sugerem que as águas residuais podem denunciar cedo onde o cancro colorrectal está a crescer em silêncio.

Investigadores nos EUA testaram uma abordagem que, depois da vigilância por águas residuais durante a pandemia, parece o passo seguinte: em vez de procurar apenas vírus ou drogas, detectam vestígios de tumores do intestino - de forma anónima e ao nível de quarteirões. A técnica ainda está longe de ser rotina, mas pode vir a mudar de forma profunda o rastreio do cancro colorrectal.

O que as ETAR já mostram - e o que há de novo

As ETAR são, há anos, recolhedores discretos de informação. Na pandemia de COVID-19, muitas autoridades usaram águas residuais para antecipar ondas de infecção. Também é possível estimar, de forma aproximada, o consumo de drogas em zonas urbanas através deste tipo de medição. Agora, a atenção vira-se para outra doença: o cancro colorrectal, isto é, tumores no cólon e no recto.

O cancro colorrectal está entre os mais mortais. Nos EUA, ocupa o 3.º lugar em frequência e o 2.º lugar como causa de morte por cancro. E há um dado particularmente preocupante: aumenta o número de doentes com menos de 50 anos, apesar de existirem programas de rastreio. Uns não aderem, outros têm pior acesso à prevenção.

A ideia: as águas residuais oferecem um aviso precoce, anónimo, de onde um bairro poderá concentrar mais tumores - sem exigir que cada pessoa tome a iniciativa.

Com este tipo de sinal, as autoridades de saúde poderiam concentrar esforços nas áreas com maior necessidade, em vez de aplicar as mesmas campanhas de forma uniforme.

Águas residuais como “radar” de tumores: projecto-piloto no estado do Kentucky

Uma equipa no estado norte-americano do Kentucky apresentou um primeiro "Proof of Concept". Para começar, analisou registos oncológicos e dados hospitalares do condado de Jefferson. O objectivo era localizar zonas com muitos casos de cancro colorrectal num raio de cerca de 800 metros.

A partir daí, definiram três zonas com taxas elevadas de cancro colorrectal e uma zona de comparação sem casos conhecidos nos registos e nas clínicas incluídas. Em 26 de Julho de 2023, recolheram, em cada uma das quatro redes de esgotos, três amostras por dia, cada uma com 175 mililitros.

Depois, as amostras foram avaliadas quanto à presença de ARN humano - restos de material genético provenientes de células - com foco em dois marcadores:

  • CDH1: marcador de ARN associado a tumores
  • GAPDH: marcador de actividade basal normal das células

Usando uma técnica muito sensível, a PCR digital em gotículas, os investigadores calcularam, em cada amostra, a razão entre CDH1 e GAPDH (razão CDH1/GAPDH). A lógica é simples: onde existirem mais tumores no intestino, será mais provável que cheguem às fezes - e, por consequência, às águas residuais - mais células alteradas e fragmentos de ARN.

O resultado foi o seguinte: encontraram ARN humano em todas as 12 amostras recolhidas nas quatro redes. A razão CDH1/GAPDH apresentou, em média:

Grupo Característica Razão média CDH1/GAPDH
Grupo 1 maior carga da doença 20
Grupo 2 incidência elevada 2,2
Grupo 3 incidência elevada 4
Grupo de comparação sem casos conhecidos 2,6

O Grupo 1 destacou-se claramente. Nessa zona, por cada 100 residentes, havia mais do dobro de pessoas em tratamento por cancro colorrectal num centro especializado, face aos outros bairros.

Como as células tumorais chegam à sanita - e acabam no laboratório

Os tumores colorrectais desenvolvem-se na mucosa intestinal. Ao longo da doença, é comum desprenderem-se células cancerígenas e fragmentos. Misturados com células normais e resíduos da digestão, estes elementos acabam nas fezes. É precisamente este fenómeno que os testes de fezes feitos em casa exploram, ao procurar material genético de células tumorais.

O que este estudo propõe é aplicar o mesmo princípio a uma escala superior: em vez de avaliar uma pessoa, analisa-se o “reservatório colectivo” de muitos lares - a rede de esgotos de um bairro.

Se a proporção de marcadores tumorais nas águas residuais de uma área aumentar de forma invulgar, isso pode ser um sinal: nesse contexto, acumulam-se casos de cancro colorrectal não detectados ou já em tratamento.

A partir de um alerta destes, seria possível accionar várias medidas, por exemplo:

  • contacto dirigido a pessoas de determinados grupos etários na área afectada
  • envio postal facilitado de testes de fezes
  • reforço de capacidade para colonoscopias em clínicas e hospitais próximos
  • campanhas focadas em consultórios de medicina geral e familiar nos bairros sinalizados

Importa sublinhar: este método não permite identificar casas ou pessoas. O nível de análise mantém-se colectivo - semelhante à medição de carga viral num bairro inteiro.

Porque estes resultados ainda não permitem “diagnosticar pelo esgoto”

Apesar de os números parecerem encorajadores, trata-se de um estudo muito pequeno. Foram apenas quatro redes de esgotos, amostras recolhidas num único dia e sem estatística robusta - os próprios autores descrevem o trabalho como um ensaio inicial para perceber se a hipótese é viável.

Há várias incertezas por resolver:

  • Até que ponto a razão CDH1/GAPDH oscila no dia-a-dia, por exemplo consoante a hora ou a meteorologia?
  • Quantos casos não diagnosticados existem realmente num bairro quando o sinal é elevado?
  • Qual é o peso de doentes já tratados, cujo tumor pode ter sido removido?
  • Que impacto têm pessoas que se tratam noutras unidades de saúde que não as clínicas e centros analisados?

Só campanhas maiores, em várias cidades e ao longo de meses, poderão responder. Aí será possível testar se o valor nas águas residuais se relaciona de forma fiável com novos diagnósticos e com a proporção de tumores por descobrir.

O que isto poderia significar para Portugal

Também em Portugal é válido o essencial: o rastreio do cancro colorrectal salva vidas, mas continua a ser subutilizado. Existem programas de rastreio e testes de fezes, ainda assim a adesão pode melhorar. Em zonas socialmente mais vulneráveis, o acesso à prevenção tende a ser inferior - por falta de informação, dificuldades em marcar exames, ou receio do procedimento.

Um sistema de alerta precoce baseado em águas residuais poderia ajudar serviços de saúde e entidades pagadoras a orientar melhor recursos limitados. Em vez de repetir a mesma campanha em todo o lado, seria possível criar prioridades, como:

  • unidades móveis de aconselhamento em bairros com sinal anómalo
  • maior articulação com médicos de família dessas áreas
  • vagas adicionais para colonoscopia com agendamento rápido

Ao mesmo tempo, surgem questões éticas: até que ponto pode aumentar a pressão sobre residentes quando um bairro é rotulado como “zona de alto risco”? Como evitar estigmatização se os dados forem explorados publicamente? E qual deve ser o nível de transparência das entidades ao divulgar medições?

Leitura dos biomarcadores: o que significam CDH1 e GAPDH

O CDH1 é o gene da proteína E-caderina, que funciona como uma espécie de “cola” entre células. Alterações neste gene podem apontar para processos tumorais, porque as células transformadas tendem a desprender-se com maior facilidade do tecido. Em vários tipos de cancro, sinais anómalos associados a CDH1 são vistos como indicadores de alerta.

O GAPDH é um “gene de manutenção” (housekeeping). Garante funções básicas da célula e, por estar activo de forma semelhante em muitos tipos celulares, serve como referência para contextualizar outros sinais. A razão CDH1/GAPDH permite compensar variações na quantidade total de ARN e é, por isso, mais robusta do que observar um valor isolado.

Para o público em geral, não é necessário memorizar estes marcadores. O ponto relevante é a premissa: o cancro deixa pistas mensuráveis até nas águas residuais. Quem as souber interpretar ganha tempo numa corrida contra a doença.

Oportunidades, riscos e próximos passos

A oportunidade é evidente: o cancro colorrectal é frequentemente curável quando detectado cedo. Qualquer estratégia que torne visíveis áreas de maior risco pode, a prazo, reduzir mortes e permitir tratamentos menos agressivos. A monitorização de águas residuais seria relativamente barata, não exigiria consentimento individual e poderia ajudar quem tem mais dificuldade em aderir à prevenção.

Os riscos aparecem quando um sinal é interpretado com demasiada pressa. Podem existir falsos alarmes que desencadeiam medidas desproporcionadas, ou, no extremo oposto, uma sensação enganadora de segurança. E, mesmo sem apontar pessoas, o tema da privacidade mantém-se: quem decide que bairro é “anómalo” e quem recebe essa informação?

Por agora, trata-se de uma antevisão credível do futuro do rastreio do cancro. O trabalho no Kentucky indica que é tecnicamente possível medir marcadores tumorais em águas residuais e que esses sinais parecem alinhar-se com clusters de doença já conhecidos. Se esta pista se transforma num sistema de alerta aplicável no quotidiano é algo que os próximos anos terão de confirmar - nos EUA e também na Europa.

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