Uma rã descrita recentemente nas encostas orientais dos Andes do Equador apresenta uma barriga escarlate que não tem paralelo entre as suas parentes próximas, as rãs-espinhosas.
Esse golpe de cor transforma a descrição da espécie num enigma, porque ainda não se sabe ao certo por que motivo as fêmeas exibem um vermelho tão intenso.
Encontros em grande altitude
As prospeções nocturnas em ervas encharcadas e fetos, a cerca de 3.050 metros de altitude, voltavam repetidamente a revelar pequenas rãs pousadas pouco acima do solo.
A partir dessas observações, Juan Pablo Reyes-Puig percebeu que se tratava de um animal que tinha passado ao lado da classificação formal, enquanto trabalhava com a Fundación EcoMinga.
Exemplares recolhidos em duas reservas do centro do Equador - Cerro Candelaria e Chamana - eram muito semelhantes entre si, mas distinguiam-se das rãs-espinhosas vizinhas pela coloração.
A distribuição tão limitada fez com que a descoberta parecesse menos uma curiosidade isolada e mais um indício consistente de que Pristimantis fergusoni era, de facto, uma espécie distinta.
Um mistério escarlate na face inferior
Nas fêmeas surgia o traço mais inequívoco: uma barriga de vermelho escarlate vivo, escondida sob tons que, no restante do corpo, se confundem com a folhagem.
Como a parte inferior só fica visível quando o animal se desloca, essa cor poderá funcionar como um sinal súbito, usado tanto na corte como em contextos de defesa.
Os machos apresentavam um aspecto mais apagado - um exemplo de dimorfismo sexual -, com diferenças entre os sexos na cor e na textura da pele.
Ainda ninguém acompanhou a espécie tempo suficiente na natureza para determinar se o vermelho serve para avisar, para atrair, ou para desempenhar ambos os papéis.
A genética esclarece o estatuto de espécie
A cor, por si só, não bastaria para fechar o diagnóstico, já que as rãs-espinhosas da chuva tendem a parecer-se umas com as outras ao longo dos Andes.
Por isso, os investigadores cruzaram características corporais com dados genéticos, e o conjunto de evidências sustentou o reconhecimento desta rã como uma espécie separada.
A análise indicou que o parente mais próximo ainda sem nome diferia 2,80 por cento num segmento padrão de gene, enquanto outras formas estavam ainda mais afastadas.
Este detalhe é relevante porque muitas rãs de aspecto “espinhoso” acabam por ser apenas sósias, e não parentes próximos, quando se comparam os seus genes.
Habitat acima do chão da floresta
A espécie é conhecida do bosque nublado superior e do páramo - uma pradaria alto-andina sem árvores acima do limite da floresta -, ambientes frios que compõem o seu habitat registado.
Durante a noite, os investigadores encontraram indivíduos empoleirados em folhas a cerca de 0,3 a 1,2 metros do chão, sobretudo entre gramíneas grossas e fetos.
Como acontece com muitas rãs do género Pristimantis, é provável que dispense uma fase de girino de natação livre, um padrão comum nas rãs da chuva.
Esse tipo de história de vida pode permitir a ocupação de pequenas manchas de habitat, mas também pode deixá-las presas em cristas isoladas.
A vasta linhagem de um género de anfíbios
Atribuir um nome a mais uma Pristimantis tem peso porque este grupo já figurava entre os maiores géneros de vertebrados do planeta.
Quando a equipa redigiu esta descrição, o género contava 626 espécies; no catálogo, o número taxonómico de referência passou entretanto para 631.
Cada nova expedição continua a revelar espécies inesperadas, incluindo a recém-identificada Pristimantis fergusoni.
O fluxo constante de descobertas sugere que a bacia alta do Pastaza, no centro do Equador, ainda alberga muitos anfíbios que a ciência não nomeou formalmente.
Um hotspot de vida oculta
Vales íngremes nos Andes orientais do Equador fragmentam as populações de rãs, dando a pequenos grupos margem para divergir ao longo do tempo.
O ar húmido vindo da Amazónia condensa-se nestas encostas e, como resultado, os bosques nublados criam bolsões de habitat frescos e estáveis.
Em toda a parte alta do vale do Pastaza, 30 rãs estrabomantídeas foram descritas recentemente, sublinhando uma região rica em endemismo - espécies que não existem em mais nenhum lugar.
Essa concentração faz com que cada nova descrição seja também um ponto no mapa da conservação, e não apenas mais um nome em latim.
Mistérios que continuam na sombra
Quase tudo no quotidiano desta rã permanece por esclarecer, desde as vocalizações até à época de reprodução e aos predadores.
As cores vivas poderão desempenhar um papel na comunicação durante a corte e/ou integrar estratégias reprodutivas.
Uma face inferior vermelha, mantida oculta, encaixa nessa hipótese, porque um clarão repentino pode transmitir informação sem ficar exposto permanentemente.
Até que biólogos de campo observem animais vivos ao longo de ciclos reprodutivos, a barriga continuará a ser a pista mais chamativa que o estudo deixou sem resposta.
Uma pegada pequena e frágil
Por agora, a rã está classificada como Dados Insuficientes, o que significa que não há informação bastante para avaliar o seu risco de extinção segundo as orientações actuais.
Essa etiqueta espelha um problema simples: a espécie é conhecida apenas de duas reservas próximas, separadas por menos de 10 quilómetros.
"Fomos um passo mais além ao garantir a protecção do habitat da nova espécie", afirmou Reyes-Puig.
A protecção preventiva é crucial neste caso, porque alterações no uso do solo para lá das fronteiras das reservas podem eliminar populações antes de alguém as conseguir medir adequadamente.
Uma homenagem à taxonomia nos Andes
A rã recebeu o nome de Robert T. Ferguson II, um naturalista amador e apoiante da conservação.
O nome liga o animal a uma verdade mais ampla: muitas descobertas dependem de pessoas fora da academia que financiam e documentam locais selvagens.
A designação da espécie alarga a narrativa para além dos laboratórios, associando uma rã de barriga escarlate às pessoas que ajudam a manter as florestas de pé.
Numa área científica com poucos recursos de dinheiro e tempo, esse tipo de apoio pode determinar que espécies chegam a ser descobertas.
A descoberta junta três realidades de uma só vez: estas montanhas ainda escondem animais conspícuos, a aparência pode induzir em erro na classificação, e a protecção não pode esperar.
É quase certo que mais levantamentos venham a acrescentar espécies, mas esta rã de barriga escarlate já alterou a forma como os cientistas interpretam um canto do centro do Equador.
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