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Porque os gatos evitam a taça de água: risco silencioso para rins e vias urinárias

Gato a beber água de uma taça branca sobre suporte de madeira numa sala com luz natural e plantas ao fundo.

Na verdade, pode estar em causa um risco silencioso para os rins.

A taça está cheia até ao topo, a água parece limpa, mas a gata passa por ela e prefere beber da torneira a pingar. O que pode parecer uma mania tem, afinal, uma explicação simples e instintiva, muito antiga. Quando este instinto é desvalorizado, pode abrir-se caminho, com o tempo, a problemas sérios nos rins e nas vias urinárias - muitas vezes sem que ninguém repare, porque os gatos raramente demonstram sede de forma evidente.

Porque é que os gatos evitam a taça de água

Os gatos domésticos descendem do tipo de gato-bravo africano, adaptado a zonas secas, onde a água disponível era escassa. Nesses ambientes, grande parte dos líquidos vinha da própria presa. Essa herança continua presente - mesmo nos gatos que vivem confortavelmente no sofá.

Na natureza, os gatos tendem a separar bem os momentos e os locais de comer e beber. Comer uma presa e beber logo ao lado poderia ser perigoso: sangue e bactérias poderiam contaminar a água. É esse “programa” que ainda se activa quando a taça de água fica encostada ao comedouro.

“Se a comida, a água e a caixa de areia estiverem demasiado próximas, o instinto do gato avisa: ‘Aqui há algo que não está limpo - melhor não beber.’”

Em muitos animais, um pormenor basta para gerar desconforto. Entre os factores que mais frequentemente atrapalham estão:

  • A taça de água está mesmo ao lado do comedouro com ração seca
  • A taça fica num canto, sem rota de fuga
  • Fontes de ruído por perto, como máquina de lavar, secador, ou crianças muito barulhentas
  • A água está parada, morna ou com sabor a detergente
  • Taças de plástico fundas, onde os bigodes batem

Além disso, o plástico pode reter odores que as pessoas mal percebem, mas que para os gatos são muito claros. Muitos preferem taças baixas e largas de vidro ou cerâmica, porque os bigodes ficam livres e a água mantém um cheiro mais neutro.

Quão pouco conseguem os gatos aguentar sem beber?

Os gatos são especialistas em poupar água. Só mostram sede muito mais tarde do que os cães ou as pessoas. De forma geral, veterinários apontam para cerca de 40 a 70 mililitros de água por quilograma de peso corporal e por dia.

Peso do gato Quantidade recomendada por dia
3 kg 120–210 ml
4 kg 160–280 ml
5 kg 200–350 ml

Quando a alimentação é sobretudo à base de ração seca, atingir estes valores torna-se difícil. A ração seca tem cerca de 8 a 10% de água, enquanto a comida húmida ronda os 70 a 80%. Quem dá quase só ração seca e, ao mesmo tempo, oferece um ponto de água pouco apelativo está, na prática, a retirar líquidos “a dobrar”.

O perigo discreto para os rins e as vias urinárias

Se um gato bebe pouco durante muito tempo, o organismo passa a concentrar mais a urina. Numa urina mais concentrada, é mais fácil formarem-se cristais e cálculos urinários. Isto pode levar a:

  • cálculos urinários e “areia” urinária
  • cistites dolorosas
  • obstruções da uretra (nos machos pode ser potencialmente fatal)
  • lesão renal a longo prazo

O problema é que os sinais costumam ser discretos e passam facilmente despercebidos.

Sinais de alerta que os tutores devem levar a sério

É aconselhável procurar um veterinário se notar um ou mais destes sintomas:

  • o gato fica claramente mais tempo do que antes na caixa de areia
  • vai muitas vezes à areia, mas elimina apenas algumas gotas
  • vocalizações de queixume ao agachar-se
  • lambidelas constantes na zona genital
  • micção fora da caixa, perda de hábitos de higiene
  • pêlo com aspecto baço, menos vontade de brincar, mais isolamento

“Muitos tutores só dão conta da baixa ingestão de água quando a bexiga e os rins já estão bastante sobrecarregados.”

A situação torna-se particularmente delicada durante a época de aquecimento ou nos primeiros dias mais quentes do ano. O ar seco dos aquecedores retira ainda mais humidade, e muitos gatos não compensam isso com um aumento equivalente na ingestão de água.

Como preparar um local de bebida adequado para gatos

A boa notícia é que, com ajustes simples, a maioria dos animais melhora bastante a forma como bebe.

A distância gera confiança

Coloque a taça de água a, pelo menos, dois metros da comida. Melhor ainda é estar noutro canto da divisão ou numa zona dedicada apenas a beber. Se a caixa de areia estiver perto da água, também deve passar para outro local.

Muitos tutores notam que os gatos bebem mais quando existem várias taças distribuídas pela casa - por exemplo, na sala, no corredor e num quarto tranquilo. Estudos indicam que a ingestão aumenta de forma clara quando há mais do que um ponto de água.

A taça certa faz diferença

Taças largas e pesadas de vidro ou cerâmica são, muitas vezes, um verdadeiro “mini spa” para o gato: não deslizam, não prendem os bigodes e não libertam cheiros estranhos para a água.

O que muitos gatos não toleram:

  • taças estreitas e altas
  • recipientes de plástico com cheiro intenso
  • água com migalhas de comida a boiar
  • água velha e morna

Troque a água pelo menos duas vezes por dia. Passe rapidamente a taça por água limpa, sem detergentes perfumados. Resíduos de produtos muito aromáticos afastam muitos animais.

Fonte de água, comida húmida e afins: como aumentar a ingestão de líquidos

Se o seu gato insiste em beber de água corrente, faz sentido considerar uma fonte/bebedouro para animais. O som suave, o movimento na superfície e a sensação de frescura levam muitos gatos a beber mais vezes.

No entanto, uma fonte não dispensa limpeza regular. Os filtros devem ser substituídos conforme indicado pelo fabricante, e o depósito precisa de ser lavado e reabastecido com frequência. Caso contrário, a qualidade da água degrada-se também aqui.

Além disso, ajuda oferecer mais água através da alimentação. Algumas opções possíveis:

  • incluir comida húmida na dieta ou aumentar a sua proporção
  • acrescentar um pequeno gole de água morna por cima da ração seca
  • usar alimentos líquidos específicos ou caldos sem sal nem temperos, sempre com aconselhamento do veterinário

“Pequenos ajustes do dia-a-dia - da taça ao local e à alimentação - podem aumentar de forma clara a ingestão de líquidos.”

Como interpretar melhor as preferências de bebida do seu gato

Cada gato tem um estilo próprio ao beber. Uns gostam de mexer na água com a pata, outros lambem apenas a película na borda. Durante alguns dias, observe com atenção quando e onde o seu gato bebe espontaneamente: na borda do lavatório, no jardim, numa regadora?

Essas pistas ajudam a recriar um local ideal. Se o gato prefere água em poças rasas, taças muito largas e baixas podem resultar bem. Se o que o atrai é o pingar da torneira, uma fonte com queda de água suave pode valer a tentativa.

Porque é que os rins reagem de forma tão sensível

Os rins filtram resíduos do sangue e mantêm o equilíbrio de água e minerais. Nos gatos, esse trabalho já tende a ser exigente - o metabolismo é muito orientado para proteína, o que gera muitos produtos de degradação. Quando, ao longo de anos, há pouca disponibilidade de líquidos, os rins podem deixar de conseguir diluir a urina como deveriam.

As doenças renais crónicas estão entre os problemas mais comuns na velhice dos gatos. Quanto mais cedo se garantir uma ingestão adequada de líquidos, melhor se consegue limitar ou adiar danos futuros. Quem, ainda em animais jovens, aposta em locais de bebida bem pensados e em comida húmida suficiente, está a construir uma vida mais longa e amiga dos rins.

Muitos termos ouvidos no veterinário parecem abstractos ao início - como “cálculos urinários”, “cristais” ou “urina concentrada”. No fundo, quase tudo volta à mesma questão: o gato tem líquidos suficientes para ajudar a eliminar estas substâncias? Muitas vezes, observar a taça de água e o comportamento junto dela diz mais do que se imagina.


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