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Macropoma gombessae: fóssil de Londres fecha lacuna de 50 milhões de anos na história do celacanto

Pessoa a examinar fóssil de peixe numa gaveta de arquivo, com lupa e pincel.

Um fóssil que esteve guardado numa gaveta do Museu de História Natural de Londres desde 1885 acabou por se revelar de enorme importância.

Comprado a um comerciante vitoriano de fósseis e registado no catálogo sem grande destaque, o crânio foi agora reconhecido como uma nova espécie que tapa uma lacuna de 50 milhões de anos na história de um dos peixes mais famosos do mundo.

A espécie recém-identificada, Macropoma gombessae, é o membro mais antigo conhecido de Latimeriidae, a família que inclui o celacanto moderno.

Este achado oferece, até à data, a visão mais nítida sobre a forma como estes peixes evoluíram durante um intervalo que, para os cientistas, era praticamente uma página em branco.

O problema do “fóssil vivo”

Os celacantos carregam uma reputação difícil. Em 1938, pescadores retiraram do oceano Índico um exemplar vivo, surpreendendo a comunidade científica, que considerava que o grupo tinha desaparecido com os dinossauros.

Desde então, foram muitas vezes apelidados de “fósseis vivos”, uma designação que sugere que quase não se alteraram desde a era dos répteis gigantes.

Ainda assim, o registo fóssil sempre foi incompleto. Persistia uma lacuna frustrante de 50 milhões de anos no Cretácico Inferior, período em que ninguém conseguia apontar um bom exemplar.

As espécies do Cretácico Superior pareciam bastante semelhantes ao celacanto atual, mas o que existira antes permanecia no domínio das suposições.

“Os celacantos são famosos por serem conhecidos como ‘fósseis vivos’, tendo mudado relativamente pouco ao longo de centenas de milhões de anos. No entanto, etapas-chave da sua história evolutiva mantiveram-se difíceis de captar - até agora”, afirmou o coautor do estudo, o professor David Martill, da Universidade de Portsmouth.

Macropoma gombessae perdido durante 140 anos

O fóssil de Macropoma gombessae tem uma história invulgar. O Museu Britânico adquiriu-o em 1885 a John Starkie Gardner. Depois disso, permaneceu na coleção durante quase 140 anos sem receber uma descrição adequada.

O crânio foi recolhido nas arribas perto de Folkestone, no Kent, preservado numa placa de argilito cinzento da Formação de Gault.

O cenário mudou quando Jack Norton, na altura estudante de mestrado em Portsmouth, e o seu orientador, Samuel Cooper, voltaram a analisá-lo com um olhar novo.

“É incrivelmente entusiasmante que um espécime tão importante tenha estado escondido à vista de todos durante mais de um século”, disse Norton.

“Só agora, com a tecnologia disponível para examinar estes fósseis ao mais ínfimo detalhe no Museu de História Natural, conseguimos perceber a sua relevância.”

Fóssil preenche a lacuna temporal em falta

A Formação de Gault data do andar Albiano, aproximadamente entre 100 e 113 milhões de anos atrás, colocando este peixe precisamente no centro de uma lacuna fóssil que há muito intrigava os investigadores.

Segundo os autores, trata-se do primeiro fóssil de celacanto, claro e confirmado, do Cretácico Inferior. Antes, os cientistas tinham sobretudo como pista coprólitos em espiral (fezes fossilizadas), mas esse tipo de vestígio poderia ter sido produzido por várias espécies de peixes.

Este crânio também se distingue dos celacantos mais tardios. Em vez de saliências simples, apresenta cristas compridas e pequenas depressões ovais, e uma das zonas parece invulgarmente estreita e alongada.

A diferença mais marcante surge acima dos olhos: o peixe mostra poros maiores, colocados entre os ossos, em vez de poros menores inseridos nos próprios ossos.

Um peixe adaptado a águas escuras

Esses poros aumentados ajudam a reconstruir o contexto ecológico. Os peixes usam estes canais sensoriais para detetar vibrações na água, o que facilita a procura de alimento em condições de água turva ou com pouca luz.

Estudos com ciclídeos atuais no lago Malawi indicam que as espécies com poros maiores tendem a caçar em ambientes mais escuros e profundos.

A Formação de Gault representa um mar pouco profundo e lamacento, com cerca de 90 a 350 metros de profundidade, onde a visibilidade seria reduzida. Num cenário assim, capacidades de deteção mais apuradas seriam uma vantagem evidente.

Isto diferencia M. gombessae, já que, em geral, outros celacantos do Cretácico são encontrados em ambientes de recife com águas claras e ricas em carbonatos, como o Giz Inglês.

As coleções antigas continuam a ser essenciais

“É muito entusiasmante que o Jack e o Sam - ambos no início das suas carreiras - tenham identificado este espécime como uma nova espécie”, afirmou Emma Bernard, curadora de peixes fósseis no museu.

“Isto demonstra o valor científico das coleções museológicas e porque é importante continuar a preservar espécimes em nome da sociedade e, ao mesmo tempo, continuar a investigá-los. Quem sabe o que mais a tecnologia irá revelar sobre estes exemplares nos próximos anos?”

Martill concordou, sublinhando que a descoberta também evidencia o papel dos cientistas do futuro.

“O que é tão maravilhoso nesta descoberta é ter sido um estudante curioso a reconhecer a sua importância, o que mostra o valor da próxima geração de cientistas e o enorme potencial científico das coleções de museus em todo o mundo”, disse.

Exemplares recolhidos há várias gerações continuam a conseguir transformar a nossa compreensão da evolução quando são reavaliados com técnicas modernas.

A origem do nome Macropoma gombessae

O nome da espécie presta homenagem aos pescadores locais que conhecem estes peixes há gerações. Nas Comores, o celacanto é chamado “gombessa”, um termo que em tempos significava “peixe sem valor”, antes de os cientistas reconhecerem a sua importância.

Hoje, algures ao largo das Comores, os gombessas continuam a nadar, alheios ao facto de que um parente distante, preservado numa gaveta de um museu em Londres, ajudou a reescrever uma parte da sua história.

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