HOUSTON (AP) - O inverno continua a apertar com força o leste dos Estados Unidos, sem dar tréguas: nos próximos dias, as temperaturas abaixo de zero vão avançar para sul e entrar pelo que tem sido a quente península da Florida, enquanto uma poderosa tempestade de neve pode atingir a costa Atlântica.
As previsões indicam que o frio intenso se manterá pelo menos até à primeira semana de fevereiro. Os meteorologistas acompanham ainda o desenvolvimento do que pode transformar-se num "ciclone-bomba" - uma tempestade que se intensifica muito rapidamente, uma espécie de versão invernal de um furacão - ao largo das Carolinas, entre a noite de sexta-feira e sábado.
"Uma grande tempestade de inverno parece estar a caminho das Carolinas", afirmou o meteorologista Peter Mullinax, do Weather Prediction Center da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).
Essa tempestade pode despejar neve - pelo menos 15 centímetros (6 polegadas), com condições de ‘white-out’ - nas Carolinas, no norte da Geórgia e no sul da Virgínia.
Depois disso, poderá curvar e avançar pelo corredor da Interestadual 95 entre o final de sábado e domingo, deixando ainda mais neve de Washington a Boston e agravando a paralisia em grande parte do país. Em alternativa, pode apenas roçar a região, atingindo sobretudo zonas como Cape Cod.
Há ainda a possibilidade de se desviar e seguir inofensivamente para o mar. Por enquanto, meteorologistas e modelos de previsão ainda não convergem num único cenário.
"A confiança é muito maior de que, nas zonas costeiras das Carolinas e da Virgínia, haverá queda de neve significativa este fim de semana", disse James Belanger, vice-presidente de meteorologia do Weather Channel e da empresa-mãe. "A verdadeira questão vai ser a trajetória que vai tomar" a partir daí.
O meteorologista privado Ryan Maue, antigo cientista-chefe da NOAA, afirmou que, para o médio Atlântico e para o norte, é uma situação de "tudo ou nada". "Se acontecer (de subir junto à costa), vai ser um grande acontecimento."
Modelos continuam a divergir sobre a trajetória da tempestade de inverno
Na terça-feira, os modelos de previsão estavam muito dispersos - desde um percurso em mar aberto até uma trajetória mais para o interior, na direção de Filadélfia. Já na manhã de quarta-feira, começaram a aproximar-se da ideia de que "é provável que vejamos alguma forma de uma forte tempestade costeira algures a leste da Carolina do Norte, ao largo da costa de Delmarva, mas ainda discordam quanto ao local", disse Mullinax.
Segundo Mullinax, na manhã de quarta-feira diminuíram as probabilidades de a tempestade se afastar totalmente da Costa Leste, mas essa hipótese não desapareceu por completo.
Entre todas as opções, "de Washington, D.C. até Nova Iorque é provavelmente a área com mais incerteza", explicou Mullinax. Uma diferença de apenas 80 quilómetros (50 milhas) na posição do centro da tempestade será determinante, acrescentou. Dan Pydynowski, meteorologista sénior da AccuWeather, disse que pode ser difícil para o sul do médio Atlântico escapar a algum tipo de neve - seja pouca ou muita.
Esta tempestade vai soprar com mais força do que a anterior
De acordo com os meteorologistas, a tempestade deste fim de semana não será igual à anterior, que começou com ar húmido vindo do Pacífico, combinou-se com uma forte entrada de ar Ártico associada a um vórtice polar alongado e recebeu ainda mais humidade do sul e do leste.
A tempestade anterior teve pouco vento. Esta deverá gerar ventos fortes e, mesmo que a neve falhe a zona de Washington, as rajadas podem ainda assim atingir 65 km/h (40 mph), levando a sensações térmicas próximas de 0 °F (menos 18 °C), disse Mullinax.
"Parece uma tempestade bastante forte e explosiva, por isso toda a gente vai sentir rajadas de vento", disse Pydynowski, incluindo áreas do interior que dificilmente verão neve, como Pittsburgh. De acordo com ele, os ventos podem fazer com que temperaturas diurnas na casa dos -10 °C passem a parecer abaixo de zero.
"Isto é o que consideraríamos uma tempestade clássica do nordeste", disse Belanger, ao descrever um sistema que se forma junto à costa do Golfo dos EUA, cruza para o Atlântico e sobe ao longo dessa costa.
Ar gelado e água quente juntam-se para fortalecer a tempestade
Neste caso, uma das peças-chave é a água mais quente do que o normal no Golfo do México - em parte devido às alterações climáticas causadas pelo ser humano - além da sempre quente Corrente do Golfo no Atlântico, explicou Bernadette Woods Placky, meteorologista-chefe da organização sem fins lucrativos Climate Central.
Quando isso acontece, a tempestade "puxa mais humidade e isso dá-lhe mais força", disse.
Assim que o núcleo da tempestade se aproximar das Carolinas, a pressão deverá cair de forma acentuada, o suficiente para se enquadrar no que os meteorologistas chamam de "bombogénese" ou "ciclone-bomba". Maue e Belanger disseram que isso poderá dar ao sistema um efeito semelhante ao de um furacão de intensidade moderada - com ventos enormes - mas em pleno inverno.
Se a tempestade entrar em terra, esses ventos e a neve adicional poderão formar grandes acumulações (montes de neve) capazes de enterrar carros, afirmou Maue.
O frio Ártico mantém-se e desce ainda mais para sul
O que parece bem mais certo é que o frio Ártico no Centro-Oeste e no Leste continuará até meados de fevereiro, com apenas ligeiros aquecimentos que, ainda assim, ficarão abaixo do normal, disseram os meteorologistas.
E esta nova tempestade do fim de semana "vai pegar nesse frio e vai derramá-lo mesmo pelo coração da península da Florida", afirmou Pydynowski.
Orlando deverá descer bem abaixo de zero, com máxima prevista de 9 °C (48 °F), quebrando recordes de temperatura. Mesmo Miami e Key West poderão aproximar-se de mínimos recorde no domingo e na segunda-feira, segundo os meteorologistas.
A previsão para a Florida foi fria o suficiente para levantar preocupações quanto a danos em citrinos e morangos do estado.
"Vamos entrar num período brutalmente frio", disse Maue.
As tempestades continuam a chegar
Depois da tempestade deste fim de semana, os modelos de longo prazo já apontam para outra no final da primeira semana de fevereiro, disse Maue. Os meteorologistas veem a Costa Leste presa num padrão de frio cortante e tempestades de neve, impulsionado pela entrada de ar Ártico e por água quente.
As tempestades de neve na Costa Leste não são muito frequentes, mas "quando acontecem, acontecem em grupo", disse Louis Uccellini, antigo diretor do Serviço Nacional de Meteorologia, que escreveu manuais de meteorologia sobre tempestades de neve de inverno.
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