No trabalho, pode estar a sabotar a sua carreira em silêncio - sem se aperceber.
Muitos profissionais acreditam que, para serem vistos como empenhados e produtivos, têm de fazer tudo ao mesmo tempo. E-mails, chat, telefone, reuniões, apresentações - tudo em paralelo, por favor. Só que esse comportamento, que parece tão diligente e eficiente à primeira vista, pode travar de forma significativa a sua progressão dentro da empresa.
Porque o multitasking constante torpedeia a sua carreira
Em entrevistas de emprego, ainda é comum ouvir isto quase com orgulho: “Sou bom em multitasking.” Durante muito tempo, foi encarado como uma competência de topo, daquelas que não podiam faltar no CV. No dia a dia, porém, torna-se cada vez mais evidente: multitasking permanente não acelera a carreira - é um destruidor de desempenho.
Multitasking é, na verdade, não um trabalho simultâneo, mas um salto permanente da atenção de um lado para o outro - e é precisamente isso que o torna mais lento e mais propenso a erros.
A psicologia descreve este fenómeno como “task switching”: o cérebro muda de tarefa para tarefa e, a cada transição, precisa de frações de segundo para se reajustar. Essas micro-pausas, acumuladas ao longo do dia, transformam-se numa enorme armadilha de tempo e energia. O resultado é que se sente sob pressão, sempre “ligado”, mas entrega menos do que alguém que trabalha com foco, uma tarefa de cada vez.
Além disso, estudos indicam que quem se força continuamente a entrar em modo multitasking não só comete mais erros, como também se expõe, a longo prazo, a perdas de concentração, de memória e de motivação. A mente fica constantemente sobrecarregada, e a capacidade de se concentrar a fundo torna-se cada vez mais difícil.
As consequências escondidas no dia a dia do trabalho
Quer esteja em teletrabalho, quer num open space, os estímulos não param: mensagens no Slack, e-mails, smartphone, convites para reuniões, pequenas perguntas de colegas. Quem reage a cada sinal de imediato pode parecer muito dedicado por fora - e, ao mesmo tempo, estar a prejudicar-se por dentro.
Consequências típicas deste padrão:
- Resultados menos visíveis: muita atividade, poucos fechos claros. Projetos arrastam-se, prazos começam a vacilar.
- Mais erros por distração: gralhas, números trocados, anexos esquecidos, destinatários errados - companheiros clássicos do multitasking.
- Nível de stress mais elevado: o corpo mantém-se em alerta constante; recuperar torna-se difícil, até depois do horário de trabalho.
- Trabalho mais superficial: o pensamento profundo e estratégico fica para trás; quase não há espaço para inovação.
- Relações mais tensas: colegas sentem que não são levados a sério quando, durante conversas, está sempre a olhar para o telemóvel ou a escrever e-mails ao mesmo tempo.
É aqui que começa a curva descendente da carreira: as chefias não observam apenas esforço; valorizam fiabilidade, qualidade e presença. Quem está sempre “meio” em cinco coisas ao mesmo tempo parece disperso - e raramente é visto como a pessoa a quem se confia o próximo grande projeto ou uma função de liderança.
Padrões de multitasking na carreira (sinais para se reconhecer)
Muitas pessoas nem dão conta do quanto se habituaram a fazer tudo em paralelo. Alguns alertas comuns no quotidiano:
- Começa dois ou mais projetos ao mesmo tempo e não termina nenhum como deve ser.
- No caminho para o trabalho, ouve podcast ou rádio, ao mesmo tempo que verifica e-mails e já está a planear mentalmente o dia.
- Faz chamadas e, em paralelo, continua a escrever num documento ou num chat.
- Numa videoconferência, responde “só rapidamente” a mensagens ou já está a triagem dos próximos e-mails.
- Em reuniões presenciais, o olhar vai repetidamente ao smartphone para fazer scroll nas redes sociais.
- Alguém fala consigo enquanto já está a escrever a próxima lista de tarefas.
Um ou dois destes pontos encaixam em quase toda a gente. Torna-se problemático quando este modelo passa a ser o estado normal. Aí, o dia parece um número de malabarismo contínuo - e, mesmo assim, termina com a sensação de que fez pouco.
Porque as chefias valorizam mais o foco do que a atividade constante
Quem lidera pensa em resultados e em confiança. Quem é promovido tem de conseguir conduzir tarefas complexas com segurança, definir prioridades e aguentar pressão. Neste contexto, o multitasking costuma transmitir exatamente os sinais errados:
- Prioridades pouco claras: se faz tudo ao mesmo tempo, parece que tudo tem a mesma urgência. Soa a falta de plano.
- Qualidade inconsistente: erros pequenos, mas frequentes, corroem a confiança no seu trabalho.
- Presença fraca: em reuniões, encontros com clientes ou conversas de feedback, escrever “de lado” passa por desrespeito e falta de atenção.
- Pouca profundidade estratégica: sem tempo para pensar com calma, dificilmente surgem soluções novas e bem estruturadas.
Quem quer fazer carreira não precisa da fama de “bombeiro permanente”, mas de alguém que, com foco, leva coisas difíceis até ao fim - com qualidade.
Por isso, muitas empresas têm vindo a incentivar trabalho concentrado: blocos de tempo sem reuniões, períodos “sem notificações”, e prioridades claras em vez de reação constante a qualquer sinal.
Como fazer a transição de multitasker para profissional de foco
A boa notícia é simples: multitasking não é um traço de personalidade - é um comportamento. E comportamentos podem ser mudados. Exige treino e decisões conscientes no dia a dia.
1) Uma tarefa, um bloco de tempo
Reserve janelas fixas para tarefas importantes, em que só essa atividade conta. Um bom ponto de partida são 25 a 50 minutos. Durante esse período:
- feche o programa de e-mail ou defina “Enviar/Receber manualmente”
- silencie notificações no telemóvel ou ative o modo de avião
- deixe o messenger aberto apenas se for absolutamente necessário
Depois do bloco, faça uma pausa curta de cinco a dez minutos para respirar, beber água ou levantar-se - sem voltar automaticamente às redes sociais.
2) Comunicação clara em vez de um “sim” automático
Muita gente cai no multitasking porque aceita tudo por reflexo. É mais eficaz ser direto, com limites bem definidos:
- “Estou a trabalhar num relatório; respondo dentro de 30 minutos.”
- “Vou terminar esta tarefa e depois trato do teu pedido.”
- “Este tema pode entrar na reunião de hoje à tarde? Se sim, preparo até lá.”
Quem estabelece limites não parece preguiçoso - parece organizado. E é exatamente isso que a liderança tende a notar.
3) Monotasking consciente - também nas coisas simples
Crie pequenos exercícios no quotidiano: nada de telemóvel durante uma conversa com colegas. Nada de verificar e-mails enquanto almoça. Nada de telefonemas enquanto está a fazer uma análise exigente no Excel. Assim, reeduca o cérebro para profundidade, em vez de dispersão contínua.
Quando a tecnologia se torna um risco para a carreira
O smartphone e o portátil tornam muito fácil ter tudo a correr ao mesmo tempo. Várias janelas, vários separadores, vários chats - é tentador. Só que esta “chuva” constante faz com que distribua a energia mental por dezenas de fragmentos, em vez de a concentrar no que realmente importa.
Podem ajudar ajustes técnicos simples:
- desativar notificações push de e-mails e definir horários fixos para verificar
- retirar do ecrã inicial apps que distraem desnecessariamente
- usar o modo “Não incomodar” em fases de foco
- manter abertos apenas os separadores necessários para a tarefa atual
São mudanças pequenas e pouco vistosas, mas, ao fim de algumas semanas, alteram por completo a sensação de trabalho.
Quando o multitasking já virou hábito
Muita gente só percebe, em momentos mais calmos, o quanto foi condicionada a estar sempre a fazer “mais qualquer coisa”. A mão vai automaticamente ao telemóvel, os olhos procuram distração, e o silêncio começa a parecer quase desconfortável. E é precisamente aqui que existe um ponto-chave para a sua evolução de carreira.
Quem reaprende a lidar com esse espaço vazio consegue usar esses momentos para pensar: para onde quero ir? Que tarefas me fazem avançar de facto? Que competências me tornam interessante para o próximo cargo? São perguntas que exigem tranquilidade - não mais uma janela de chat.
A carreira raramente nasce de estar freneticamente “ocupado”; cresce com decisões inteligentes, resultados visíveis e confiança. O multitasking constante bloqueia tudo isso. Quem tem coragem de quebrar este automatismo transmite um sinal forte: aqui trabalha alguém que não só trabalha muito, mas sobretudo com impacto - e são essas pessoas que avançam nas empresas.
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