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Porque as crianças dos anos 60 tornaram-se mais resistentes do que a geração dos smartphones.

Criança a caminhar em cima de muro com bola de futebol, enquanto dois amigos andam de bicicleta na rua residencial.

Enquanto muitos baby boomers passavam as tardes sem supervisão em pelados improvisados e nos bosques, as crianças de hoje crescem sob vigilância permanente, agendas ao minuto e smartphones. Psicólogos alertam: é precisamente esta mudança que pode ajudar a explicar porque é que a carga mental dos mais novos é hoje dramaticamente maior do que há 50 anos.

Como era a infância antigamente: sair, brincar e voltar quando anoitecia

Quem cresceu nas décadas de 1960 ou 1970 reconhece o guião: os pais diziam, em essência, “vai lá para fora e volta para jantar” - e esse era o limite. Não havia tardes programadas ao pormenor, nem localização por GPS, e muitas vezes nem sequer existia um telefone fixo por perto.

As crianças andavam em grupo pelo bairro, subiam a árvores, construíam cabanas e testavam, às escondidas, descidas íngremes de bicicleta. As discussões resolviam-se com “pedra, papel, tesoura” ou negociações intermináveis, não com uma chamada para a mãe.

Essas incontáveis horas sem supervisão funcionavam como um campo de treino invisível para a autonomia, a coragem e a resistência psicológica.

Na altura ninguém falava de “resiliência” ou “competência emocional”. Era simplesmente infância - muitas vezes caótica, por vezes perigosa, mas conduzida pelos próprios miúdos. É exactamente essa autonomia que agora está no centro da investigação.

O que diz a investigação: autonomia protege a saúde mental

Em 2023, uma equipa liderada pelo psicólogo norte-americano Peter Gray publicou uma análise abrangente de dados recolhidos ao longo de décadas. A conclusão principal: a autonomia das crianças tem vindo a encolher desde os anos 1960 e isso está intimamente associado ao aumento acentuado de problemas psicológicos na adolescência.

Em muitos países industrializados, os números de perturbações de ansiedade, depressão e até suicídios em jovens dispararam - e não em contexto de guerra, mas num período de relativa segurança material.

Gray e outros especialistas apontam sobretudo para a perda do brincar livre e auto-organizado. É aí que se forma um factor psicológico central: o “locus de controlo interno”.

Quem tem um locus de controlo interno forte não se sente um joguete das circunstâncias, mas alguém capaz de influenciar o que acontece - uma protecção natural contra sentimentos de impotência e ansiedade.

O brincar livre, sem adultos por perto, obriga as crianças a resolver conflitos, negociar regras, avaliar riscos e lidar com contratempos. É precisamente nesse terreno que o locus de controlo interno se desenvolve.

Brincar livre: um espaço de treino para emoções, coragem e locus de controlo interno

Estudos em Psicologia, incluindo sínteses divulgadas em publicações como a Psychology Today, mostram que o jogo não estruturado e auto-determinado é uma das vias mais importantes para as crianças aprenderem a gerir as próprias emoções.

  • Regulam a raiva, a frustração e a desilusão sem recorrer de imediato à ajuda de um adulto.
  • Treinam negociações sociais: quem entra na brincadeira? que regras contam?
  • Vivem experiências de risco, dor e falhanço - em doses controláveis.
  • Percebem que o medo diminui quando nos aproximamos dele, passo a passo.

Quem, em miúdo, desce a correr um monte de bicicleta e de vez em quando cai, aprende sem dar por isso: a dor passa, consigo levantar-me outra vez. Os psicólogos chamam a isto “tolerância ao distress” - a capacidade de aguentar emoções desagradáveis sem colapsar nem fugir.

Hoje, uma elevada tolerância ao distress é considerada um dos melhores indicadores de longo prazo de uma saúde mental estável.

E é precisamente esta competência que parece estar bastante menos desenvolvida na geração de crianças e adolescentes actual do que em muitas pessoas que foram crianças nos anos 60 e 70.

Como a liberdade se foi perdendo: do “andar à solta” ao programa permanente

Esta mudança não aconteceu de um dia para o outro. A partir dos anos 1980, a ideia do que era “boa parentalidade” transformou-se profundamente. Reportagens mediáticas sobre raptos de crianças - estatisticamente muito raros - criaram uma pressão enorme para que os pais nunca tirassem os filhos de vista.

Colunas de aconselhamento, fóruns de pais e guias de educação passaram a defender estilos parentais mais controladores. O que antes era normal começou a parecer irresponsável: deixar crianças do 1.º ciclo ir sozinhas para a escola, “ir brincar” à tarde sem supervisão, desaparecer pelo bairro até escurecer.

Menos liberdade, mais controlo - e efeitos colaterais

Em vários países, é possível observar uma tendência clara:

  • As crianças vão muito mais tarde, pela primeira vez, sozinhas para a escola.
  • Os intervalos encolheram e o tempo de brincadeira livre foi restringido.
  • Clubes, aulas e actividades “de enriquecimento” passaram a ocupar as tardes.
  • Os pais estão muito mais presentes nas actividades de lazer.

A intenção é boa: promover, proteger, “acompanhar da melhor forma”. A consequência não pretendida é outra: falta-lhes espaço para experimentar sem rede. Acumulam menos situações em que têm de encontrar soluções por conta própria.

Quando os pais removem cada pedra do caminho, a criança nunca aprende a passar por cima das pedras.

Sobreprotecção e controlo rígido: quando o cuidado descamba

Um estudo da American Psychological Association mostra até que ponto uma educação excessivamente controladora pode ter impacto. Crianças cujos pais foram muito directivos na primeira infância revelaram mais tarde dificuldades claramente maiores em controlar impulsos e regular emoções.

Os efeitos continuavam a ser mensuráveis em idade escolar. Um excesso de instruções e orientação constante retira às crianças a oportunidade de praticar: o que quero? como resolvo isto? o que acontece se eu estiver errado?

A fronteira é fina: garantir segurança - sim. Eliminar cada tropeção emocional - problemático. Quem protege o filho de qualquer sensação desagradável está a retirar-lhe exactamente o treino de que vai precisar para uma vida adulta mais dura.

Pais jardineiros em vez de pais carpinteiros

A psicóloga do desenvolvimento Alison Gopnik popularizou a imagem do “pai/mãe carpinteiro(a)” e do “pai/mãe jardineiro(a)”:

  • Carpinteiros querem moldar com precisão: têm uma ideia definida do “produto final criança”.
  • Jardineiros criam o contexto: boas condições, mas muita liberdade para a criança se desenvolver por si.

A investigação tende a favorecer o jardineiro: as crianças precisam de espaço para se construírem - não de pais que as recortem para caberem num modelo desejado.

Smartphones: um segundo golpe na resiliência

Ao mesmo tempo que o brincar livre diminuía, chegaram os smartphones e as redes sociais, e a partir dos anos 2010 entraram a fundo no quotidiano de crianças e adolescentes. O psicólogo social Jonathan Haidt descreve este fenómeno como uma “grande reestruturação da infância”.

A infância deslocou-se do espaço físico para o digital. Quem já tinha pouco tempo ao ar livre e sem supervisão passou a viver os contactos sociais em Instagram, TikTok e afins. Os efeitos são significativos:

  • Mais comparação social, mais pressão para ser perfeito.
  • Disponibilidade constante, quase sem pausas reais para recuperar.
  • Ciberbullying, exclusões subtis, humilhações públicas.
  • Falta de sono devido ao uso contínuo e à luz azul.

Em paralelo, desde o início da era dos smartphones, aumentaram drasticamente em muitos países os números de depressão, perturbações de ansiedade, auto-mutilação e tentativas de suicídio entre adolescentes.

Hoje protegemos as crianças com excesso de cautela na vida real - e, ao mesmo tempo, deixamo-las correr sem travões para espaços digitais cujos riscos mal conseguem avaliar.

O que os pais de hoje podem retirar daqui

Ninguém quer voltar a estruturas de escalada em betão sem protecções ou a viagens de carro sem cinto. A questão não é nostalgia; é outra: como trazer o essencial daquela infância robusta para um contexto moderno e seguro?

Ideias concretas para aumentar a autonomia no dia-a-dia

  • Criar pequenos espaços de liberdade: deixar crianças mais novas do 1.º ciclo fazerem sozinhas um pequeno trecho do caminho; as mais velhas, o percurso completo.
  • Tardes sem marcações: não preencher cada hora. Permitir simplesmente “tempo lá fora” sem plano.
  • Acompanhar conflitos em vez de os resolver: deixar que as crianças negociem primeiro e só depois intervir de forma moderada.
  • Aceitar risco de forma responsável: trepar, andar de bicicleta, fazer trabalhos com canivete - com regras, mas sem pânico.
  • Adiar e organizar o tempo de ecrã: ter smartphone próprio mais tarde, criar ilhas offline claras ao longo do dia.

O quotidiano dá muitos pretextos: ir à padaria da esquina, preparar a mochila do desporto sem ajuda, ir ter com amigos por iniciativa própria. Cada um destes “micro‑aventuras” reforça o saldo de autoconfiança.

Porque é que a geração dos anos 60, em modo de crise, tende a agir mais depressa

Há um efeito secundário interessante daquela liberdade: muitas pessoas que cresceram nas décadas de 60 e 70 contam que, quando estão sob stress, tendem mais a agir do que a analisar durante demasiado tempo. Estão habituadas a improvisar soluções quando algo corre mal.

As gerações mais novas inclinam-se mais para a sobreanálise: pesquisar no Google, recolher opiniões, ponderar - e só depois agir. Ambas as abordagens têm vantagens. No dia-a-dia, pensar ajuda; numa crise real, ruminar demasiado pode bloquear.

Quem, em criança, viveu repetidamente a experiência de “vou simplesmente tentar” recorre mais depressa, em adulto, ao instinto e à experiência quando surge uma situação fora do normal.

O desafio para os pais actuais é cultivar as duas coisas: a capacidade de reflectir - e a coragem de avançar, mesmo quando o cenário é confuso.

Enquadramento prático: resiliência, locus de controlo interno, tolerância ao distress

Há três conceitos que surgem constantemente na investigação quando se fala desta geração “robusta”:

Conceito Explicação curta Desenvolve-se com
Resiliência Capacidade psicológica de recuperar após crises e voltar a levantar-se Desafios, contratempos, problemas resolvidos pela própria criança
Locus de controlo interno Sensação de conseguir influenciar activamente a própria vida Decisões autónomas, responsabilidade real
Tolerância ao distress Conseguir suportar emoções desagradáveis sem “quebrar” Riscos, esperar, frustração, esforço físico

As três dimensões podem ser treinadas no dia-a-dia sem sobrecarregar as crianças. Um teste que corre mal, um jogo perdido, uma discussão com amigos - tudo isto são oportunidades de aprendizagem, desde que os adultos não corram imediatamente a alisar, consolar e regular, deixando primeiro algum espaço.

Quando se dá, de propósito, um pouco mais de margem às crianças, é frequente haver surpresas: o caminho que parecia “demasiado perigoso” corre sem problemas. O filho tímido acaba por tocar à campainha dos vizinhos para ir brincar. A filha que “nunca quer ir sozinha” descobre que afinal gosta de ter um pequeno projecto só dela.

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