Saltar para o conteúdo

Aquecimento sem radiadores: novo piso solar chinês desafia o uso de óleo e gás.

Pessoa de roupa clara em pé numa sala moderna com chão de madeira e grandes janelas iluminadas.

Uma equipa de investigação na China apresentou um sistema de aquecimento que vira do avesso a forma habitual de aquecer uma casa: sem radiadores tradicionais, sem um circuito de água quente a percorrer toda a habitação - em vez disso, um pavimento que acumula energia como uma enorme garrafa térmica e a devolve de forma doseada, 24 horas por dia. Parece coisa do futuro, mas, segundo as universidades envolvidas, já é tecnicamente possível com a tecnologia atual.

Porque é que o aquecimento clássico está a chegar ao limite

As caldeiras a gás e a gasóleo estão cada vez mais pressionadas: crise climática, preços da energia em forte subida, metas e regras políticas - os motivos acumulam-se. Em paralelo, o nível de exigência em termos de conforto também cresce: casas quentes, com o mínimo de oscilações de temperatura, e com custos controlados.

Em muitos países repete-se o mesmo padrão: edifícios com fraca isolação, caldeiras antigas a funcionar muito além da vida útil, e até soluções modernas a gastar demasiado quando a envolvente do edifício não está bem isolada. Por isso, as alternativas precisam de responder a vários requisitos ao mesmo tempo:

  • baixo consumo de energia
  • emissões de CO₂ tão reduzidas quanto possível
  • calor estável, sem necessidade de ajustes constantes
  • custos de compra e utilização acessíveis

É precisamente aqui que entra a proposta dos investigadores chineses - uma combinação pouco comum de tecnologias já conhecidas.

O conceito: pavimento com areia como armazenamento térmico

No essencial, a solução assenta em três elementos: uma instalação solar, uma bomba de calor específica e um pavimento que integra, por baixo, uma camada de areia que funciona como armazenamento térmico. Essa camada tem cerca de 20 centímetros de espessura e é atravessada por condutas capazes de absorver e libertar calor.

O pavimento torna-se o próprio emissor de aquecimento - e, ao mesmo tempo, num acumulador de energia que trabalha de dia e de noite.

O princípio é simples: a areia consegue reter uma grande quantidade de calor e libertá-lo lentamente. Assim, o piso passa a atuar como um emissor “lento”, mas muito regular. Em vez de um radiador aquecer intensamente e depois arrefecer, a temperatura no interior tende a manter-se mais constante.

Como é que os componentes trabalham em conjunto

O funcionamento pode ser entendido, de forma geral, em dois modos:

  • Com sol: os painéis solares no telhado fornecem eletricidade, que alimenta diretamente a bomba de calor. A bomba de calor eleva a temperatura da camada de areia por baixo do pavimento e “carrega” o armazenamento térmico.
  • Céu nublado ou de noite: quando há pouca ou nenhuma luz solar, a bomba de calor assume a maior parte do trabalho e obtém a eletricidade necessária da rede ou de outro sistema de armazenamento. Depois, o pavimento com areia vai libertando o calor acumulado de forma gradual para o espaço interior.

O resultado é um ambiente que se mantém quente durante horas, mesmo quando o tempo no exterior muda de forma repentina.

Vantagens: calor contínuo e menos oscilações

Um dos pontos fortes mais relevantes é a uniformidade da entrega de calor. Radiadores clássicos ou sistemas de ventilação forçada tendem a funcionar “aos solavancos”: primeiro muito quente, depois mais frio. Além de desconfortável, isso pode aumentar o consumo, porque muitas pessoas acabam por ajustar frequentemente a regulação ou por definir temperaturas mais altas do que o necessário.

Aqui, a lógica é diferente. A areia sob o pavimento funciona como um amortecedor térmico:

A potência de aquecimento distribui-se de forma uniforme ao longo de horas, em vez de surgir em picos curtos e intensivos em energia.

Há ainda outro aspeto: o aquecimento pelo pavimento é frequentemente percebido como mais confortável, porque aquece de baixo para cima e tempera o espaço de forma suave. Quando bem dimensionado, também ajuda a reduzir zonas frias e correntes de ar.

Até que ponto é possível poupar energia?

Os investigadores ainda não avançaram com percentagens concretas. No entanto, com base em conceitos próximos - por exemplo, solar combinado com bomba de calor e aquecimento radiante (aquecimento de superfície) - sabe-se que o consumo de combustíveis fósseis pode baixar de forma significativa, sobretudo em casas bem isoladas.

A solução chinesa poderá ser especialmente interessante em situações como:

  • já existir uma instalação solar, ou estar planeada;
  • ser necessário renovar o pavimento (as camadas de suporte) por outros motivos;
  • haver intenção de, a longo prazo, aquecer sem depender de gás e gasóleo.

O que se sabe sobre custos - e o que ainda falta saber

As universidades envolvidas não divulgam, para já, valores de referência. O que é claro é que, numa fase inicial, não deverá ser um sistema barato, porque implica intervir na construção do pavimento e requer uma regulação especificamente adaptada.

Os responsáveis sublinham que querem desenhar o sistema de forma a que, a longo prazo, também seja financeiramente acessível para agregados familiares comuns.

Dois fatores podem jogar a favor do preço:

  • A areia, enquanto material, é muito barata e fácil de obter.
  • Os painéis solares desceram bastante de preço nos últimos anos, e as bombas de calor estão a difundir-se rapidamente.

Se a tecnologia entrar em produção em série, os efeitos de escala podem reduzir os custos. Ainda assim, a capacidade de competir com uma solução convencional a gás ou com uma bomba de calor ar-água dependerá muito de apoios públicos, preços da eletricidade e custos de construção em cada país.

Onde esta inovação de aquecimento faz mais sentido

O potencial é maior em construções novas e em renovações profundas. Nesses casos, é possível coordenar desde o início o pavimento, a isolação e a tecnologia. Exemplos típicos de aplicação:

  • moradias novas com produção de eletricidade solar
  • edifícios multifamiliares com um sistema de armazenamento partilhado
  • reabilitações energéticas em que, de qualquer forma, se substitui a betonilha/estrado

Em edifícios antigos com isolação muito deficiente, o conceito tende a encontrar limites. Mesmo o melhor armazenamento ajuda pouco se o calor se perder rapidamente por paredes sem isolação ou janelas antigas. Nesses casos, a prioridade teria de ser melhorar a envolvente do edifício.

Obstáculos técnicos e questões em aberto

Por agora, trata-se de um sistema vindo de laboratório e/ou de edifícios de teste. Para uma adoção alargada, há perguntas que ainda precisam de resposta:

  • Durante quanto tempo o pavimento com areia se mantém eficiente como armazenamento?
  • Quão complexas são a manutenção e as reparações?
  • Como se comporta o sistema em regiões muito frias ou muito húmidas?
  • Como evitar sobreaquecimento na primavera ou no outono?

Este último ponto é particularmente relevante: um armazenamento térmico não serve apenas para aquecer - tem de ser gerido de modo a impedir que o pavimento aqueça demasiado quando, de repente, surgem temperaturas amenas.

O que os proprietários já podem retirar disto hoje

Mesmo que este sistema específico ainda não esteja disponível no mercado generalista, alguns princípios podem aplicar-se desde já em projetos atuais. Quem está a construir ou a renovar pode orientar-se por três linhas:

  • optar por aquecimento de superfície em vez de radiadores individuais - por exemplo, aquecimento pelo pavimento ou pelas paredes;
  • combinar bomba de calor com eletricidade solar, para aumentar o autoconsumo;
  • sempre que possível, prever armazenamento térmico, para suavizar picos de potência.

Quanto melhor for a isolação de uma casa, mais sentido faz este tipo de abordagem. Um edifício bem isolado, uma bomba de calor eficiente e uma solução inteligente de armazenamento complementam-se e tornam o fornecimento de calor mais estável.

Termos explicados de forma breve

Bomba de calor: equipamento que aproveita calor ambiente do ar, da água ou do solo e o eleva para um nível de temperatura útil. Funciona, em termos de princípio, como um frigorífico - mas ao contrário: em vez de levar calor do interior para o exterior, traz calor do exterior para dentro de casa.

Armazenamento térmico: sistema que absorve energia térmica e a devolve mais tarde. Pode ser um depósito de água, um núcleo de betão ou - como no conceito chinês - uma camada de areia sob o pavimento.

Aquecimento de superfície (aquecimento radiante): tipo de aquecimento em que não é um radiador pequeno a aquecer, mas sim grandes superfícies, como o pavimento ou as paredes. Isto permite trabalhar com temperaturas mais baixas no fluido/elemento de aquecimento, o que combina bem com bombas de calor.

O desenvolvimento chinês ilustra para onde o mercado do aquecimento pode caminhar: afastar-se da produção de calor pontual e fóssil e aproximar-se de sistemas que armazenam energia renovável e a distribuem da forma mais uniforme possível. Se o pavimento com areia vindo do Leste Asiático chegará, de facto, a novas construções noutros países, é uma incógnita. O que fica claro é que, ao planear uma casa hoje, vale a pena integrar desde cedo soluções de armazenamento e eletricidade solar.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário