Saltar para o conteúdo

Índia acelera a entrada na liga dos fabricantes de aviões com a Embraer

Dois homens apertam as mãos junto a bandeiras da Índia e Brasil, com aviões num hangar ao fundo.

Um gigante industrial indiano e um fabricante de aviões já consolidado do Brasil uniram esforços para produzir jactos regionais na Índia. Este movimento vai muito além de uma fábrica isolada: Nova Deli pretende criar uma indústria aeronáutica própria - e isso toca num ponto sensível num mercado em que a pressão sobre a Airbus e a Boeing já vinha a aumentar.

Grupo indiano alia-se à Embraer

O conglomerado indiano Adani Group e a fabricante brasileira de aviões Embraer assinaram um acordo que poderá marcar o início de uma nova fase. O plano prevê a produção conjunta de aeronaves regionais em território indiano.

O foco recai sobre aparelhos com 70 a 140 lugares - isto é, aviões pensados sobretudo para ligações de curta e média distância. É precisamente este segmento que mais cresce no transporte aéreo, à medida que aumentam as rotas entre cidades pequenas e médias.

O novo projeto conjunto aponta para jactos regionais com 70 a 140 lugares, que deverão servir de espinha dorsal à aviação doméstica indiana.

A cooperação deverá abranger várias áreas:

  • montagem final de aviões regionais na Índia
  • produção de peças e componentes
  • manutenção e conservação da frota
  • formação de pilotos e técnicas e técnicos

Ou seja, não se trata apenas de apertar parafusos e trabalhar chapa: o objetivo é construir todo um ecossistema em torno de jactos regionais modernos.

Adani e Embraer: porque é que a fabricante brasileira vai para a Índia

Para a Embraer, a decisão é claramente estratégica. A empresa é considerada o terceiro maior fabricante de aviões do mundo, atrás da Airbus e da Boeing. Até agora, os aviões comerciais são produzidos exclusivamente no Brasil. Há já algum tempo que a empresa procura reforçar a sua internacionalização.

A Índia oferece várias vantagens ao mesmo tempo: o mercado está a crescer, o governo apoia fortemente projetos industriais e a aviação local precisa exatamente dos aviões que a Embraer fabrica. No setor militar, parceiros brasileiros e indianos já cooperam há mais tempo, por exemplo no avião de transporte C-390. Agora segue-se a área civil.

A Embraer espera obter acesso direto às companhias aéreas indianas, que têm de planear com clareza como vão expandir as frotas nos próximos anos. Produzir localmente dá vantagem em custos, prazos de entrega e apoio político.

Adani quer mais do que montar aviões

Para o Adani Group, o acordo é ainda mais relevante. O conglomerado já está presente em vários setores: aeroportos, defesa, espaço, energia e infraestruturas. Com a entrada na construção de aeronaves de passageiros, junta agora mais um setor de futuro.

A Adani ambiciona uma cadeia de valor aeronáutica completa - e não apenas uma linha de montagem.

O plano vai muito além de uma simples fábrica de montagem. O grupo pretende:

  • criar uma indústria local de fornecedores que entregue componentes e sistemas
  • estabelecer uma cadeia de abastecimento estável dentro do país
  • tornar a Índia menos dependente de importações da Europa, dos Estados Unidos e da China
  • gerar empregos qualificados nas áreas da engenharia e da técnica

Assim, o projeto encaixa na perfeição na estratégia “Make in India” do governo de Nova Deli, que dá prioridade ao desenvolvimento de indústrias próprias - de smartphones a satélites, e agora também de aviões comerciais.

A aviação indiana está a crescer a grande velocidade

A altura escolhida para este projeto não é fruto do acaso. O transporte aéreo na Índia está a crescer de forma explosiva. O país tem hoje a maior população do mundo, uma classe média em expansão e uma ampla rede de companhias aéreas de baixo custo.

Nas rotas domésticas, o número de passageiros sobe de forma acentuada. Muitas pessoas estão a trocar o comboio ou o autocarro de longa distância pelo avião, porque os preços baixaram e surgiram novas rotas. Voos entre cidades médias, que antes quase não tinham ligação direta, tornaram-se economicamente interessantes.

A classe média em expansão, mais companhias low-cost e novos aeroportos estão a fazer disparar a procura por jactos regionais e de médio curso.

Sobretudo dois tipos de aeronaves estão em alta:

Segmento Utilização típica Capacidade
Jactos regionais Ligações entre cidades pequenas e médias 70–140 lugares
Aviões de corredor único de médio curso Eixos principais e rotas domésticas muito movimentadas cerca de 150–240 lugares

A Índia não quer apenas comprar aviões neste mercado em forte expansão. Quer também produzi-los. Alguns estados, como Gujarat e Andhra Pradesh, já se apresentam como candidatos para receber fábricas, centros de formação e parques de fornecedores.

A China avança em paralelo com o C919

Enquanto a Índia entra na produção de jactos regionais com a Embraer, a China segue uma via diferente: com o C919 da Comac, tem em preparação uma aeronave própria de curto e médio curso, destinada a enfrentar diretamente os best-sellers Airbus A320 e Boeing 737.

O C919 está num passo decisivo: a certificação europeia. Em Xangai decorrem voos de teste sob a supervisão da Agência Europeia para a Segurança da Aviação. Especialistas estimam um prazo entre três e seis anos até que todos os obstáculos sejam ultrapassados.

Com o C919 chinês e o novo projeto aeronáutico indiano, o duopólio até aqui dominado pela Airbus e pela Boeing passa a enfrentar concorrência muito mais visível.

Para as companhias aéreas de todo o mundo, isto poderá significar mais opções e maior poder de negociação no longo prazo. Já para a Airbus e a Boeing, cresce a pressão para modernizar programas, resolver falhas de entrega e manter os preços sob controlo.

O duopólio da Airbus e da Boeing começa a fragilizar-se?

Durante décadas, a Airbus e a Boeing dividiram entre si a maior parte do mercado de aviões comerciais. Os novos concorrentes sempre tiveram dificuldade em entrar, porque as certificações demoram, as exigências de segurança são elevadas e as companhias aéreas raramente gostam de apostar em frotas demasiado exóticas.

Agora, com a Embraer já firmemente instalada no mercado de jactos regionais e com um parceiro indiano de grande dimensão, está a ganhar forma um concorrente muito mais sério. Ao mesmo tempo, a China trabalha com forte apoio estatal para colocar o C919 no mercado internacional.

O panorama geral é este:

  • a Índia reforça o seu perfil no segmento de jactos regionais com o apoio da Embraer
  • a China aponta com o C919 ao segmento central da Airbus A320 e da Boeing 737
  • a Airbus e a Boeing terão de lidar com desafios técnicos, financeiros e políticos

A indústria da aviação entra, assim, numa fase em que as quotas de mercado podem mover-se mais do que aconteceu nas últimas décadas.

O que isto significa para passageiros e companhias aéreas

Para os passageiros na Índia, o efeito deverá sentir-se relativamente depressa: mais ligações diretas entre cidades que até agora só eram acessíveis com desvios, e uma maior frequência de voos dentro do país. Os jactos regionais são particularmente adequados para novas rotas com ocupação inicialmente mais baixa.

As companhias aéreas, a médio prazo, passam a ter a oportunidade de diversificar mais as frotas. Quando, para além da Airbus e da Boeing, surgem outros fornecedores a sério, normalmente a posição negocial melhora, tanto em preços como em prazos de entrega. Ao mesmo tempo, aumenta a complexidade da gestão de frotas, porque diferentes modelos exigem manutenção, peças sobresselentes e formação distintas.

Desafios e riscos do sonho aeronáutico indiano

Por ambicioso que o projeto pareça, o caminho está longe de ser simples. A indústria aeronáutica exige muito capital, tem forte densidade tecnológica e é fortemente regulada. A Índia terá de formar um grande número de profissionais qualificados, respeitar padrões de forma contínua e convencer as autoridades internacionais.

A isto somam-se os riscos políticos. Mudanças nas regras, tensões comerciais ou restrições à exportação de determinadas tecnologias podem travar este tipo de iniciativa. Além disso, a coexistência com outros grandes programas - por exemplo, na defesa e no espaço - também consome recursos.

Ao mesmo tempo, a Índia ganha uma oportunidade que vai além do transporte aéreo. Quem fabrica aviões complexos desenvolve competências em áreas como engenharia de materiais, software, sistemas de propulsão e robótica industrial. Essas capacidades também podem ser aplicadas noutras indústrias, como maquinaria de alta tecnologia, engenharia energética ou sistemas espaciais.

Porque é que os jactos regionais voltam agora ao centro das atenções

Durante muito tempo, os jactos regionais foram vistos como um produto de nicho entre os turboélices e os jactos clássicos de médio curso. Com a procura crescente por ligações ponto a ponto, estão agora a ganhar relevância. As companhias aéreas conseguem testar novas rotas com aviões mais pequenos sem precisarem de encher logo uma aeronave de grande dimensão.

Num país como a Índia, com muitas cidades de vários milhões de habitantes, mas também com centros médios a crescer depressa, este conceito encaixa particularmente bem. Quem hoje cria uma ligação direta entre duas regiões até agora mal servidas pode assegurar quotas de mercado de forma duradoura - e é precisamente aí que o projeto da Adani e da Embraer se posiciona.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário