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Novo estudo: Como microrganismos devolvem os nutrientes aos vegetais

Pessoa a colher cenoura numa horta com bloco de notas e microscópio ao lado durante dia ensolarado.

Uma investigação recente, divulgada em 2025, mostra até que ponto a densidade de nutrientes em muitas variedades modernas de hortícolas caiu - e de que forma esta tendência pode ser invertida. Em vez de aumentar continuamente a carga de fertilizantes químicos nos campos, investigadores na Índia estão a apostar em nutrientes orgânicos e em pequenos aliados do solo: microrganismos específicos que ajudam as plantas a crescer de forma orientada.

Hortícolas actuais: bonitos por fora, mais pobres por dentro

Ao longo dos últimos oito a nove decénios, a qualidade de muitas culturas hortícolas alterou-se de forma marcante. Melhoramentos focados em alto rendimento, a expansão de monoculturas e o uso intensivo de fertilizantes sintéticos fizeram subir as colheitas, mas, em paralelo, contribuíram para uma redução clara da densidade de nutrientes.

As análises indicam que, em variedades cultivadas comercialmente, se perdeu - consoante o nutriente - cerca de 25 a 50 por cento da densidade nutricional original. Entre os mais afectados estão minerais indispensáveis ao metabolismo humano, com quedas particularmente acentuadas em ferro, cobre e magnésio.

Este cenário está ligado a um problema de base: muitos solos são considerados “empobrecidos”, mesmo quando são fertilizados. Podem conter sais nutritivos, mas cada vez menos vida. A exploração intensiva e a utilização contínua de adubos químicos reduziram fortemente a diversidade microbiana do solo. E é precisamente esse ecossistema invisível que determina em grande medida quão bem as plantas conseguem absorver nutrientes e convertê-los em vitaminas, minerais e compostos vegetais secundários.

“Quanto menos microrganismos estiverem activos no solo, mais pobre acaba por ser o prato - independentemente de quão grande ou impecável o legume pareça.”

Proposta dos investigadores: alimentar o solo, em vez de apenas fertilizar

Uma equipa de investigação na Índia testou, num projecto publicado em 2025, uma abordagem alternativa: em vez de fertilizantes sintéticos, recorreu exclusivamente a fontes orgânicas como estrume e vermicomposto - isto é, húmus produzido pela actividade das minhocas. A estes materiais foram adicionados “microrganismos promotores do crescimento das plantas”, designados pela sigla PGPM.

Este grupo inclui sobretudo bactérias específicas da zona das raízes, as chamadas rizobactérias, e também fungos benéficos. Estes organismos fixam-se junto às raízes e estabelecem uma parceria estreita com a planta.

O que os microrganismos PGPM fazem no solo

  • Fixação de azoto: captam azoto gasoso do ar e tornam-no disponível para as plantas.
  • Solubilização de nutrientes: transformam fósforo e outros minerais em formas mais facilmente absorvidas pelas raízes.
  • Melhoria da estrutura do solo: promovem agregação, aumentam a formação de húmus e a capacidade do solo para reter água.
  • Atenuação do stress: ajudam as plantas a lidar melhor com calor, seca e stress salino.
  • Efeito de escudo biológico: alguns microrganismos afastam germes patogénicos na superfície das raízes.

Do ponto de vista científico, estes microrganismos funcionam como uma combinação de biofertilização e bioprotecção - sem deixar resíduos químicos.

Mais minerais: números que fazem os agricultores prestar atenção

A equipa comparou hortícolas produzidos com o método orgânico com reforço microbiano com plantas cultivadas com fertilização mineral convencional. As diferenças foram claras.

Nutriente Veränderung mit organischer Methode
Zinco +48,48 %
Ferro +31,70 %
Cálcio +23,84 %

Ganhos desta ordem não interessam apenas a especialistas em nutrição. Em países onde uma grande parte da população depende dos hortícolas como principal fonte de nutrientes, cada ponto percentual extra pode significar a diferença entre deficiência e uma ingestão suficiente.

Mais sabor e mais “combustíveis” vegetais

Para além dos minerais, também se alterou o perfil dos chamados compostos vegetais secundários - substâncias que não só dão cor e aroma aos hortícolas, como muitas vezes também lhes conferem valor do ponto de vista da saúde.

Exemplos apresentados no estudo

  • Batatas: mais 45 % de flavonóides, mais 49 % no teor total de fenóis.
  • Cebolas: mais 27 % de flavonóides, mais 31 % de capacidade antioxidante.
  • Leguminosas como ervilhas e feijão-caupi: aumentos evidentes em antioxidantes e vitaminas.

Flavonóides e compostos fenólicos actuam no organismo como “captadores” de radicais livres e são associados a um menor risco de doenças cardiovasculares e de determinados tipos de cancro. Ter mais destes compostos nos hortícolas não significa apenas cores mais intensas e um sabor mais marcado, mas também um potencial benefício para a saúde a longo prazo.

A equipa também submeteu os produtos a testes organolépticos - provas de degustação em que se avaliam aroma, textura e sabor. Os hortícolas provenientes de gestão orgânica com PGPM obtiveram, de forma consistente, melhores classificações. O aumento no sabor percebido chegou a atingir 27,9 por cento.

“A combinação de microrganismos e nutrição orgânica torna os hortícolas não só mais nutritivos, mas simplesmente mais saborosos - um factor decisivo quando se pretende que crianças e adultos comam mais deles.”

“Fome oculta”: quando as calorias chegam, mas faltam nutrientes

Na medicina da nutrição fala-se em “fome oculta” quando as pessoas ingerem calorias suficientes, mas, ainda assim, apresentam carências de vitaminas e minerais. Segundo estimativas, isto afecta mais de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo.

É precisamente aqui que a abordagem do estudo pode ser relevante. Se os agricultores conseguirem produzir hortícolas com maior densidade de nutrientes, a disponibilidade nutricional melhora mesmo que as quantidades consumidas permaneçam iguais. Isto aplica-se tanto a países com recursos limitados como a países ricos, onde a oferta alimentar é abundante, mas a qualidade nem sempre acompanha.

Efeitos ecológicos: menos emissões, menos lixiviação

Abandonar fertilizantes sintéticos não traz apenas vantagens nutricionais. A fertilização orgânica e a construção de uma biologia do solo activa podem também melhorar a pegada ambiental da agricultura.

  • Menos gases com efeito de estufa: a produção de fertilizantes sintéticos consome grandes quantidades de energia. Ao optar por fontes orgânicas, reduz-se CO₂.
  • Menores perdas de nutrientes: um solo vivo retém melhor azoto e fósforo, diminuindo a passagem de nutrientes para as águas subterrâneas.
  • Mais húmus: o vermicomposto e o estrume elevam o teor de húmus, o que também aumenta o carbono armazenado no solo.

Para os agricultores, esta via pode ainda ser economicamente atractiva: solos saudáveis respondem com mais robustez a extremos climáticos e, no longo prazo, exigem menos factores de produção externos.

O que isto pode significar para consumidores na Europa

Embora o estudo tenha sido realizado na Índia, a mensagem central é facilmente transferível para a realidade europeia. Também aqui muitos solos estão sob pressão e também aqui predominam variedades seleccionadas para rendimento, que nem sempre são as mais ricas em nutrientes.

Quem quiser agir a nível individual tem várias opções:

  • Comprar hortícolas de agricultura biológica: muitas explorações em modo biológico já trabalham com fertilização orgânica e promovem a vida do solo.
  • Usar composto e húmus de minhoca no jardim: restos de cozinha e resíduos verdes podem ser transformados em húmus rico através de vermicompostores.
  • Privilegiar diversidade: variedades antigas e a combinação de diferentes hortícolas aumentam o espectro de nutrientes no prato.

Quem quiser ir mais longe pode procurar produtores que usem expressões como “agricultura regenerativa”, normalmente associadas a práticas focadas em aumento de húmus, promoção da vida do solo e menor mobilização do terreno.

Porque o microbioma do solo pode ser a verdadeira chave

Muita gente associa a fertilidade do solo sobretudo a sais nutritivos - os números impressos no saco do adubo. A investigação recente desloca o foco para outro factor: o microbioma do solo, isto é, o conjunto de bactérias, fungos e outros microrganismos presentes na terra.

Este microbioma funciona como uma rede de abastecimento invisível. Ajuda a disponibilizar nutrientes, comunica quimicamente com as raízes e ajusta a acessibilidade de minerais conforme as necessidades da planta. Sem esta rede, muitos nutrientes ficam “presos” no solo e não chegam à planta - por muito que se fertilize.

A longo prazo, tanto o melhoramento vegetal como as práticas agrícolas poderão orientar-se mais para variedades e sistemas de cultivo que cooperem melhor com a vida do solo, em vez de se limitarem a maximizar o rendimento por hectare.

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