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Fungos micorrízicos: estudo revela falhas nas áreas protegidas

Cientista analisa amostras de solo e plantas numa floresta, com tablet e livro aberto ao lado.

Cerca de 17% da superfície terrestre do planeta tem algum tipo de proteção oficial. Ao longo de décadas, muito trabalho e negociação política foram necessários para criar parques nacionais, reservas selvagens ou zonas de conservação.

Ainda assim, um novo estudo indica que esse esforço assenta num ponto cego fundamental: temos protegido sobretudo a vida que conseguimos observar, enquanto quase ignoramos por completo a vida que mantém todo o resto de pé.

Para colmatar essa lacuna, os investigadores construíram os modelos globais mais completos alguma vez produzidos para perto de 3.000 espécies de fungos micorrízicos.

Estas redes subterrâneas fornecem nutrientes e água a cerca de 80% das espécies de plantas do mundo. A equipa comparou, depois, a distribuição provável dessas espécies com as áreas protegidas já existentes.

Os resultados mostram que mais de metade destes organismos essenciais está menos protegida do que estaria se os limites das áreas de conservação tivessem sido desenhados ao acaso.

O mundo escondido debaixo dos nossos pés

Os fungos micorrízicos dificilmente aparecem num cartaz de conservação. Vivem no solo, são maioritariamente invisíveis a olho nu e, por norma, ficam fora dos inventários tradicionais de vida selvagem.

No entanto, são - em termos muito concretos - uma parte da infraestrutura que sustenta a vida em terra. Estas redes subterrâneas ligam-se às raízes das plantas e ajudam-nas a captar fósforo, azoto e água, recebendo carbono em troca.

Os fungos tornam os ecossistemas mais resistentes a secas, doenças e surtos de pragas. Aumentam a probabilidade de os projectos de restaauro ecológico terem sucesso e ajudam a remover e armazenar milhares de milhões de toneladas de carbono da atmosfera.

Sem eles, as florestas, pradarias e savanas que efectivamente protegemos teriam dificuldades em funcionar.

"As áreas protegidas têm-se focado historicamente em plantas e animais, e não em fungos - e isso nota-se", afirmou a autora principal Clara Qin, antiga cientista de dados da Sociedade para a Proteção das Redes Subterrâneas (SPUN).

"Descobrimos que a maioria das espécies de fungos micorrízicos estava sub-representada nas áreas protegidas, o que sugere que há muita margem para melhorar."

Cartografar o que não se vê

A investigação foi liderada por Qin e pelo autor sénior Michael Van Nuland, ecólogo na SPUN.

Para perceber onde estes fungos realmente ocorrem, a equipa recorreu a 16,5 milhões de observações obtidas a partir de amostras de solo recolhidas por cientistas em todo o mundo.

Em cada amostra, os investigadores sequenciaram um pequeno código de barras de ADN para identificar todas as espécies de fungos presentes.

Com esses dados, criaram modelos que projectam onde cada espécie provavelmente vive, incluindo nas enormes áreas do planeta onde ainda ninguém procurou.

Fungos em risco de extinção

Os mapas finais abrangem 2.858 espécies, distribuídas por dois grandes tipos.

Os fungos ectomicorrízicos são o grupo mais numeroso, com 2.669 espécies identificadas no estudo. Predominam em florestas de folhosas e de coníferas - biomas temperados que, em geral, têm maior probabilidade de já estar incluídos em áreas protegidas.

E, mesmo assim, entre as poucas centenas de espécies de fungos ectomicorrízicos cuja situação de conservação foi formalmente avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza, cerca de um quarto já está em risco de extinção.

O cenário é ainda mais preocupante para os fungos micorrízicos arbusculares. Apesar de existirem menos espécies, são os fungos micorrízicos arbusculares (AM) que estabelecem parceria com a esmagadora maioria da vida vegetal da Terra.

Vivem sobretudo em terras agrícolas, pastagens e savanas - paisagens que ficam, em grande medida, fora das actuais medidas de proteção. E nenhuma espécie de fungo AM foi alguma vez avaliada quanto ao risco de extinção.

Hotspots de fungos sem proteção

O problema não é que a conservação tenha sido feita de forma negligente. O que acontece é que foi construída em torno de uma certa ideia do que é a natureza: grandes animais, plantas visíveis, paisagens que inspiram admiração.

Essa visão, apesar de parecer razoável, tem excluído de forma sistemática os organismos que permitem que essas paisagens funcionem.

"Concluímos que menos de 10% dos hotspots de biodiversidade micorrízica ficam, por assim dizer, dentro da vedação das áreas protegidas", disse Van Nuland.

"A grande maioria das comunidades micorrízicas mais diversas não estava protegida de todo."

Um mapa que aponta soluções

"Agora conseguimos apontar lugares num mapa e dizer: 'se quisesse criar um novo parque, era aqui que obteria o maior retorno pelo investimento e cobriria mais habitat para muitas espécies diferentes de fungos micorrízicos'", explicou Van Nuland.

À medida que as alterações climáticas e o desenvolvimento continuam a perturbar os sistemas naturais, torna-se cada vez mais importante preservar esse reservatório subterrâneo de fungos.

"Proteger estas áreas é uma forma de garantir que temos um reservatório de fungos capaz de estabelecer parceria com as plantas", afirmou Qin.

Com cerca de 25.000 espécies conhecidas de fungos micorrízicos - e talvez cinco vezes mais ainda por descobrir e descrever - o trabalho está longe de terminado. Mas o método já existe e pode ser escalado.

"Quando temos um método que funciona para mapear 2.800 espécies, então podemos usá-lo para mapear cada vez mais espécies à medida que as vamos descobrindo", disse a coautora do estudo Adriana Corrales, responsável de ciência de campo na SPUN.

A vida sob os nossos pés tem sustentado tudo o resto há milhões de anos. Talvez esteja na altura de a tratarmos como tal.

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