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AI acelera a saída de CEOs da Coca-Cola e Walmart em 2026

Homem de negócios em escritório moderno a analisar gráficos num portátil junto a documentos.

Enquanto muitos trabalhadores ainda tentam perceber se a sua função pode ser posta em causa pela inteligência artificial, nas salas de administração está a acontecer algo pouco habitual: precisamente dois dos gestores mais poderosos dos EUA estão a puxar o travão e a deixar o cargo - apontando directamente para a velocidade a que a AI está a evoluir.

Quando a digitalização ultrapassa até os gestores de topo

Durante muito tempo, a regra parecia simples: quem chegava ao topo era quase intocável. Os CEOs mantinham-se no lugar enquanto entregassem resultados e evitassem escândalos. Só que está a impor-se uma realidade diferente: não são as contas do trimestre nem as lutas internas que mais pressionam os líderes, mas sim o ritmo das mudanças tecnológicas.

Uma análise da Stanford University indica que, em 2026, cerca de 78% das empresas no mundo já utilizam inteligência artificial. Entre os gigantes da Fortune 500, a percentagem sobe, segundo o estudo, para quase 99%. Nesses grupos, a AI deixou de ser um teste e passou a integrar o trabalho diário - da logística ao marketing, passando pelo desenvolvimento de produto.

A mensagem que chega das administrações é clara: não são apenas os especialistas que podem ser apanhados de surpresa - até gestores de topo podem ser “atropelados” pela velocidade da revolução da AI.

É neste contexto que se enquadram as mudanças de liderança, especialmente mediáticas, na Coca-Cola e na Walmart. São duas das marcas mais influentes do planeta. Em ambas, a chefia manteve-se estável durante anos. E, nos dois casos, a transição geracional é justificada explicitamente com a próxima etapa da transformação impulsionada por AI.

Coca-Cola: o CEO sai porque a próxima vaga tecnológica precisa de “outro tipo de pessoas”

James Quincey, CEO da Coca-Cola desde 2017, anunciou que irá sair em 2026. Não aponta qualquer escândalo, nem uma crise, nem pressão accionista. A sua explicação é directa: a nova vaga de mudança digital e orientada por AI exige um estilo de liderança diferente.

Na sua perspectiva, um CEO não é apenas estratega e rosto público; é também um “construtor de equipas”. E, quando percebe que outra pessoa está mais bem posicionada para comandar uma nova ronda tecnológica, deve agir de forma coerente. É isso que Quincey está a fazer - por iniciativa própria, no auge do percurso.

O sucessor será Henrique Braun, até agora responsável pela operação. Caber-lhe-á conduzir a Coca-Cola numa fase em que algoritmos e fluxos de dados contam tanto quanto o sabor e a imagem de marca. A empresa já começou a preparar o terreno: em 2024, a Coca-Cola experimentou uma nova bebida desenvolvida numa colaboração humano–AI. As campanhas de marketing tornam-se cada vez mais guiadas por dados, e existem testes com modelos generativos capazes de sugerir textos publicitários, imagens e ideias de produto.

Quincey parece reconhecer que, para não apenas usar estas ferramentas, mas explorá-las estrategicamente ao máximo, é preciso grande afinidade tecnológica, capacidade de aguentar ciclos de inovação curtos e disponibilidade para assumir riscos que vão muito além de lançamentos tradicionais.

Walmart: “precisa de alguém mais rápido”

Na Walmart, o maior retalhista do mundo, a justificação terá sido ainda mais explícita. Doug McMillon, no cargo desde 2014, terá dito internamente, em termos equivalentes, que a empresa precisa de alguém “mais rápido” - isto é, mais rápido a implementar mudanças profundas com AI.

O sucessor, John Furner, conhece o negócio ao detalhe. Liderou anteriormente a operação principal da Walmart nos EUA. Experiência não lhe falta - mas, ao contrário de McMillon, é visto como inequivocamente orientado para o digital, próximo de dados, de experimentação, de mercados-piloto e de iniciativas de AI.

A Walmart já não é apenas uma empresa de supermercados. Está a investir em armazéns automatizados, cadeias de abastecimento comandadas por algoritmos e sistemas de preços dinâmicos. Na aplicação, um assistente conversacional chamado “Sparky” acompanha os clientes: procurar produtos, criar listas, verificar promoções - muito disso já acontece via interface de chat. Para a próxima etapa - por exemplo, AI totalmente integrada nas compras, no planeamento de pessoal ou na construção do sortido - são necessários líderes que não só aprovem, mas que pensem a partir destes sistemas.

Quando um CEO diz: “Outra pessoa consegue surfar esta vaga de AI melhor do que eu”, isso assinala uma viragem cultural na forma como se lideram empresas.

O que a AI está a fazer ao cargo de “CEO”

Estas duas mudanças de liderança apontam para uma questão mais ampla: de que forma a AI está a alterar o perfil exigido a quem lidera? Durante décadas, pesavam sobretudo o conhecimento do sector, as redes de contactos, a capacidade negocial e o equilíbrio político. A tecnologia existia, mas funcionava muitas vezes como ferramenta de bastidores.

Agora, o fenómeno é diferente: a AI está a mudar modelos de negócio a tal velocidade que as lógicas clássicas de carreira começam a falhar. Quem chegou ao cargo em 2014 ou 2017 construiu a vida profissional numa época em que o big data era tendência, mas em que Large Language Models, agentes autónomos ou a AI generativa na escala actual simplesmente não existiam.

Em muitos grupos, o retrato do líder de topo está, por isso, a deslocar-se. Procuram-se gestores que:

  • compreendam, pelo menos em termos fundamentais, sistemas complexos de AI;
  • tenham coragem para reconfigurar processos de forma radical;
  • tomem decisões depressa com base em enormes volumes de dados;
  • consigam orquestrar equipas de especialistas tecnológicos, áreas de negócio e gestão tradicional;
  • e, ao mesmo tempo, mantenham sob controlo regulação, ética e riscos de mercado.

A experiência, por si só, já não chega. Pode até transformar-se num travão quando receitas antigas reforçam a desconfiança em abordagens novas. É precisamente isso que Quincey e McMillon parecem querer evitar: não querem ser os responsáveis por carregar no travão por hábito, enquanto a concorrência acelera.

A AI atinge todos os níveis - do caixa à administração

No debate público, a pergunta costuma ser: que empregos serão concretamente substituídos pela AI? Funções administrativas em seguradoras, operadores de call center, copywriters, programadores ou caixas. Os casos da Coca-Cola e da Walmart mostram que a mudança vai muito mais fundo.

Se até CEOs assumem abertamente que já não conseguem acompanhar o compasso, isso sugere um mercado de trabalho em que a hierarquia protege pouco quando a tecnologia acelera. E o tipo de pressão muda: deixa de ser “o meu emprego vai desaparecer?” para passar a ser “consigo reinventar-me depressa o suficiente?”.

Isto não se limita aos EUA. Também em empresas do DAX, no segmento intermédio mais qualificado, em bancos, seguradoras ou fabricantes automóveis, cresce a percepção de que a AI não é apenas mais uma ferramenta: é uma alavanca estratégica que altera simultaneamente a lógica do negócio, o ambiente competitivo e o desenho das funções.

Como a liderança muda em tempos de AI

Do ponto de vista de RH e de governance, está a desenhar-se um novo perfil de exigências para administrações. De forma simples, podem distinguir-se três níveis:

Nível Foco anterior Foco orientado por AI
Estratégia quotas de mercado, expansão, programas de eficiência modelos de negócio AI-first, lógica de plataforma, uso de dados
Organização hierarquias, responsabilidades bem definidas squads interdisciplinares, prototipagem rápida, projectos-piloto
Liderança experiência, intuição, rede de contactos literacia de dados, capacidade de aprendizagem, apetência por risco tecnológico

Quem guia uma empresa nesta fase de transição tem de aprender continuamente, desaprender rotinas antigas e trabalhar com equipas que, em termos técnicos, muitas vezes já estão à frente da própria chefia. Nem todos os que brilharam no período analógico se sentem confortáveis neste enquadramento.

O que outras empresas podem aprender com a Coca-Cola e a Walmart

Os sinais emitidos por estes dois grupos também se destinam a conselhos de administração e accionistas em todo o mundo. O desafio é avaliar com frieza se a actual liderança é, de facto, a mais adequada para a reconversão com AI - ou se uma mudança antecipada e planeada cria mais valor do que uma saída tardia e forçada.

Ao mesmo tempo, vale a pena observar o aspecto cultural: Quincey e McMillon não tratam a saída como derrota, mas como uma passagem de testemunho deliberada. Isso pode reduzir a resistência, noutras empresas, a discutir atempadamente sucessão, modelos de co-liderança ou a inclusão de funções tecnológicas complementares na administração.

Para quem trabalha nas organizações, a mensagem também é inequívoca: quem se envolve com ferramentas de AI, demonstra disponibilidade para aprender e não se limita a “aguentar” a mudança - mas participa na sua construção - aumenta as probabilidades de prosperar, independentemente do nível hierárquico.

Riscos, oportunidades e um olhar realista sobre a AI

Importa deixar claro: a AI não resolve tudo. Os sistemas podem falhar, replicar padrões discriminatórios ou empurrar decisões de negócio para direcções arriscadas. Por isso, as empresas têm de criar estruturas em que a responsabilidade final continua do lado humano, mesmo quando as máquinas assumem grande parte do trabalho preparatório.

Por outro lado, as oportunidades são enormes: ofertas personalizadas, logística mais eficiente, desenvolvimento de produto mais rápido e previsões melhores. A Coca-Cola e a Walmart estão entre as empresas que reconheceram cedo este potencial. O facto de os seus CEOs saírem precisamente por causa disso assinala uma nova etapa: a AI já é suficientemente madura para terminar carreiras no topo - e, ao mesmo tempo, demasiado indispensável para que os próximos passos de crescimento possam acontecer sem ela.

Quem hoje tem responsabilidades sente esse peso. A questão já não é se a AI vai mudar o mercado de trabalho, mas sim quão abertamente gestores de todos os níveis lidam com os próprios limites - e se conseguem, a tempo, abrir espaço a pessoas capazes de viver com o novo ritmo.


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