Reservar online, pagar num instante e dar a viagem por fechada: para muita gente, é assim que começa a férias. Só que é precisamente esta rotina que os criminosos exploram. Criam clones digitais de plataformas conhecidas como Airbnb, Booking.com ou Expedia - e conseguem sacar milhares de euros a viajantes desprevenidos. O número de ocorrências está a aumentar a grande velocidade e as técnicas estão cada vez mais sofisticadas.
Portais de viagens falsos atacam marcas como Airbnb, Booking.com e Expedia
O método é simples e eficaz: copiar o design, o logótipo e a estrutura das páginas oficiais com tal nível de detalhe que, à primeira vista, até utilizadores experientes quase não distinguem o que é real do que é falso. Nestes sites fraudulentos surgem alegadas ofertas de voos, apartamentos de férias ou hotéis - muitas vezes com um desconto ligeiro, suficiente para parecer apetecível, mas não tão baixo que levante suspeitas imediatas.
Um caso que ganhou destaque em vários países europeus através da BBC mostra a dimensão do problema. Um casal britânico acreditou ter reservado, pela Expedia, uma viagem para a Índia. Transferiram cerca de 2.500 libras, perto de 2.900 euros. Só no aeroporto perceberam a verdade: a reserva simplesmente não existia. As mensagens de confirmação recebidas antes eram falsas. O “site” era uma cópia extremamente convincente do original.
Criminosos aproveitam a confiança nos grandes portais de viagens e escondem esquemas de burla por trás de cópias perfeitas das marcas mais conhecidas.
Nesse episódio, após a suposta reserva, as vítimas foram encaminhadas para um chat no WhatsApp, associado a uma conta com o nome “Fly Expedia”. No fim, o pagamento não seguiu o sistema normal e protegido do portal: foi feito por transferência bancária tradicional. Resultado: na maioria dos casos, o dinheiro desaparece - e as hipóteses de o recuperar são mínimas.
Estudo indica: milhares de viajantes afetados, prejuízos médios de 2.700 euros
Este tipo de burla já não é exceção. Uma sondagem de 2024 encomendada pela Airbnb ao instituto OpinionWay traça um cenário preocupante: quase metade dos inquiridos em França afirmou ter sido vítima deste esquema ou conhecer alguém próximo a quem tenha acontecido.
Em média, os prejuízos reportados rondam os 2.700 euros por caso. Há perdas que vão desde bilhetes de avião totalmente inutilizados até alojamentos de férias inventados - propriedades que, na prática, nem sequer existem. Segundo a Airbnb, entre março de 2023 e março de 2024 foram identificados e removidos mais de 2.500 sites falsos, após denúncias feitas por utilizadores.
Booking.com e ofertas da SNCF também entram no radar - fraude em viagens em alta
Não é só a Airbnb e a Expedia que são visadas. A organização de defesa do consumidor UFC-Que Choisir descreveu um aumento expressivo de tentativas semelhantes associadas à Booking.com, sobretudo durante o período dos Jogos Olímpicos em Paris. Nesse intervalo, os defensores do consumidor estimaram uma subida de cerca de 900 percent face ao ano anterior.
Além dos portais clonados, a abordagem tem-se deslocado parcialmente para mensagens direcionadas. Muitas vítimas recebem e-mails ou notificações que parecem vir diretamente da Booking.com: logótipos corretos, cores familiares e até números de reserva aparentemente coerentes. O texto costuma indicar que existe um problema com o pagamento e que a conta bancária deve ser atualizada “urgentemente”, sob pena de a reserva ser cancelada.
Ao clicar no link, o viajante é levado para uma página falsa onde é pedido que introduza dados do cartão ou informações de banca online. Quem fornece esses dados, regra geral, dá aos burlões acesso direto à conta.
A própria SNCF (ferrovia francesa) também é alvo de cópias. Há páginas fraudulentas a vender cartões de desconto bem abaixo do valor oficial ou a promover supostos bilhetes especiais. O aspeto é profissional, os preços parecem irresistíveis e muitos só descobrem o engano ao entrar no comboio - ou numa inspeção - quando o bilhete “comprado” não aparece no sistema.
Como funcionam os esquemas mais comuns dos burlões nas férias
Os padrões repetem-se e, ainda assim, funcionam assustadoramente bem no dia a dia. Entre as táticas mais usadas estão:
- Portais falsos com endereço ligeiramente alterado - letras trocadas, hífenes extra ou terminações de domínio pouco habituais.
- Anúncios em motores de busca - os burlões compram publicidade e fazem com que as páginas falsas apareçam no topo dos resultados.
- E-mails de phishing - mensagens muito credíveis com links para páginas falsas de login ou pagamento.
- Mudança do contacto para apps de mensagens - depois da primeira “reserva”, a conversa passa subitamente para WhatsApp ou serviços semelhantes.
- Pedido de pagamento por transferência - em vez de meios seguros, insistem num bank transfer, por vezes para contas no estrangeiro.
Um ingrediente-chave é a pressão do tempo: “Pague dentro de 24 horas, caso contrário a oferta expira” é uma formulação típica. Com stress, muita gente deixa de confirmar pormenores básicos - e é aí que a burla ganha terreno.
Como distinguir páginas verdadeiras e pagamentos seguros
Quem reserva online consegue reduzir bastante o risco com hábitos simples. A regra principal é não clicar automaticamente em qualquer link relacionado com uma reserva em curso.
Pontos práticos para verificar antes de pagar:
| Ponto a verificar | Sinais de burla |
|---|---|
| Endereço do site (URL) | Erros ortográficos, palavras a mais, terminações de domínio estranhas, ausência de “https” |
| Forma de pagamento | Só aceitam transferência, não existe método conhecido como cartão de crédito, PayPal ou checkout do próprio portal |
| Comunicação | Mudança para WhatsApp ou SMS, números pouco habituais, muitos erros de escrita |
| Preço | Excessivamente barato face a opções semelhantes na mesma zona e época |
| Fotografias e descrição | Imagens de banco (stock), fotos iguais em vários anúncios, texto demasiado genérico |
Reservas legítimas são concluídas nas páginas ou apps oficiais, com pagamento integrado - nunca por transferência privada “a pedido”.
A Expedia chama a atenção para este ponto: as transações autênticas são feitas exclusivamente através do seu site ou da aplicação oficial. Em termos gerais, o mesmo princípio aplica-se a outros grandes portais.
Dicas práticas de proteção para a próxima reserva
Para não cair em sites clonados, ajuda criar rotinas fixas. Um bom passo é guardar, nos favoritos do browser, os endereços dos principais portais de viagens e aceder sempre por aí - em vez de entrar por anúncios em motores de busca.
Medidas úteis incluem:
- Confirmar manualmente o endereço: antes de qualquer pagamento, observar a URL com atenção; se necessário, escrever o nome do fornecedor diretamente.
- Evitar links em e-mails: se pedirem validação de pagamento, confirmar primeiro na app ou na área de cliente.
- Reverse Image Search: com ferramentas como o Google Lens, verificar se as imagens do alojamento aparecem repetidas noutros sites - um sinal clássico de fraude.
- Desconfiar de contacto via messenger: fornecedores credíveis, em regra, não negociam pagamentos por chat.
- Usar cartão de crédito ou serviços com proteção ao comprador: algumas soluções oferecem maior capacidade de contestação do que uma simples transferência.
Se já pagou e começa a desconfiar, o mais importante é contactar imediatamente o seu banco e explicar a situação. Estornos não são garantidos, mas quanto mais cedo o banco for informado, maior a possibilidade de limitar o prejuízo - ou pelo menos de o registar. Em paralelo, faz sentido apresentar queixa na polícia, para que padrões sejam identificados e páginas falsas possam ser bloqueadas mais depressa.
Porque é que as páginas de burla parecem tão credíveis - e o que os profissionais detetam
Muitos grupos criminosos investem tempo e dinheiro para parecerem legítimos. Usam logótipos originais, replicam textos, recorrem a traduções com aspeto profissional e constroem sites tecnicamente “limpos”. Para quem não está atento, o resultado transmite confiança logo ao primeiro olhar.
Especialistas em segurança informática olham para outros sinais: dados de registo do domínio pouco usuais, alojamento em países com regulamentação mais permissiva, sites registados há muito pouco tempo ou estruturas repetidas em várias páginas fraudulentas. Estes indícios nem sempre são fáceis de notar para o utilizador comum. Por isso, continuar a validar cuidadosamente a URL e o método de pagamento é a linha de defesa mais eficaz.
Há ainda um padrão de comportamento: os burlões raramente mantêm conversas longas. Normalmente procuram obter o pagamento depressa, antes de o cliente começar a fazer perguntas difíceis. Se as respostas forem vagas, se evitarem detalhes repetidamente ou se a pressão aumentar, é motivo para cautela - sobretudo quando estão em causa valores elevados.
O que saber antes da época alta
Quando começam as férias, não sobe apenas o volume de reservas; aumenta também a atividade dos burlões. Eles contam com a ansiedade típica de quem está prestes a viajar: com medo de perder a viagem tão desejada, muita gente reage de forma impulsiva.
Uma estratégia útil é manter toda a documentação bem organizada: confirmações de reserva, e-mails originais do portal e comprovativos de pagamento. Com tudo estruturado, torna-se mais fácil identificar uma mensagem “extra” que surge de repente e que não bate certo no tom ou no formato. Em caso de dúvida, o melhor é ligar para o apoio ao cliente oficial - usando o número indicado no site verdadeiro, e não um contacto vindo numa mensagem suspeita.
Reservar viagens online continua a ser cómodo e eficiente, mas hoje exige mais atenção do que há alguns anos. Quem adota alguns rituais de segurança reduz o risco de perder dinheiro - e evita o pesadelo de chegar ao aeroporto com as malas feitas e descobrir que, afinal, essa viagem nunca existiu.
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