Uma análise recente da Agência Europeia do Ambiente (AEE) mostra até que ponto as alterações climáticas estão a revalorizar - e a desvalorizar - os solos agrícolas na Europa. Enquanto, no futuro, vários países do Norte poderão contar com preços mais altos por hectare, muitas zonas do Sul da Europa - e uma parte significativa de França - enfrentam perdas de valor que podem chegar a 60% ou mais.
Como as alterações climáticas redistribuem o valor das terras aráveis (AEE)
A AEE simulou um cenário até ao ano 2100 que não inclui apenas temperatura e precipitação: também incorpora evolução demográfica, economia e padrões de utilização agrícola. A base são projecções do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), que apontam para uma Europa consideravelmente mais quente e, em muitas regiões, mais seca.
A conclusão central do estudo é particularmente sensível: até 2100, cerca de 60% das superfícies agrícolas europeias perdem valor. Ao mesmo tempo, os impactos variam muito de região para região e podem alterar profundamente o equilíbrio tradicional das grandes potências agrícolas do continente.
“A AEE prevê que o centro de gravidade agrícola da Europa se desloque gradualmente para Norte.”
Por detrás destas mudanças de valor estão factores concretos: secas mais frequentes, alterações na duração das épocas de crescimento, escassez de água, novas pragas, mas também melhores condições em áreas que hoje são penalizadas pelo clima.
A zona vencedora: Escandinávia e Ilhas Britânicas
Os mapas da AEE evidenciam um padrão claro: o extremo Norte da Europa e os países insulares a noroeste beneficiam de um clima mais ameno.
- Suécia
- Dinamarca
- Finlândia
- Irlanda
- Reino Unido
Na Suécia, o valor das terras agrícolas poderá aumentar 60% - ou até mais. Regiões que, até agora, eram demasiado frias passam a ter épocas de crescimento mais longas, e novas culturas tornam-se economicamente interessantes.
A AEE também antevê subidas entre 40% e 60% na Dinamarca, no Norte do Reino Unido e em partes da Finlândia, Eslováquia e Hungria. O motivo é um clima globalmente mais suave e, para muitas plantas, mais favorável.
Já no Sul do Reino Unido, no Norte da Alemanha e nos Países Baixos, os ganhos previstos são mais moderados. Em geral, as estimativas situam-se entre 0% e 20%, podendo chegar, localmente, a 40%. Nestas áreas, o clima também muda, mas a terra já é hoje relativamente bem aproveitada - e, por isso, a margem de melhoria é menor.
Os perdedores: Sul da Europa e grande parte de França
A perspectiva torna-se bastante mais sombria no Sul do continente. Itália, Espanha, Portugal, França e Grécia surgem, segundo a AEE, entre os principais perdedores. Já hoje lidam com ondas de calor, escassez de água e eventos extremos intensos - e estes problemas tendem a agravar-se.
“Em Itália, segundo a AEE, está em risco a maior desvalorização acumulada de terras agrícolas: cerca de menos 100 mil milhões de euros - uma queda de aproximadamente 60%.”
Em especial no Sul de Espanha, as projecções são dramáticas: o valor das terras aráveis poderá cair mais de 80%. Números desta ordem não significam apenas preços mais baixos por hectare; traduzem-se também num risco mais elevado de falência para explorações agrícolas e na perda de ramos inteiros de produção em determinadas regiões.
França, exemplo de um país agrícola dividido
França ilustra bem como as alterações climáticas podem “puxar” a geografia agrícola de um país em direcções opostas. Com terras agrícolas distribuídas por várias zonas climáticas, as perdas esperadas diferem bastante consoante a região.
Grande Sul sob pressão
Uma das áreas mais afectadas será um grande quadrante sudoeste na parte central do país. Aí, os especialistas estimam, até 2100, desvalorizações entre 60% e 80%. Estão em causa zonas relevantes para fruta, hortícolas e vinho, incluindo áreas como a Nova Aquitânia (Nouvelle-Aquitaine) e a Occitânia.
Também partes de departamentos ao longo do Mediterrâneo poderão perder atratividade de forma semelhante. Calor, seca, desgaste do solo e necessidade crescente de rega tornam, ali, culturas tradicionais progressivamente menos rentáveis.
Centro e Leste com perdas significativas
No centro de França, no Leste e em torno da região da capital, as perdas previstas situam-se, na maioria dos casos, entre 40% e 60%. Apesar de continuarem tendencialmente produtivas, estas zonas terão de conviver com quebras de rendimento, custos mais altos e maior volatilidade.
No Noroeste e no Nordeste, as perdas são um pouco menores, com previsões de 20% a 40%. Já no extremo Norte e na ponta da Bretanha, a redução esperada fica num intervalo de 0% a 20% - um desfecho que, no contexto europeu, quase pode ser considerado um alívio.
O que explica estes números
As variações no valor das terras aráveis resultam de uma combinação de vários factores:
- Expectativa de rendimento: quão elevadas e estáveis serão as colheitas no futuro?
- Custos: quanto custarão a rega, a protecção fitossanitária e as medidas de adaptação?
- Risco: com que frequência ocorrerão extremos como seca, chuva intensa ou tempestades?
- Acesso ao mercado: quão boa é a infra-estrutura e a proximidade a mercados de escoamento?
Quando custos e riscos sobem, a disponibilidade para pagar por hectare tende a descer. No Norte, observa-se frequentemente o inverso: com condições climáticas melhores, aumenta a perspectiva de rendimento a longo prazo e, com isso, cresce o valor económico do solo.
Deslocação das zonas clássicas de cultivo
Uma consequência essencial é que muitas culturas hoje associadas ao Sul da Europa tendem a deslocar-se para Norte ao longo do século. Aquilo que actualmente prospera no Sul de França, no Norte de Itália ou em Espanha pode, dentro de algumas décadas, adaptar-se ao Norte de França, ao Benelux, à Alemanha ou mesmo ao Sul da Escandinávia.
“O mapa da AEE sugere que a viticultura e as culturas de fruta e hortícolas na Europa vão entrar em movimento - com todas as consequências económicas e culturais.”
Perante este cenário, viticultores e fruticultores das regiões meridionais ficam perante uma escolha difícil: ou apostam em técnicas de adaptação dispendiosas - como rega, variedades resistentes ao calor e gestão do solo -, ou ajustam o foco a médio e longo prazo, mudando para outras culturas.
Estratégias de adaptação que ganham peso a partir de agora
Para travar a desvalorização, explorações agrícolas e decisores políticos estão a actuar em diferentes frentes. Algumas medidas são vistas como particularmente promissoras:
- Mudança de culturas: transição para variedades que tolerem melhor calor e seca.
- Gestão da rega: sistemas eficientes, armazenamento de água do inverno, utilização de retenção de águas pluviais.
- Protecção do solo: mais matéria orgânica, menos erosão, culturas de cobertura, sistemas agroflorestais.
- Sombreamento: faixas de árvores, sebes e agrofloresta para arrefecer as parcelas.
- Tecnologia: agricultura de precisão, sensores e análise de dados para optimizar água e fertilização.
Nenhuma destas medidas reduz a temperatura. Ainda assim, pode ser determinante para evitar que uma região deixe completamente de ser viável do ponto de vista económico - ou, pelo menos, para manter uma produção reduzida, mas mais estável.
O que a “desvalorização” significa, na prática, para os agricultores
Uma queda percentual pode parecer abstrata, mas, para as explorações agrícolas, tem efeitos muito concretos:
- Os terrenos tornam-se mais difíceis de usar como garantia; o crédito encarece ou deixa de ser concedido.
- A sucessão familiar passa a envolver mais risco, porque a exploração vale menos como poupança para a reforma.
- O retorno de investimentos em tecnologia ou edifícios torna-se menos provável.
- Menos jovens entram na profissão, e encontrar sucessores torna-se um desafio acrescido para muitas explorações.
Com riscos meteorológicos em alta, isto pode desencadear, em algumas áreas, uma espiral descendente: valor do solo a cair, menos investimento e competitividade em deterioração.
Porque a valorização a Norte não é automaticamente um final feliz
O facto de a Escandinávia e outras partes do Norte se tornarem, no futuro, mais atractivas para a agricultura pode soar a boa notícia. Contudo, o cenário é mais complexo. Em muitas zonas setentrionais, os solos são frequentemente pouco profundos e, por vezes, pedregosos ou turfosos. Isso implica investimentos elevados em infra-estruturas, rega e capacidade de armazenamento.
Somam-se ainda questões ecológicas: a abertura de novas áreas pode ocorrer à custa de turfeiras, florestas ou ecossistemas sensíveis. Quando, por exemplo, turfeiras são drenadas, as emissões de gases com efeito de estufa aumentam - um efeito de retorno que prejudica a própria protecção do clima.
Termos essenciais, explicados de forma breve
Valor das terras aráveis: em geral, refere-se ao preço de mercado que compradores estão dispostos a pagar por hectare. Esse valor reflecte expectativas sobre rendimentos futuros, custos, risco e possibilidades de utilização.
Cenário climático: é uma hipótese modelada sobre como podem evoluir temperaturas, precipitação e outros factores sob determinadas trajectórias globais. A AEE recorre a cenários que combinam crescimento económico, população mundial e emissões.
Adaptação na agricultura: inclui todas as estratégias que permitem às explorações responder a novas condições climáticas - desde alterações nas datas de sementeira e escolha de variedades até sistemas totalmente novos, como agrofloresta ou redes cooperativas de rega.
Para agricultores, investidores e decisores políticos na Europa, há muito que a questão já não é se o valor das terras aráveis se vai deslocar, mas sim com que rapidez - e quem estará preparado quando esta nova geografia agrícola se tornar realidade.
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