Um veleiro, uma ventosa de alta tecnologia e um gigante de 70 toneladas: no Mediterrâneo, investigadores conseguem uma experiência que pode alterar a forma como as baleias são protegidas.
Uma equipa de biólogos marinhos e fisiologistas do centro de investigação francês CNRS e da organização ambiental WWF conseguiu aquilo que a ciência vem tentando obter há anos: pela primeira vez, foi registado o eletrocardiograma de um rorqual-comum em liberdade, no seu habitat natural. Por trás deste dado, aparentemente técnico, está um marco para a conservação de uma espécie ameaçada.
Porque é que o batimento cardíaco de uma baleia é tão importante
Os rorquais-comuns estão entre os maiores seres vivos do planeta. Um adulto pode atingir 20 metros de comprimento, pesar cerca de 70 toneladas - e o seu coração é do tamanho de um automóvel pequeno, com um peso entre 100 e 300 quilogramas. Ainda assim, até agora a investigação sabia surpreendentemente pouco sobre o funcionamento deste órgão em situações normais, quando a baleia caça, descansa, mergulha ou é exposta ao ruído dos navios.
Os investigadores querem medir o stress dos animais diretamente no corpo - e não apenas observá-lo à distância.
Normalmente, os estudos sobre baleias baseiam-se em fotografias, observação de comportamento e gravações sonoras. Isso permite perceber onde os animais estão e como se comportam, mas diz pouco sobre o grau de pressão interna a que estão sujeitos. É precisamente aí que entra o projeto do CNRS e do WWF: a frequência cardíaca passa a servir como indicador biológico de stress.
Quatro anos de trabalho para obter apenas algumas horas de dados
O sucesso agora divulgado não surgiu de um dia para o outro. A equipa trabalhou durante cerca de quatro anos na metodologia e acumulou várias tentativas falhadas em missões ao largo de Madagáscar e do Havai. A tecnologia tinha de resistir à água salgada, à pressão, à velocidade e a um animal que passa a maior parte da vida abaixo da superfície.
Numa operação de vários dias, em agosto de 2025, no Mediterrâneo, o objetivo acabou por ser cumprido. A bordo do veleiro “Blue Panda”, utilizado em campanhas de proteção de baleias, foi feita a primeira gravação completa de um eletrocardiograma num rorqual-comum em nado livre.
A tecnologia por trás do “truque” do batimento cardíaco
O elemento central do sistema é uma chamada boia com ventosas instrumentada. À primeira vista parece simples, mas reúne várias funções ao mesmo tempo:
- sensores de eletrocardiograma para medir a atividade elétrica do coração
- sensores de movimento, que registam aceleração e posição do corpo
- hidrofones para captar sons subaquáticos
- dados GPS e outros dados de localização para seguir a rota
- uma unidade interna de armazenamento, que guarda toda a informação
A boia é fixada na extremidade de uma haste com cerca de quatro a cinco metros de comprimento. A partir do barco, os investigadores tentam colocá-la no dorso da baleia no momento certo, quando o animal vem à superfície para respirar. As ventosas fazem com que o bloco sensor permaneça preso até oito horas e depois se desprenda sozinho, flutuando até ser recuperado, permitindo recolher os dados.
Cada tentativa de colocação é um equilíbrio de segundos - com o mar em movimento e um animal que, em instantes, volta a mergulhar.
O que o batimento cardíaco da baleia revelou
As primeiras análises mostram de forma muito clara até que ponto o corpo de um rorqual-comum muda de modo entre repouso, mergulho profundo e regresso à superfície.
Bradicardia durante a descida
Quando a baleia desce a grandes profundidades, o seu ritmo cardíaco abranda de forma acentuada. As medições mostraram:
| Situação | Frequência cardíaca (batimentos por minuto) |
|---|---|
| Fase profunda de mergulho | cerca de 5 |
| profundidade intermédia | até cerca de 8 |
| regresso à superfície | até cerca de 25 |
Esta chamada bradicardia de mergulho é uma estratégia conhecida dos mamíferos marinhos para poupar oxigénio. Ao bater mais devagar, o coração bombeia menos sangue pelo organismo e o corpo entra numa espécie de modo de economia.
Resposta tardia aos navios
A análise combinada da atividade cardíaca, dos dados de movimento e da posição trouxe ainda uma conclusão inquietante: os animais estudados parecem alterar o rumo apenas muito tarde quando os navios se aproximam. Em vez de se afastarem com antecedência e de forma ampla, reagem mais em cima do momento.
Segundo estimativas do WWF, o tráfego marítimo aumenta no Mediterrâneo a mortalidade dos rorquais-comuns em cerca de 20 por cento.
A nova técnica de medição deverá ajudar a perceber melhor a que distância e com que nível de ruído o stress no corpo dos animais começa a aumentar de forma mensurável - e em que momento o seu comportamento se torna perigoso.
Porque é que a experiência foi tão difícil
À primeira vista, o método parece simples: colocar a ventosa, recolher os dados e terminar. Na prática, os investigadores tiveram de superar vários obstáculos de peso:
- estima-se que os rorquais-comuns passem cerca de 90 por cento do tempo debaixo de água
- ondas fortes, vento e visibilidade variável dificultam a deteção dos animais
- a zona do tórax, perto do coração, é praticamente inacessível, por isso o sensor tem de ser preso no dorso - mais longe do coração
- a pressão da água e a velocidade da baleia atuam continuamente sobre as ventosas
- se a boia se perder, desaparecem todos os dados
Além disso, os animais do Mediterrâneo são relativamente esquivos, a população é pequena e os avistamentos são raros. A equipa teve de planear várias missões nas quais, no fim, não foi registado qualquer sinal utilizável.
Gigante ameaçado do Mediterrâneo
O rorqual-comum é considerado o segundo maior mamífero do mundo, logo a seguir à baleia-azul. No Mediterrâneo, a espécie está especialmente vulnerável. As estimativas apontam para cerca de 2000 animais neste mar fechado, com uma tendência de descida desde os anos 1980.
Vários fatores de risco atuam ao mesmo tempo:
- Colisões com navios: principal causa de morte, sobretudo ao longo de rotas com muito tráfego.
- Poluição sonora: ruído de motores, sonar e obras interfere com a comunicação e a orientação.
- Substâncias poluentes: a contaminação química pode acumular-se no tecido adiposo e enfraquecer o sistema imunitário.
- Alterações climáticas: mudam as correntes oceânicas e a disponibilidade de presas como o krill.
- Queda na disponibilidade de alimento: a sobrepesca e o aquecimento podem deslocar as cadeias alimentares.
A nova medição cardíaca deverá mostrar até que ponto todos estes fatores estão, de facto, a sobrecarregar o corpo dos animais.
O que estes dados poderão mudar no futuro
Os investigadores consideram que o primeiro eletrocardiograma bem-sucedido é apenas o ponto de partida. O objetivo é criar um conjunto de ferramentas que permita registar de forma padronizada a resposta fisiológica das baleias em diferentes contextos. A partir daí, podem nascer medidas muito concretas:
- ajuste de rotas marítimas em áreas particularmente sensíveis
- limites de velocidade para cargueiros e ferries quando houver baleias presentes
- zonas de interdição temporária para determinadas fontes de ruído
- avaliação de novos projetos no mar com base nas respostas de stress medidas
No melhor cenário, será possível definir valores de referência: a partir de que nível de ruído ou de que velocidade de aproximação os animais mostram sinais claros de stress que podem, a longo prazo, comprometer a saúde?
Como funcionam os eletrocardiogramas em mamíferos marinhos
Um eletrocardiograma é, no fundo, a medição dos sinais elétricos que comandam o músculo cardíaco. Nos seres humanos, usam-se eletrodos colados à pele. Numa baleia, esses eletrodos têm de ficar dentro de uma caixa estanque, presa apenas pela sucção das ventosas à superfície da pele.
Os sinais são fracos, a água conduz eletricidade e cada movimento do animal gera interferências. Por isso, os investigadores precisam de métodos de filtragem muito sofisticados para retirar o batimento real do ruído de fundo. Quanto mais longe do coração estiverem os eletrodos, mais difícil se torna essa tarefa.
Mais proteção com melhores dados
Para os amantes das baleias, um “filme do coração” de um mamífero marinho pode parecer, à primeira vista, uma curiosidade técnica. Mas, para a proteção destes animais, pode tornar-se um argumento decisivo. Se for possível demonstrar que determinados corredores marítimos provocam stress mensurável, cresce a pressão para alterar essas rotas.
O projeto no Mediterrâneo pode também servir de modelo para outras regiões, como a Islândia, a Antártida ou a costa do Canadá, onde grandes populações de baleias convivem com tráfego intenso. Com cada novo conjunto de dados, alarga-se o campo de comparação: será que as baleias em zonas ruidosas reagem de forma diferente das que vivem em áreas mais calmas? Recuperam depressa depois de um episódio perturbador ou o pulso permanece elevado durante mais tempo?
Conhecer o batimento cardíaco de um rorqual-comum ajuda a compreender melhor a sua vulnerabilidade - e a planear medidas de proteção com mais precisão, em vez de se esperar apenas pela próxima baleia morta numa hélice de navio.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário