Há quase 80 anos, investigadores dos EUA lançaram ao mar, ao largo das Bermudas, um equipamento de gravação bastante simples - sem suspeitarem que estavam a preservar um verdadeiro tesouro acústico. Décadas depois, essa faixa sonora reaparece e oferece um vislumbre raro de um oceano ainda pouco marcado por tráfego marítimo, ruído militar e exploração industrial.
Uma baleia chama-nos a partir do passado
A gravação pertence a uma fêmea de baleia-jubarte que cantou em março de 1949 perto das Bermudas. Curiosamente, o registo não foi feito por especialistas em cetáceos, mas por cientistas que tinham outro objectivo: testar sistemas de sonar para a Marinha dos EUA. Ao ouvirem sons invulgares, desligaram os motores do navio - e deixaram o ditafone modificado a gravar.
Na época, quase ninguém imaginava que as baleias-jubarte produziam canções complexas, capazes de se desenvolver ao longo de minutos ou mesmo horas. Só cerca de 20 anos mais tarde investigadores como Roger Payne tornaram os cantos de baleia mundialmente conhecidos e ajudaram a lançar bases para a conservação marinha moderna. Por isso, esta gravação agora redescoberta é significativamente mais antiga do que quaisquer referências disponíveis até aqui.
"Uma única canção de 1949 transforma-se numa janela temporal para um oceano quase silencioso - antes de o tráfego marítimo global inundar acusticamente o mar."
Para a equipa da reputada Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), o achado funciona como uma cápsula do tempo sonora. Permite comparar a paisagem acústica de então com a realidade actual, dominada por actividades humanas no meio subaquático.
Plástico em vez de fita: porque é que a gravação sobreviveu
Há ainda um pormenor que torna esta história pouco comum: o canto não ficou numa fita magnética tradicional, mas num disco de plástico de um ditafone que os investigadores adaptaram tecnicamente. As fitas magnéticas dessa era tendem a degradar-se ao fim de algumas décadas. Já o plástico rígido manteve-se suficientemente estável para conservar o som com uma qualidade surpreendente.
Visto de hoje, a escolha do suporte foi um golpe de sorte. Se o canto da baleia tivesse sido guardado numa bobina de fita normal, provavelmente já estaria inutilizável. Assim, especialistas conseguem digitalizá-lo, aplicar filtros e analisá-lo com grande detalhe.
O que os investigadores procuram nesta canção antiga de baleia
A equipa quer extrair da gravação muito mais do que “sons bonitos”. Entre as questões principais estão:
- Intensidade: com que força cantou a fêmea de baleia-jubarte num oceano claramente mais silencioso?
- Altura (tom): que frequências utilizou antes de o ruído dos motores ocupar sobretudo as faixas mais graves?
- Estrutura: já se distinguem padrões típicos das canções modernas das baleias-jubarte?
- Ruído de fundo: quão “quieto” era, na prática, o oceano por volta de 1949?
A comparação com gravações actuais em zonas marítimas muito movimentadas deverá indicar até que ponto as baleias ajustaram o seu comportamento a um ambiente acústico transformado.
Oceano de então e oceano de hoje: uma diferença enorme no ruído
Na década de 1940 cruzavam o Atlântico muito menos cargueiros, petroleiros e navios de cruzeiro. Também os ensaios militares com sonar e as prospecções sísmicas ligadas à procura de recursos estavam ainda numa fase inicial. O mar era acusticamente mais “transparente” - e os chamamentos das baleias podiam propagar-se por centenas de quilómetros.
Hoje, o cenário é outro: motores, hélices, plataformas de perfuração e estruturas subaquáticas criam um nível de ruído quase permanente, particularmente em frequências graves. E é precisamente nessas frequências que muitas espécies de grandes baleias “conversam” entre si.
"As baleias-jubarte modernas cantam sobre o ruído de fundo humano - o achado de 1949 recorda como, outrora, as suas vozes eram ouvidas com clareza."
Vários estudos já sugerem que algumas populações de baleias alteraram a sua estratégia:
- chamam mais alto para se fazerem ouvir no meio do tráfego;
- deslocam as canções para tons mais agudos, onde o ruído dos motores é menor;
- recorrem sobretudo a períodos mais tranquilos do dia, como a noite, para as vocalizações mais complexas.
A gravação histórica poderá ajudar a demonstrar qual era o intervalo de frequências “natural” e até que ponto os animais se afastaram dele ao longo do tempo.
O que a canção antiga revela sobre comunicação
As baleias-jubarte são famosas pelas suas canções elaboradas. Durante a época de acasalamento, os machos usam-nas, ao que tudo indica, para atrair fêmeas e impressionar rivais. As melodias seguem padrões que se alteram ligeiramente ao longo de uma época. Em certas regiões, novas “modas” musicais passam de uma população para outra - quase como tendências.
O registo de 1949 pode dar pistas sobre o nível de desenvolvimento dessa cultura musical já naquela altura. A canção apresentava a estrutura típica em estrofes? Surgem motivos que lembram os cantos actuais? Ou a melodia soa mais simples e menos trabalhada?
Estes pormenores não servem apenas para compreender a evolução das canções. Também mostram o peso da aprendizagem e da transmissão social nos mamíferos marinhos. Para biólogos, é uma peça importante no debate sobre se, no caso das baleias, se pode falar de uma forma de “cultura”.
Porque é que o ruído stressa os animais mais do que muitos imaginam
Debaixo de água, o ruído comporta-se de forma diferente do que no ar. No mar, o som propaga-se mais depressa e alcança distâncias maiores. Baleias, golfinhos e muitos peixes dependem dos sons para se orientar, localizar presas, encontrar parceiros e evitar perigos.
Um fundo sonoro contínuo e intenso pode:
- interferir na comunicação entre mães e crias,
- alterar rotas migratórias quando certas passagens se tornam demasiado ruidosas,
- gerar stress com efeitos na saúde e na reprodução.
O pano de fundo silencioso de 1949 funciona como um valor de referência: é assim que “soa” um oceano em que as baleias tinham condições óptimas para projectar os seus chamamentos. Em comparação, os actuais pontos críticos de ruído subaquático podem ser avaliados com maior rigor.
Que impacto este achado pode ter na protecção dos mares
Para a conservação marinha, esta viagem no tempo chega em boa altura. Organismos internacionais debatem formas de limitar o ruído associado a rotas de navegação, projectos offshore e manobras militares. Até agora, muitas decisões apoiam-se em modelos e em dados relativamente recentes.
Com o registo de 1949, especialistas passam a dispor de uma base histórica de comparação. Ela evidencia a dimensão do aumento do ruído desde meados do século XX. A partir daí, podem definir-se limites mais exigentes para projectos futuros, por exemplo em:
- planeamento de novos corredores de navegação,
- limites de velocidade para cargueiros em áreas sensíveis,
- períodos de “descanso” temporário durante épocas de reprodução e acasalamento.
À primeira vista, estas medidas parecem técnicas e pouco apelativas. Para baleias e outros animais marinhos, porém, determinam se conseguem continuar a trocar chamamentos a longas distâncias - ou se acabam abafados no barulho das hélices.
Como os investigadores tornam úteis os sons históricos
Gravações subaquáticas antigas são raras. Muitos aparelhos usados nos primórdios da investigação acústica ficaram esquecidos em arquivos, caixas ou sótãos. Só com as técnicas digitais modernas é que o esforço de restaurar esses materiais passou a compensar.
Este achado ilustra o potencial escondido nessas faixas. Em arquivos da Marinha, de instituições científicas ou até de rádios, podem existir outros registos desconhecidos: chamamentos de baleias, explosões subaquáticas antigas, ruídos de navios de épocas passadas. Cada fragmento ajuda a reconstruir como o som do oceano se transformou.
Para quem não é da área, tudo isto pode parecer demasiado técnico. Na prática, significa o seguinte: mesmo quem navega hoje num veleiro silencioso capta apenas uma pequena parte do que acontece abaixo da superfície. Para baleias e outros animais marinhos, o oceano é uma paisagem acústica repleta de sinais, ameaças e contactos. Quanto melhor a comunidade científica compreender esse ambiente sonoro, mais precisamente poderá definir áreas de protecção e regras eficazes.
O canto de baleia de 1949 é, assim, mais do que uma curiosidade resgatada do passado. Lembra-nos como os mares foram, em tempos, silenciosos - e quanto ruído a actividade humana acrescentou num intervalo curto. Para a ciência, é um instrumento raro para quantificar essa mudança. Para a protecção dos animais, oferece um argumento que se pode, literalmente, ouvir.
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