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Cerrado: zonas húmidas escondidas que guardam carbono e influenciam o clima global

Cientista com bata branca analisa amostra de solo junto a lagoa, com equipamento e caderno no chão.

Grandes extensões da savana brasileira do Cerrado parecem, à primeira vista, pouco impressionantes: gramíneas, alguns arbustos dispersos, umas palmeiras aqui e ali. Mas, debaixo da superfície, desenrola-se um enredo climático com impacto global. Investigações recentes indicam que as zonas húmidas desta região podem ser quase tão determinantes para o clima do planeta como a célebre faixa de floresta tropical mais a norte - apesar de continuarem muito menos protegidas.

Capital climático escondido no solo do Cerrado

Quando se fala em grandes reservatórios de carbono, a associação imediata costuma ser a floresta tropical. Já o Cerrado, que ocupa cerca de um quarto do território do Brasil, raramente entra nesta equação. Uma nova investigação conduzida por equipas de investigação do Brasil e dos EUA veio corrigir essa imagem.

Para isso, foram recolhidos testemunhos de solo profundos em sete locais, nalguns casos até quatro metros de profundidade. Este tipo de amostragem é trabalhoso e, por isso, pouco frequente a essas profundidades. Muitas estimativas baseiam-se apenas nas camadas superficiais do solo ou em dados de satélite. O levantamento detalhado agora realizado aponta para uma escala de armazenamento muito diferente.

Em certas zonas húmidas do Cerrado, o solo guarda, em média, cerca de 1.200 toneladas de carbono por hectare - aproximadamente seis vezes mais do que a vegetação da floresta amazónica armazena.

Ao somar todas as zonas húmidas deste sistema de savana, chega-se a um stock de carbono que ronda, de forma aproximada, 20 percent do armazenamento conhecido na Amazónia. Até aqui, estes valores quase não aparecem nas balanços climáticos oficiais do Brasil. Para modelos climáticos e para a política climática internacional, a implicação é clara: faltava uma peça inteira do puzzle nos cálculos.

Porque é que a savana pode armazenar mais do que a floresta

Os resultados também mostram como é enganador olhar apenas para as árvores. A savana é frequentemente vista como algo “mais leve”, menos denso do que uma floresta tropical fechada. No entanto, no Cerrado, uma parte substancial do potencial climático está deslocada para o subsolo. A vegetação resistente, com raízes profundas, e o fornecimento constante de matéria vegetal alimentam os reservatórios subterrâneos ao longo de milénios.

Isto altera as prioridades da conservação. Se as políticas protegerem apenas florestas visualmente exuberantes, podem deixar de fora áreas discretas, mas extremamente ricas em carbono - o que pode ter consequências graves para as metas globais de temperatura.

Como a água e o oxigénio determinam o efeito climático

A razão para este enorme armazém de carbono está nas condições específicas de solo e água. Muitas destas áreas estão saturadas por águas subterrâneas ou situam-se em depressões naturais. São frequentes as veredas - corredores húmidos e alongados em vales, que acompanham pequenos cursos de água ou nascentes e, muitas vezes, são marcados por conjuntos de palmeiras.

Durante grande parte do ano, há falta de oxigénio no solo. Nestas condições, os microrganismos que decompõem a matéria orgânica funcionam muito lentamente. Em vez de se degradarem por completo, os restos vegetais acumulam-se em camadas ao longo de séculos e milhares de anos, de modo semelhante ao que acontece em turfeiras e outros ambientes de turfa.

Enquanto o solo permanecer encharcado, o carbono fica em grande medida retido - como num cofre natural.

Quando este equilíbrio se quebra, o sistema muda de comportamento. Se houver drenagem ou secagem mais frequente, entra muito mais oxigénio. Os microrganismos aceleram, a decomposição da matéria orgânica intensifica-se e grandes quantidades de dióxido de carbono podem ser libertadas num intervalo relativamente curto.

Zonas húmidas como arquivo do clima e da paisagem

Estes solos não funcionam apenas como depósito; são também um arquivo. Nas camadas ficam preservados pólen, restos de plantas e cinzas de incêndios antigos. A partir desses vestígios, as equipas científicas conseguem reconstruir a evolução do clima, da vegetação e do regime de fogos no Cerrado ao longo de milénios. Cada intervenção de drenagem não elimina só um reservatório de carbono - apaga também arquivos climáticos valiosos.

O Cerrado como “central” de água de um continente inteiro

O Cerrado estende-se por mais de dois milhões de quilómetros quadrados. Nesta imensa savana nascem numerosos rios. Cerca de dois terços dos grandes sistemas fluviais do Brasil têm aqui a sua origem - incluindo afluentes importantes do Amazonas.

Olhar para o Cerrado é, por isso, olhar indiretamente para o abastecimento de água de regiões distantes. As zonas húmidas e os solos ajudam a regular caudais, a filtrar a água, a recarregar aquíferos e a amortecer períodos de seca.

Sem a savana do Cerrado, muitos rios do país correriam de forma muito mais irregular - com impactos na energia, nas cidades e na agricultura, muito para lá da região.

Esta dupla função - armazenamento de carbono e de água - faz do Cerrado um pilar do sistema climático sul-americano. Se esse pilar vacilar, os efeitos acabam por alcançar também a floresta tropical, que aparenta estar melhor protegida.

  • Cerca de 26 percent do território do Brasil situa-se no Cerrado.
  • Aproximadamente 16,7 milhões de hectares são considerados zonas húmidas.
  • Em alguns destes solos podem estar armazenadas até 1.200 toneladas de carbono por hectare.
  • Cerca de dois terços dos grandes sistemas fluviais do Brasil são alimentados no Cerrado.

Agricultura, secura, política: ameaças em várias frentes

Apesar desta importância, o Cerrado é muitas vezes tratado como uma “paisagem-saco de pancada”. Enquanto a floresta amazónica beneficia, pelo menos formalmente, de uma protecção mais forte, no Cerrado as savanas e zonas húmidas têm cedido, há décadas, espaço a vastos campos de soja, pastagens para gado e plantações. Canais de drenagem atravessam antigas depressões encharcadas para facilitar o acesso de maquinaria.

São precisamente estas intervenções que abrem o cofre do carbono. Quando a água escoa, o oxigénio entra. As medições das equipas mostram que cerca de 70 percent das emissões de gases com efeito de estufa destes solos ocorre na estação seca. Quanto mais longas e intensas forem essas fases, mais carbono se perde.

A cada ano mais seco, aumenta o risco de um reservatório estável de carbono se transformar numa fonte permanente de emissões.

A isto soma-se a própria alteração climática: secas mais frequentes, mudanças no calendário das chuvas e temperaturas mais elevadas intensificam a pressão sobre este sistema sensível. Espera-se, ao mesmo tempo, que o Cerrado contribua para a segurança alimentar via produção agrícola elevada e que assegure protecção climática e hídrica. Sem regras claras, estes objectivos entram em choque directo.

Protecção legal com grandes falhas

Existem áreas protegidas e normas para certas zonas húmidas. Contudo, muitas medidas focam-se em parcelas específicas e ignoram o balanço hídrico de toda a bacia hidrográfica. Se, a montante, os rios forem captados, represados ou desviados, a secção teoricamente protegida a jusante pode secar na mesma.

Por isso, especialistas falam na necessidade de “protecção da paisagem”: além das zonas húmidas, é essencial proteger as suas nascentes, afluentes e os solos circundantes. Caso contrário, as regras ficam no papel, enquanto o carbono no subsolo vai diminuindo.

O que uma mudança de rumo no Cerrado significaria para o mundo

Um Cerrado estável ajuda a travar o aquecimento global. Cada tonelada de carbono retida ali é uma tonelada a menos na atmosfera. Em paralelo, um regime hídrico saudável estabiliza rios dos quais dependem milhões de pessoas, barragens e ecossistemas costeiros.

Nas negociações climáticas, o Cerrado continua a ter um papel secundário. Muitos programas de mitigação pagam por reflorestação e protecção florestal, enquanto savanas, turfeiras e solos orgânicos são pouco considerados. Especialistas defendem agora que os pagamentos por serviços climáticos também incluam estes ecossistemas - por exemplo, através de programas de certificados de CO₂ ou de fundos climáticos internacionais.

Aspecto Zonas húmidas do Cerrado
Armazenamento de carbono Extremamente elevado, sobretudo no solo
Biodiversidade Espécies especializadas de savana e de zonas húmidas
Função hídrica Área de nascente e tampão para grandes sistemas fluviais
Principal ameaça Expansão agrícola, drenagem, secas

Termos que convém conhecer

Cerrado: Paisagem de savana tropical no centro do Brasil, com grupos de árvores, campos de gramíneas e arbustos. Abrange cerca de 26 percent do país e é considerado um ecossistema “hotspot” à escala global.

Veredas: Depressões húmidas e áreas de nascente no Cerrado, frequentemente dominadas por palmeiras. Funcionam como veias naturais de água e como reservatórios de carbono.

Solos orgânicos / solos turfosos: Solos com elevada proporção de matéria orgânica parcialmente decomposta. Formam-se em condições permanentemente húmidas e acumulam grandes quantidades de carbono numa área reduzida.

Riscos concretos - e o que significam no dia-a-dia

Para o próprio Brasil, a continuação da perda de zonas húmidas do Cerrado coloca vários riscos em simultâneo. Menos água nas nascentes significa maior pressão sobre albufeiras e sistemas de abastecimento. Ao mesmo tempo, aumentam as probabilidades de quebras de colheitas quando, durante a seca, os rios atingem caudais muito baixos. As cidades podem enfrentar episódios mais frequentes de escassez de água.

À escala global, emissões adicionais destes solos aumentam a pressão sobre outros países para apertarem as suas metas climáticas. Se um reservatório até agora subestimado entrar em colapso, as reduções de emissões noutros sectores terão de acontecer mais depressa para manter os mesmos objectivos de temperatura.

Para a ciência, abrem-se novas prioridades: programas de monitorização de longo prazo devem quantificar com maior rigor a resposta do Cerrado a novas condições climáticas. Em paralelo, especialistas testam a re-humidificação, formas de uso do solo mais sustentáveis e modelos de protecção que conciliem melhor a actividade agrícola com a conservação das zonas húmidas.

A nova investigação deixa uma mensagem nítida: a protecção climática não pode limitar-se a cenários de floresta tropical fotogénica. Por vezes, o futuro da atmosfera decide-se em depressões húmidas e discretas - longe das câmaras, mas directamente ligadas ao clima acima das nossas cabeças.


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