Muitos tutores passam pelo mesmo todos os anos: mal começam a florir as primeiras árvores, o cão parece estar bem - e, de repente, perde placas grandes de pelo, muitas vezes nas laterais do tronco. O primeiro pensamento é imediato: doença de pele, ácaros, algo perigoso. No entanto, por detrás desse susto está frequentemente um fenómeno específico e pouco conhecido, diretamente ligado à luz na primavera.
Quando o cão fica, de repente, com flancos sem pelo
O momento de choque: tufos enormes de pelo, pele lisa
A situação típica é esta: no fim de março ou no início de abril, o cão regressa do passeio, deita-se - e ficam no chão flocos densos de pelo. Ao escovar, soltam-se tufos inteiros e, por baixo, aparecem áreas bem delimitadas, sem pelo, muitas vezes nas laterais do corpo e, por vezes, de forma simétrica nos dois lados.
À primeira vista, isto parece mesmo alarmante. Muitos tutores pensam logo em:
- uma infestação forte por parasitas (por exemplo, ácaros ou sarna)
- uma alergia grave
- uma “muda catastrófica”
- uma alteração hormonal ou uma doença metabólica
Apesar da quantidade de pelo que cai, o cão muitas vezes nem se coça, ou fá-lo apenas de forma ligeira. A pele pode parecer normal, talvez um pouco mais escura, mas sem feridas abertas nem crostas com sangue. Esta combinação - queda de pelo muito marcada, mas pele relativamente tranquila - encaixa num fenómeno de que muita gente ainda nunca ouviu falar.
"Por detrás de flancos sem pelo na primavera, em alguns cães não está uma doença, mas sim um falso arranque no ciclo natural do pelo."
Alopécia dos flancos: o que está por detrás
Queda de pelo sazonal provocada pela mudança de luz
Nestes casos, os veterinários falam frequentemente em alopécia sazonal dos flancos. “Alopécia” significa simplesmente queda de pelo. O que a torna particular é o facto de surgir, regra geral, sempre na mesma altura do ano e sobretudo nos flancos, isto é, nas laterais do tronco.
O principal gatilho não é tanto a temperatura, mas sim a alteração da duração do dia. Quando, na primavera, os dias ficam subitamente muito mais longos e a luz se intensifica, o organismo do cão deteta essa mudança através dos olhos e da glândula pineal (no cérebro). Esse sistema regula, via hormonas, o ciclo do pelo.
Num pequeno grupo de cães, nesta fase ocorre uma espécie de “erro de programação”: os folículos pilosos entram ao mesmo tempo numa fase de repouso, os pelos antigos caem e, durante algum tempo, não nasce pelo novo. O resultado são zonas evidentes, sem pelo ou com pelo muito ralo.
Que cães são mais afetados
As observações clínicas indicam que algumas raças apresentam este fenómeno com mais frequência do que outras. É particularmente comum em:
- raças nórdicas (por exemplo, Husky, Malamute-do-Alasca, Samoiedo)
- Boxers
- alguns cães sem raça definida com muda sazonal muito marcada
Ainda assim, apenas uma parte relativamente pequena destes cães desenvolve de facto alopécia sazonal dos flancos. A maioria faz a muda normalmente; alguns reagem de forma mais sensível à mudança de luz.
"Uma pequena percentagem de dois dígitos das raças nórdicas e dos Boxers apresenta esta estranha queda de pelo na primavera, sem estar realmente doente."
Quando a queda de pelo é inofensiva - e quando não é
Sinais típicos da queda de pelo “da luz” (benigna)
Há vários aspetos que apontam claramente para alopécia sazonal dos flancos e tornam menos provável uma doença grave:
- O cão, no restante, parece saudável, come normalmente e mantém-se ativo.
- A pele está maioritariamente lisa, sem crostas com sangue nem lesões muito húmidas.
- A queda de pelo concentra-se nos flancos e no tronco, muitas vezes de ambos os lados.
- O episódio repete-se na mesma estação (na maioria das vezes, na primavera).
- A comichão é baixa ou não existe.
Mesmo assim, é importante que um veterinário avalie, porque quadros muito semelhantes também podem ser causados por parasitas, fungos ou alterações hormonais.
Sinais de alerta: ir já ao veterinário
Estes sinais justificam uma avaliação rápida:
- comichão intensa, com o cão a morder-se ou a coçar-se continuamente
- feridas abertas, crostas, zonas com pus
- febre, apatia, perda de peso
- queda de pelo em muitas áreas do corpo, não apenas nos flancos
- alterações nas patas, orelhas ou mucosa da boca
Nestas situações, a explicação “luz da primavera” não chega. O veterinário irá então procurar de forma direcionada ácaros, fungos, alergias, problemas hormonais ou doenças internas.
Porque é que a cortisona não é uma boa ideia aqui
Medidas pesadas, pouco benefício
Por receio, alguns tutores (ou até algumas clínicas) avançam demasiado depressa para medicação forte, como preparados de cortisona. Embora reduzam inflamações, não corrigem o gatilho real da alopécia sazonal dos flancos: um ciclo do pelo desregulado pela mudança de luz.
Ao mesmo tempo, estes medicamentos têm riscos: podem, com o tempo, sobrecarregar o metabolismo, diminuir as defesas e provocar efeitos secundários no fígado ou nas glândulas suprarrenais. Para um problema que, na essência, é benigno e sobretudo estético, é claramente excessivo.
"Numa alopécia sazonal dos flancos pura, a cortisona traz poucas vantagens, mas pode causar efeitos secundários relevantes."
O que o veterinário faz em alternativa
O primeiro passo é sempre uma abordagem diagnóstica bem feita. O mais habitual inclui:
- observação e palpação cuidadosa da pele
- zaragatoas e/ou raspagens cutâneas para excluir ácaros e fungos
- se necessário, análises ao sangue para avaliar a tiroide e outros parâmetros orgânicos
Só depois de afastadas outras causas é que a alopécia sazonal dos flancos se torna a explicação mais provável. Nessa altura, pode intervir-se de forma direcionada e muito prudente.
Melatonina: um “empurrão” suave para o ciclo do pelo
Como uma hormona volta a pôr o pelo a crescer
Em muitos cães afetados, ajuda uma medida surpreendentemente simples: uma administração limitada no tempo de melatonina. Esta hormona é produzida naturalmente pelo próprio corpo, sobretudo durante a escuridão. Funciona como um sinalizador da duração do dia e da noite e, entre outras funções, influencia a muda do pelo.
Em comprimidos e durante várias semanas, a melatonina pode “reiniciar” o ciclo do pelo que ficou bloqueado. Os veterinários recorrem, com frequência, a tratamentos de cerca de três a seis semanas. A dose e o produto devem ser sempre definidos por um profissional, porque o peso, a raça e a situação individual contam.
"A melatonina funciona como um botão de reset para a muda do pelo - de forma suave, hormonal e geralmente sem dor ou stress para o cão."
O que os tutores podem fazer nesta fase
Para além do que for prescrito pelo veterinário, algumas rotinas simples ajudam:
- Escovar o pelo com regularidade e delicadeza, para remover pelo solto.
- Proteger as zonas sem pelo do sol intenso, por exemplo assegurando locais com sombra.
- Garantir uma alimentação equilibrada, com gorduras e proteínas de qualidade.
- Evitar stress, porque as hormonas do stress também podem perturbar a muda.
Durante este período, muitos cães ficam com um aspeto um pouco “invulgar”. Com alguma leveza e tranquilidade, isso costuma ser fácil de gerir - e o cão não tem qualquer embaraço com o seu penteado.
Quanto tempo dura - e acontece todos os anos?
Evolução típica ao longo de semanas a meses
Depois de perceberem o que está por detrás da alopécia sazonal dos flancos, é natural que os tutores queiram saber quanto tempo dura. A variação é grande: nuns cães, o pelo volta a nascer por completo em poucas semanas; noutros, o processo prolonga-se por vários meses.
Em muitos casos, o padrão repete-se todos os anos de forma semelhante. Por vezes, torna-se mais leve com o tempo; noutras, mantém-se relativamente estável. Por isso, alguns tutores optam por uma cura preventiva de melatonina todas as primaveras - sempre em articulação com a clínica veterinária.
Porque é que a primavera é tão sensível
Luz, hormonas e o calendário instintivo do cão
Mesmo vivendo em casa, os cães continuam a ter um calendário interno anual muito marcado. Na natureza, dias mais longos significam: temperaturas a subir, mais atividade, presas diferentes, condições ambientais distintas. A estrutura do pelo, o metabolismo e o equilíbrio hormonal ajustam-se a esse cenário.
Quem convive com raças de trabalho ou raças nórdicas conhece bem estes ritmos ao longo do ano. A primavera não traz apenas passeios mais longos; ativa um “modo de funcionamento” diferente no corpo do cão. Quando esse sistema perde o compasso, é frequente que o primeiro sinal apareça no pelo.
Tutores bem informados conseguem interpretar estes sinais, evitar pânico e, ainda assim, procurar o veterinário a tempo quando algo foge ao padrão típico. Assim, o susto dos flancos sem pelo costuma ser passageiro - e o cão recupera, pouco a pouco, o seu pelo habitual e denso.
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