Novos dados vindos da Suécia colocam em causa, de forma séria, a prática habitual de prescrever antibióticos - e dizem respeito a milhões de doentes.
Os antibióticos salvam vidas, e isso não se discute. Ainda assim, um grande estudo escandinavo mostra agora que certos medicamentos deixam no intestino uma espécie de “cicatriz microbiana”, visível mesmo passados oito anos. Isso pode ter efeitos importantes no peso, no metabolismo e no risco cardiovascular.
O que os investigadores analisaram na flora intestinal
No intestino de um adulto saudável vivem, em média, cerca de 350 espécies diferentes de bactérias. Este pequeno ecossistema ajuda na digestão, treina o sistema imunitário e influencia também o metabolismo. Quando se recorre a antibióticos, estes não atingem apenas os agentes patogénicos; afetam sempre também parte destes habitantes benéficos do intestino.
Uma equipa das universidades de Uppsala e Lund, juntamente com o Instituto Karolinska, analisou agora durante quanto tempo estes efeitos podem ser medidos. A base foram dados de 14.979 adultos na Suécia. Para cada pessoa, existiam duas fontes centrais de informação:
- um registo nacional de prescrições com todos os antibióticos receitados nos últimos oito anos
- amostras de fezes, nas quais a análise genética moderna permitiu identificar todas as espécies bacterianas presentes no intestino
Depois, os investigadores compararam a flora intestinal de pessoas que tinham tomado antibióticos em diferentes momentos antes da recolha da amostra com a de participantes que não tinham usado nenhum destes medicamentos nesse período. Foram avaliados onze grupos distintos de antibióticos e considerados outros fármacos, doenças e fatores do estilo de vida, de modo a reduzir ao máximo a influência de variáveis externas.
A questão central era esta: a flora intestinal recupera realmente por completo - ou permanecem vestígios de um antibiótico durante muito tempo?
Três antibióticos com efeito prolongado na flora intestinal
Os resultados variam bastante, consoante o medicamento analisado pelos investigadores. Três grupos de substâncias destacam-se claramente por remodelarem o intestino de forma especialmente acentuada:
- Clindamicina (frequentemente usada em infeções da pele, do pulmão ou dos dentes)
- Fluoroquinolonas (por exemplo, em infeções urinárias e respiratórias)
- Flucloxacilina (uma variante da penicilina, utilizada na Europa em infeções da pele)
Quem tinha tomado clindamicina no ano anterior à recolha da amostra apresentava, em média, 47 espécies bacterianas a menos no intestino do que pessoas sem esse medicamento. Quase um quarto de todas as espécies analisadas sofreu alterações significativas na sua abundância. As fluoroquinolonas ficaram na ordem de cerca de 20 espécies perdidas, e a flucloxacilina de aproximadamente 21 espécies perdidas.
Outros medicamentos tiveram um impacto muito mais ligeiro. Particularmente notável foi uma variante clássica de penicilina de espetro estreito, que apenas provocou alterações pequenas e passageiras na flora intestinal. Isto sugere que as características da substância ativa são decisivas - e não apenas a dose ou a duração do tratamento.
O intestino recupera, mas não por completo
A pergunta seguinte foi quanto tempo esse dano persiste. À primeira vista, a situação nem parece tão grave. Nos primeiros um a dois anos após o fim do tratamento, a diversidade bacteriana volta a aumentar. Muitas espécies regressam ou são substituídas por outras funcionalmente semelhantes.
A partir do segundo ano, no entanto, essa recuperação abranda de forma clara. Entre quatro e oito anos após o tratamento com clindamicina, fluoroquinolonas ou flucloxacilina, os participantes continuavam a apresentar alterações em 10 a 15 por cento das espécies bacterianas analisadas. No caso da clindamicina, ainda se observavam perto de 200 espécies com abundância alterada, apesar de terem passado vários anos desde a toma.
Um único ciclo de antibiótico pode bastar para alterar de forma mensurável a composição da flora intestinal durante muitos anos.
Interessante também é o facto de o efeito continuar detetável mesmo em participantes que, ao longo de todo o período de oito anos, só tinham tomado determinado antibiótico uma única vez. Ou seja, as consequências a longo prazo não dependem apenas de usos repetidos.
Possíveis efeitos no peso, no açúcar no sangue e no coração
O que significam, do ponto de vista da saúde, estas alterações persistentes? Ainda não existe uma resposta definitiva, mas os indícios estão a acumular-se. Muitos estudos epidemiológicos mostram associações entre o uso frequente de antibióticos e um risco mais elevado de:
- excesso de peso e aumento do índice de massa corporal
- diabetes de tipo 2
- doenças cardiovasculares
- certos tipos de cancro
A nova análise encaixa exatamente neste quadro. Os três grupos de antibióticos mais problemáticos estiveram associados a um aumento de determinadas espécies bacterianas que, em trabalhos anteriores, já tinham sido relacionadas com maior peso corporal, mais lípidos no sangue (triglicéridos) e um risco superior de diabetes.
Isto não constitui prova de causalidade, porque outros fatores também podem interferir. Ainda assim, os dados apontam para um mecanismo biologicamente plausível: um antibiótico altera de forma duradoura a comunidade microbiana numa direção compatível com perfis metabólicos desfavoráveis.
O que isto significa para a prescrição de antibióticos
O estudo não põe em causa a necessidade fundamental dos antibióticos. Em infeções bacterianas graves, continuam a ser indispensáveis. Os investigadores sublinham, porém, que estes novos dados devem ajudar a escolher melhor o medicamento concreto.
Se existirem duas opções com eficácia semelhante contra o agente infecioso, o impacto potencial a longo prazo no intestino pode ser decisivo. Um medicamento com menor efeito sobre a diversidade bacteriana pode trazer vantagens para a saúde a prazo - por exemplo, um risco mais baixo de perturbações metabólicas.
“As infeções graves têm de ser tratadas - mas cada prescrição deve estar bem justificada”, é a mensagem vinda da Suécia.
Para médicos de medicina geral e familiar, isto significa ponderar ainda com mais cuidado se é mesmo necessário recorrer a um antibiótico de largo espetro. E se, em infeções simples, não bastará um medicamento mais antigo e de ação mais estreita, que desorganize muito menos o intestino.
O que os doentes podem retirar disto
Também os doentes têm um papel nesta questão. Quem pede um antibiótico “por precaução” ao primeiro ardor na garganta muitas vezes subestima as consequências a longo prazo. O novo estudo mostra de forma muito clara que um tratamento aparentemente banal pode deixar marcas anos depois.
- Em caso de infeção, vale sempre a pena perguntar se o antibiótico é realmente necessário ou se o organismo pode resolver sozinho.
- Nunca se devem tomar restos de tratamentos antigos por iniciativa própria nem “gastar” embalagens interrompidas.
- É importante seguir à risca as instruções de toma, para que o tratamento não precise de ser prolongado sem necessidade.
Quem, no passado, recebeu antibióticos fortes com frequência não deve entrar em pânico com o intestino, mas deve manter-se atento: desconfortos digestivos pouco claros, ganho de peso ou cansaço persistente podem ter muitas origens - e a flora intestinal passou a integrar claramente a lista de suspeitos.
Como apoiar o intestino depois de antibióticos
O próprio estudo não analisou medidas de compensação, mas há outras investigações que sugerem o que pode ajudar o intestino depois de um tratamento. Não existe uma “pílula milagrosa”, mas o estilo de vida faz bastante diferença.
- Alimentação rica em fibra: muitos vegetais, leguminosas, cereais integrais e frutos secos alimentam as bactérias benéficas.
- Alimentos fermentados: iogurte, kefir, chucrute ou kimchi fornecem microrganismos vivos e estimulam a diversidade.
- Menor consumo de produtos ultraprocessados: refeições prontas, refrigerantes e snacks tendem a favorecer grupos bacterianos menos desejáveis.
- Uso moderado de desinfetantes: uma esterilidade excessiva no dia a dia pode reduzir ainda mais a diversidade microbiana.
Os probióticos em cápsulas ou em pó parecem tentadores, mas nem todas as misturas servem para todas as pessoas. Alguns produtos ajudam em certas diarreias, enquanto outros quase não produzem efeitos mensuráveis. Quem quiser usar algo de forma direcionada deve falar com o médico ou o farmacêutico - sobretudo após infeções graves ou na presença de doenças pré-existentes.
Porque é que este estudo é apenas o começo
Os dados disponíveis recuam, por enquanto, até oito anos. O que acontece depois disso continua por esclarecer: as alterações mantêm-se para sempre ou o intestino acaba por regressar ao estado inicial? Para responder a esta questão, os investigadores estão neste momento a recolher novas amostras de fezes de parte dos participantes. Só assim será possível perceber melhor quem recupera depressa e quem vive mais tempo com alterações.
Também será importante perceber de que forma os antibióticos influenciam os genes de resistência no intestino. A suspeita é que certos tratamentos não mudem apenas espécies isoladas, mas também favoreçam bactérias que transportam genes de resistência. Nesse caso, um tratamento curto para uma infeção teria duas consequências a longo prazo: uma flora intestinal alterada e uma maior resistência dos microrganismos aos medicamentos futuros.
Uma coisa já é clara: os antibióticos continuam a ser uma dádiva da medicina moderna. Mas este novo trabalho mostra, com muita nitidez, que cada utilização deixa uma espécie de pegada biológica. A profundidade dessa marca depende da substância escolhida, da própria flora intestinal e do estilo de vida depois do tratamento - e é precisamente aí que começa a margem de ação que doentes e médicos podem aproveitar em conjunto.
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