Os chamados químicos eternos têm fama de permanecer no ambiente durante muito tempo, mas os cientistas estão agora a descobrir que podem fazer algo muito mais inesperado.
Um novo estudo mostra que certas bactérias não se limitam a reter estes poluentes - conseguem, de facto, incorporá-los nas membranas que mantêm as suas células intactas.
Essa descoberta abre uma via oculta para perceber como os PFAS circulam no ambiente e, potencialmente, através dos seres vivos.
Em vez de ficarem a flutuar livremente ou de se depositarem na água e no solo, alguns destes compostos podem passar a fazer parte da própria biologia, alterando a forma como se dispersam, onde se acumulam e como os cientistas os acompanham.
O que está a acontecer no interior das células
Numa bactéria comum do solo, uma parte da membrana celular foi substituída por cadeias químicas fluoradas depois da exposição ao poluente.
Na Universidade do Tennessee, em Knoxville (UT Knoxville), Frank Loeffler registou que as células tinham integrado o composto nas suas membranas, em vez de o terem apenas aprisionado à superfície.
Na estirpe principal, 7 a 12 por cento das moléculas-chave da membrana tinham cadeias químicas fluoradas incorporadas na sua estrutura, o que mostra que não se tratava de uma mera curiosidade pontual.
Mesmo assim, o achado não significa que o poluente tenha desaparecido, e essa limitação coloca a questão maior de saber o que são estes compostos e onde é que persistem.
Porque é que os PFAS persistem
Desde o vestuário impermeável à espuma de combate a incêndios, os cientistas agrupam estes compostos sob a designação de substâncias per- e polifluoroalquiladas (PFAS), uma classe de compostos produzidos pelo ser humano e definida por fortes ligações carbono-flúor.
Os PFAS resistem ao calor, à gordura e à degradação, o que ajuda a explicar porque permanecem na água, no solo e no sangue.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) afirma que alguns têm sido associados a efeitos nocivos para a saúde, ainda que muitos membros deste grupo continuem pouco compreendidos.
Utilidade, persistência e incerteza explicam porque é que cada nova pista sobre o comportamento dos PFAS atrai agora tanta atenção.
Para além da simples absorção
Trabalhos anteriores já tinham mostrado que as bactérias conseguem reter alguns PFAS, mas este estudo revelou um contacto muito mais profundo. Em vez de apenas aprisionar o composto dentro ou à superfície da célula, a maquinaria responsável por construir membranas parece usá-lo como matéria-prima.
Essa mudança é importante porque um composto incorporado numa membrana pode deslocar-se, esconder-se e reagir de maneira diferente de outro que apenas adere de forma fraca.
Um artigo de 2025 sobre bactérias intestinais já tinha sugerido essa possibilidade, mostrando que micróbios humanos podem acumular alguns PFAS no interior das células ao longo do tempo.
O efeito também não ficou limitado a um microrganismo invulgar num único frasco de meio de cultura. Outras bactérias, incluindo Pseudomonas, Escherichia coli e Enterococcus faecalis, também integraram estas partes fluoradas nas suas membranas, embora em níveis mais baixos.
Mesmo a cerca de 2,5 partes por milhar de milhão, os investigadores ainda conseguiram detetar lípidos alterados na estirpe principal do solo.
Os resultados obtidos em várias espécies tornam o achado mais difícil de descartar como uma simples anomalia e levantam questões ambientais muito mais amplas.
Como as células lidam com os PFAS
No interior da célula, as evidências apontam para enzimas que normalmente processam ácidos gordos e que acabam por lidar com semelhantes fluorados. Estas enzimas provavelmente ativam o composto que entra e depois fixam-no no local onde normalmente se encontram as caudas das membranas.
Uma proteína ligada à construção da membrana tornou-se cerca de 3 000 vezes mais abundante após a exposição, o que sugere que as células estavam ativamente a ajustar-se à nova química. Ainda falta prova direta para cada etapa, mas a via provável já parece muito menos misteriosa do que antes.
Esse processo pode começar ainda mais cedo do que se pensava. Os problemas podem surgir antes mesmo de aparecerem os PFAS mais conhecidos, quando outros compostos se degradam e deixam resíduos reativos.
O estudo concluiu que esses precursores - compostos iniciais que se transformam mais tarde - podem gerar as formas prontas para a membrana que as bactérias acabam por absorver.
Num dos ensaios, um composto ligado à espuma de combate a incêndios foi convertido numa substância intermédia que acabou por ficar na membrana da bactéria.
Isto sugere que os micróbios podem intercetar a poluição enquanto ela ainda está a mudar de forma, e não apenas depois de atingir a sua versão final.
Um reservatório oculto de poluição
Quando os compostos passam a fazer parte de uma membrana, deixam de se comportar apenas como contaminantes dissolvidos que derivam na água e no solo.
Em vez disso, a poluição ligada à membrana desloca-se quando as bactérias se deslocam, o que pode abrandar a dispersão e alterar os locais onde a contaminação por químicos eternos se acumula.
Na estirpe principal, os autores estimam que cerca de 43 por cento do composto de teste fornecido acabou no material da membrana da célula. O processo não destrói o poluente, mas cria um reservatório oculto que os testes de água convencionais podem não detetar.
Ainda assim, várias cautelas impedem que esta descoberta se transforme, de imediato, num plano de limpeza. Muitos ensaios utilizaram níveis superiores aos encontrados na maioria dos locais contaminados, embora os lípidos alterados também tenham surgido em doses muito mais baixas.
As quantidades absolutas continuam incertas porque a área ainda não dispõe de padrões laboratoriais para estas moléculas invulgares da membrana, o que dificulta contagens exatas.
Os investigadores ainda não esclareceram o destino final, porque uma membrana danificada pode libertar novamente o composto, sem que ele tenha sofrido alterações.
Em conjunto, estas limitações reforçam uma ideia central: este processo pode alterar a forma como os PFAS se movem e se acumulam, mas ainda não oferece uma forma de os eliminar.
O que isto significa para a saúde
A exposição humana continua a ser central porque a Agência para Substâncias Tóxicas e Registo de Doenças (ATSDR) afirma que os PFAS são generalizados e são encontrados no sangue em todo o mundo.
A deteção deste processo em Enterococcus faecalis, uma bactéria intestinal comum, sugere que uma química semelhante possa ocorrer no interior do corpo.
"Professor Loeffler’s paper represents an important scientific discovery", disse Chris Cox, responsável pelo departamento na Universidade do Tennessee, em Knoxville.
Em vez de tratar as bactérias como vítimas passivas dos químicos eternos, este trabalho mostra que algumas podem reorganizar as suas membranas em resposta à contaminação.
Essa mudança altera a forma como os cientistas pensam os PFAS nos sistemas vivos, oferecendo uma nova maneira de acompanhar massa de PFAS em falta e talvez de abrandar certas vias de poluição, mesmo quando a destruição em grande escala continua por resolver.
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