No escritório, ainda há muita gente que vê o modo de “fazer tudo ao mesmo tempo” como sinal de empenho e talento. Computador aberto, telemóvel na mão, uma videochamada em curso, correio eletrónico e janelas de chat a piscar: quem trabalha assim tende a sentir-se importante e insubstituível. No entanto, este comportamento pode travar seriamente a sua evolução dentro da empresa - e, a longo prazo, até prejudicar o cérebro.
Multitarefa e carreira: porque é que o modo constante trava a sua evolução
Em entrevistas de emprego, muitas pessoas fazem questão de destacar a capacidade de tratar várias tarefas em simultâneo. No dia a dia, a lógica mantém-se: cada pedido recebe um “sim, trato disso”, cada projeto é aceite, cada espaço na agenda é preenchido. Visto de fora, isto parece uma grande disponibilidade para produzir.
Na prática, os estudos mostram o contrário: quem trabalha permanentemente em modo de multitarefa comete mais erros, aprende pior e transmite menos segurança.
A explicação está no cérebro. As pessoas só conseguem concentrar-se ativamente numa tarefa de cada vez. O que parece multitarefa é, na verdade, uma mudança rápida e constante do foco da atenção. Os psicólogos chamam a isto “task switching” - a passagem de uma tarefa para outra.
Essa alternância contínua consome energia. Cada salto interrompe o raciocínio por instantes e obriga o cérebro a reorganizar-se. Embora isto aconteça em frações de segundo, ao longo do dia traduz-se em perdas enormes de concentração e desempenho.
O que a multitarefa faz realmente ao cérebro
As investigações dos últimos anos deixam uma imagem muito clara. Quem vive de forma regular em multitarefa permanente altera o cérebro - e não para melhor. Os estudos apontam para os seguintes efeitos:
- Diminuição da substância cinzenta em áreas responsáveis pela concentração, pelo autocontrolo e pela regulação emocional.
- Desempenho mais fraco da memória de trabalho – a informação fixa-se pior e os contextos mais complexos tornam-se mais difíceis de acompanhar.
- Problemas na memória de longo prazo – o que se aprende fica menos bem consolidado.
- Maior facilidade de distração – cada email, cada mensagem, cada janela emergente tira-o mais depressa do caminho.
- Mais sintomas de stress – agitação interior, sensação de pressa constante e cansaço ao fim do dia.
Esta combinação é péssima para carreiras que exigem responsabilidade, decisões claras e cabeça fria. Quem não consegue manter o foco pode parecer despreparado em reuniões, pouco fiável em projetos ou desatento no contacto com clientes - mesmo quando, objetivamente, trabalha muito.
Sinais típicos: como reconhecer o seu próprio problema de multitarefa
Muitas pessoas já nem se apercebem de como se habituaram a trabalhar em paralelo. Os comportamentos seguintes indicam que provavelmente já vive no modo automático da multitarefa:
- Começa dois projetos ao mesmo tempo, em vez de planear um e iniciá-lo com método.
- No caminho para o trabalho, tem rádio ou podcast ligados - não para relaxar, mas para “aproveitar o tempo de forma produtiva”.
- Fala ao telefone e, ao mesmo tempo, escreve emails ou apontamentos.
- Enquanto passa uma série ou um programa informativo, responde a emails profissionais.
- Em reuniões, vai consultando redes sociais ou verifica o chat em simultâneo.
- Enquanto alguém lhe fala, escreve uma lista de tarefas ou já está a planear o passo seguinte.
Um destes pontos isoladamente não é dramático. Se vários deles fizerem parte do seu quotidiano, é provável que o seu cérebro já esteja a pagar uma conta alta a longo prazo.
Como a multitarefa prejudica a sua imagem na empresa
A carreira não depende apenas de números e resultados, mas também da perceção que os outros têm de si. As chefias observam a quem confiam tarefas complexas, clientes importantes ou assuntos sensíveis. A multitarefa permanente pode estragar essa imagem.
Efeitos típicos na sua reputação profissional:
- Parece distraído: se olha para o telemóvel enquanto outros falam numa reunião, a mensagem que passa é: “Isto não me interessa”.
- Comete erros por descuido: pequenas gralhas, anexos esquecidos, acordos mal percebidos - tudo isso vai-se acumulando.
- É visto como alguém sobrecarregado: quem vai encaixando “só mais isto” a toda a hora transmite a ideia de que já nem domina bem o panorama geral.
- Passa uma imagem de stress: a pressa é contagiante - para promoções, as chefias tendem a escolher pessoas que transmitam serenidade.
As lideranças preferem promover colaboradores focados, fiáveis e capazes de definir prioridades com clareza - não pessoas que querem tratar de tudo ao mesmo tempo.
A força da monotarefa: uma tarefa, atenção total
A alternativa à multitarefa pode soar antiquada, mas é altamente eficaz: fazer uma coisa de cada vez. O conceito de “monotarefa” descreve precisamente isso - trabalhar de forma deliberada, com atenção inteira.
Vantagens típicas no trabalho:
- maior qualidade dos resultados
- menos ciclos de correção
- argumentos mais sólidos em reuniões, porque os temas são realmente dominados
- nível de stress visivelmente mais baixo no fim do dia
Sobretudo nas profissões do conhecimento, o valor do pensamento profundo tem vindo a subir. Quem passa uma hora sem interrupções a resolver um problema costuma produzir mais do que alguém que passa três horas a saltar entre cinco assuntos.
Estratégias concretas para sair da armadilha da multitarefa
A mudança não acontece de um dia para o outro. O cérebro habituou-se a estímulos constantes. Ainda assim, com algumas alterações simples de comportamento, é possível trazer mais calma e mais foco para o trabalho.
1. Priorize as tarefas sem hesitação
Cada dia deve começar com a mesma pergunta: quais são as uma a três tarefas mais importantes que têm mesmo de ficar feitas hoje? Anote-as e reserve blocos de tempo na agenda.
Durante esses períodos-chave, não pode haver reuniões, chats nem emails. Se puder, feche a porta do gabinete ou coloque auscultadores para sinalizar externamente que não está disponível.
2. Desative as notificações
Os maiores alimentadores da multitarefa são as janelas emergentes e os sons. Desative as notificações instantâneas do correio eletrónico e dos chats. Defina horários fixos para ver mensagens em bloco: por exemplo, às 10h, às 13h e às 16h.
O mesmo se aplica ao telemóvel. No escritório, ajuda um truque simples: deixe-o com o ecrã virado para baixo e fora do alcance. Só o facto de o aparelho estar à vista já distrai, como está demonstrado.
3. Esteja totalmente presente em conversas e reuniões
Quem quer subir na carreira precisa de conquistar confiança. Isso inclui fazer com que os outros sintam que têm a sua atenção inteira. Na prática, isto significa:
- deixar o computador aberto na reunião apenas se for mesmo necessário para a sessão
- evitar ter o telemóvel em cima da mesa - é melhor guardá-lo no bolso ou na mala
- manter contacto visual nas conversas e não estar a escrever ao mesmo tempo
Muitas pessoas ficam surpreendidas com o aumento de produtividade das reuniões quando todos estão realmente presentes - não apenas fisicamente, mas também mentalmente.
Como dizer “não” sem parecer pouco colaborativo
Uma razão frequente para a multitarefa é o receio de parecer inflexível ou pouco disponível para ajudar. Quem quer progredir na carreira tende a aceitar todos os pedidos. A chave está numa comunicação clara e respeitosa.
Exemplos de respostas que protegem os seus limites e, ao mesmo tempo, demonstram profissionalismo:
- “Estou concentrado no projeto X, que tem prioridade elevada. Posso tratar do seu tema a partir das 15h com a devida atenção. Serve-lhe?”
- “Quero fazer isto como deve ser. Se encaixar agora pelo meio, a qualidade vai ressentir-se. Queremos marcar um horário fixo para isso?”
- “Neste momento estou totalmente ocupado com A e B. Se eu assumir também C, um dos outros temas vai atrasar-se. O que é mais urgente para si?”
Quem comunica as suas capacidades com clareza não parece preguiçoso, mas profissional - e, por isso, preparado para mais responsabilidade.
Porque é que as pausas conscientes aumentam as suas hipóteses de progressão
Muita gente continua a ver as pausas como um luxo. As neurociências mostram o contrário: sem momentos de recuperação, a capacidade do cérebro para processar conteúdos complexos diminui. Pausas curtas e verdadeiras - sem telemóvel e sem emails - ajudam a voltar a subir o nível de concentração.
Uma breve ida ao ar livre, um copo de água junto à janela, dois minutos de respiração consciente: estas micro-pausas fortalecem o pensamento. Quem cuida de si desta forma toma decisões melhores e transmite maior resistência - um aspeto que as chefias observam com atenção quando chega a altura das promoções.
Multitarefa, bem-estar e desempenho sustentável
A exposição permanente a estímulos tem ainda outra face: afeta o bem-estar pessoal. Pessoas que vivem em multitarefa constante referem com mais frequência dificuldades de sono, irritabilidade e a sensação de nunca estar “a terminar” nada. Este estado, a longo prazo, adoece - e quem está doente não faz carreira.
Um uso atento da própria atenção passa, assim, a ser quase uma competência central no trabalho moderno. Quem a domina protege a saúde e melhora de forma mensurável a qualidade do que faz. E é precisamente esta combinação - desempenho estável, presença clara e gestão segura da pressão - que abre portas dentro da empresa.
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