Um estudo recente realizado no Peru torna visível, de forma drástica, aquilo que os investigadores temem há anos: as alterações climáticas não estão apenas a empurrar para cima o nível do mar e as temperaturas, estão também a aumentar o risco de doenças infecciosas perigosas. Em particular, a febre da dengue está a espalhar-se muito mais depressa quando chuvas intensas e calor coincidem - com consequências que vão muito além da América do Sul.
Como uma tempestade desencadeou uma vaga de dengue
Em 2023, um ciclone invulgarmente forte atingiu o noroeste do Peru ao mesmo tempo que um El Niño costeiro. Uma região que costuma ser relativamente seca passou subitamente a enfrentar chuvas torrenciais. Pouco depois, as autoridades de saúde registaram uma epidemia de dengue - cerca de dez vezes mais casos do que num ano normal.
Investigadores dos Estados Unidos e do Peru quiseram perceber: terá sido apenas uma coincidência infeliz - ou o efeito direto do clima extremo? Com recurso a métodos estatísticos originalmente usados na economia, reconstruíram um cenário hipotético: como teria evoluído a dengue naquela região se o ciclone não tivesse ocorrido?
O resultado foi este: nas áreas mais afetadas, cerca de 60 por cento dos casos de dengue devem-se diretamente à combinação de chuva extrema e calor - cerca de 22.000 infeções adicionais.
A fórmula abstrata “as alterações climáticas adoecem as pessoas” ganha, assim, uma forma concreta. Já não se trata apenas de riscos possíveis num futuro distante, mas de pessoas reais que adoecem porque o clima e o tempo mudam.
Porque a água parada e o calor formam um duo perfeito para a dengue
A dengue é transmitida sobretudo por duas espécies de mosquitos: Aedes aegypti e Aedes albopictus. A infeção pode ser relativamente ligeira, com febre, dores de cabeça, dores no corpo e erupções cutâneas. Em casos graves, pode provocar hemorragias, choque e até a morte.
Para o vírus se espalhar, são precisas três coisas:
- mosquitos em número suficiente
- pessoas suficientes sem proteção
- condições ambientais adequadas - sobretudo calor e água
É precisamente aqui que entram as tempestades. As chuvas intensas criam:
- poças, charcos e zonas inundadas
- danos nos sistemas de abastecimento de água e de esgotos
- armazenamento provisório de água em baldes, bidões e tanques
Tudo isto cria locais de reprodução para os mosquitos. Depois, a temperatura sobe - e acelera o ciclo de vida dos insetos. Os mosquitos desenvolvem-se mais depressa do ovo ao adulto, picam com maior frequência e o vírus multiplica-se mais rapidamente no seu organismo.
Quando a chuva intensa coincide com o calor, a situação muda de figura: em poucas semanas, uma inundação transforma-se num terreno ideal para epidemias de dengue.
Um dado particularmente interessante: nas zonas mais frescas do Peru, que também foram atingidas pelo ciclone, não surgiu uma vaga de dengue comparável. Ou seja, a chuva por si só não basta. Só a combinação com temperaturas suficientemente elevadas torna o risco explosivo.
Até que ponto as alterações climáticas favorecem estas tempestades
O estudo não se limita a perguntar se o ciclone agravou a epidemia. Os cientistas do clima também analisaram quão provável é hoje, no clima atual, um acontecimento extremo deste tipo.
Para isso, compararam modelos climáticos para o período entre 1965 e 2014 com um estado de referência pré-industrial. O foco esteve especialmente nas precipitações de março - o mês em que o ciclone de 2023 atravessou o noroeste do Peru.
As principais conclusões foram estas:
- Chuvas extremamente intensas como as de 2023 são hoje cerca de 31 por cento mais prováveis na região do que antes da industrialização.
- Juntamente com o aumento das temperaturas, a probabilidade de “tempo favorável à dengue” - isto é, a combinação de chuva intensa e calor - quase triplicou.
Por outras palavras: o que antes era um extremo meteorológico muito raro acontece agora com muito mais frequência. E cada um desses episódios abre uma porta de entrada para a dengue e para outras doenças transmitidas por mosquitos.
O que isto tem a ver com Portugal, a Europa e os Estados Unidos
À primeira vista, o Peru parece longe. Mas o padrão descrito pelos investigadores é válido em todo o mundo. Os mosquitos do género Aedes já circulam em muitas regiões que antes eram consideradas “demasiado frias” - incluindo o sul da Europa, partes dos Estados Unidos e, localmente, também a Alemanha.
Os surtos de dengue em estados alemães como a Baviera ou o Baden-Württemberg continuam a ser raros e, na maioria dos casos, estão associados a casos importados. No entanto, a combinação de invernos mais amenos, mais dias de calor e chuvas intensas facilita o estabelecimento do mosquito-tigre asiático. É precisamente este inseto que pode transmitir dengue, chikungunya e zika.
Quanto mais frequentemente ocorre “tempo perfeito para mosquitos”, maior é a probabilidade de os vírus introduzidos deixarem de ser apenas casos isolados e começarem a espalhar-se localmente.
Os peruanos, neste caso, dão um sinal de alerta para regiões que ainda se sentem relativamente seguras. Quem só reage quando os hospitais já estão sobrecarregados chega claramente demasiado tarde.
Intervir mais cedo: o que os sistemas de saúde podem fazer agora
O estudo não é apenas um aviso; é também uma caixa de ferramentas. Os investigadores mostram como as autoridades podem agir de forma dirigida quando se prevê a chegada de condições meteorológicas extremas.
Controlo direcionado de mosquitos após tempestades
Se for possível saber que bairros se tornam especialmente vulneráveis à dengue após inundações, os recursos podem ser canalizados para esses locais - e isso antes de os números dispararem. Entre as medidas possíveis estão:
- aplicação de larvicidas em águas paradas
- bombeamento e drenagem de poças e charcos
- controlo de depósitos de água em quintais, jardins e bairros informais
- campanhas de sensibilização diretamente nos bairros afetados
Vacinação e infraestruturas como estratégia dupla
As vacinas contra a dengue já estão disponíveis em alguns países, embora muitas vezes apenas para determinados grupos etários ou zonas de risco. Em conjunto com uma melhor infraestrutura, isso pode reduzir de forma significativa a carga da doença.
Os pontos-chave aqui são:
- redes de água potável estáveis, para que as pessoas tenham menos necessidade de armazenar água a céu aberto
- saneamento funcional, para evitar poças e inundações
- edifícios resistentes à água e seguros face a cheias
- sistemas de alerta precoce que cruzem previsões meteorológicas com dados de saúde
Cada investimento orientado para o futuro em proteção da água e do clima protege não só casas e estradas, mas também, de forma muito concreta, a saúde humana.
Novos métodos para um novo risco
Outro aspeto interessante do estudo é a abordagem metodológica. Os investigadores transferem ferramentas da economia para a medicina climática: com modelos estatísticos, simulam uma realidade alternativa sem tempestade e depois comparam-na com a evolução real.
Esta técnica não serve apenas para a dengue. Poderá ser aplicada a análises semelhantes sobre:
- surtos de malária após inundações
- vírus do Nilo Ocidental após ondas de calor na Europa
- riscos de cólera após ciclones em regiões costeiras
Desta forma, surgem números concretos que ajudam os ministérios da saúde a planear orçamentos e a fundamentar medidas. Quem consegue demonstrar que uma única tempestade provocou dezenas de milhares de casos adicionais de doença argumenta de forma muito diferente na política orçamental.
O que os leitores podem retirar daqui
Para muitas pessoas da Europa Central, a dengue continua a parecer um “problema tropical distante”. Mas há vários sinais que justificam uma atenção muito maior ao tema:
- As viagens fazem com que vírus atravessem continentes em cada vez menos tempo.
- Espécies de mosquitos como o mosquito-tigre asiático estão a espalhar-se cada vez mais para norte devido a invernos mais amenos e verões mais quentes.
- Os episódios de chuva intensa estão a aumentar, também na Alemanha, Áustria e Suíça.
Quem vive ou passa férias em regiões com mosquitos-tigre pode reduzir o risco com gestos simples:
- evitar ou tapar recipientes com água no jardim ou na varanda
- em zonas com muitos mosquitos, usar roupa comprida e clara e recorrer a repelentes
- instalar redes mosquiteiras nas janelas, sobretudo no quarto
- procurar aconselhamento médico cedo, em caso de febre após viagens para áreas com dengue
Ainda assim, a questão de fundo é política: quanto mais avança o aquecimento global, mais frequentemente tempestades, cheias e ondas de calor criam condições ideais para agentes patogénicos. O estudo do Peru mostra como esta relação pode ser medida com precisão - e retira argumentos a quem diz que não há nada a fazer.
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