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Selar a boca à noite: milhões fazem-no por causa do sono e das rugas - mas há riscos relevantes

Mulher sentada na cama a segurar comprimido, com máscara de descanso, estetoscópio e telemóvel na mesa à frente.

Especialistas em medicina do sono alertam para perigos que, em alguns casos, podem ser sérios.

Nas redes sociais está a espalhar-se um suposto “truque milagroso” para dormir melhor: colar a boca com fita antes de deitar, para obrigar o corpo a respirar pelo nariz. Influenciadores prometem pele mais fresca, menos mau hálito e um sono melhor. No entanto, novos dados da medicina do sono, juntamente com avisos claros de médicos, mostram um cenário bem mais preocupante.

O que está por trás da tendência de selar a boca

Na chamada selagem da boca, a boca é tapada com um penso ou com fita própria antes de adormecer. A lógica é simples: se a boca não puder abrir, a respiração passa automaticamente para o nariz. Em teoria, isso resolveria vários problemas ao mesmo tempo - desde o sono de má qualidade até questões dentárias.

A selagem da boca é vendida como um truque de bem-estar simples, mas, na realidade, é uma intervenção médica na forma de respirar - sem supervisão clínica.

Sobretudo no TikTok e no Instagram circulam milhares de vídeos com relatos de utilizadores sobre a sua experiência. Muitos apresentam o método como totalmente inofensivo, quase como um acessório de estilo de vida, tal como uma máscara de dormir.

O que os defensores prometem

Online repetem-se as mesmas alegações. Diz-se que a selagem da boca pode, entre outras coisas:

  • reduzir o mau hálito, porque a boca não seca durante a noite
  • melhorar a qualidade do sono, uma vez que a respiração nasal é considerada “mais saudável”
  • diminuir o risco de doenças das gengivas
  • ter efeitos anti-envelhecimento, porque o corpo supostamente recebe melhor oxigenação

Até agora, faltam provas científicas robustas para sustentar estas promessas. Existem relatos individuais, mas quase não há estudos bem concebidos com grupos alargados.

Porque é que os especialistas em sono olham para isto com tanta cautela

Os especialistas em medicina do sono alertam, acima de tudo, para o facto de muitas pessoas com apneia do sono ainda não diagnosticada experimentarem estas tendências. Na apneia obstrutiva do sono (AOS), as vias aéreas superiores colapsam repetidamente, a respiração interrompe-se por instantes e o nível de oxigénio desce.

Quem sofre de apneia do sono pode, com a boca tapada, estreitar ainda mais a passagem do ar - com consequências potencialmente perigosas.

Um especialista norte-americano em sono sublinha que quase não existem dados sobre benefícios, mas há vários riscos plausíveis. A sua recomendação é clara: quem ressona, acorda de manhã como se não tivesse dormido ou sente dificuldades de concentração deve procurar primeiro uma consulta de medicina do sono - e não recorrer a fita adesiva.

Riscos típicos da selagem da boca

  • Piora da respiração na apneia do sono: se a garganta já estiver estreitada, a boca fechada pode dificultar ainda mais o fluxo de ar.
  • Reações alérgicas: a cola e os materiais podem provocar irritação cutânea, eczema ou sensação de ardor em algumas pessoas.
  • Risco de asfixia e de pânico: se as fossas nasais estiverem obstruídas, a reserva de ar desaparece subitamente durante a noite - o que é especialmente problemático em caso de constipação ou alergia.

Acresce ainda o lado psicológico: algumas pessoas assustam-se quando, a meio da noite, percebem que já não conseguem abrir a boca. Isso pode desencadear ataques de pânico que perturbam o sono de forma duradoura.

Novo estudo: para quem a tendência ajuda - e para quem não ajuda

Um estudo recente, publicado na Biblioteca Nacional de Medicina, testou a selagem da boca em 66 doentes com apneia do sono diagnosticada. 12 pessoas foram excluídas da análise por apresentarem dados iniciais incompletos.

Como os investigadores procederam

  • Participantes: 66 pessoas com apneia obstrutiva do sono (54 foram incluídas na análise)
  • Método: comparação dos fluxos respiratórios durante o sono - uma vez com a boca aberta e outra com a boca fechada
  • Objetivo: avaliar se o fluxo de ar melhora ou piora com a boca selada durante a noite

Os resultados foram surpreendentemente desiguais. Alguns doentes beneficiaram, enquanto outros pioraram de forma evidente.

O que o estudo mostrou

  • Pessoas que já respiram sobretudo pelo nariz e que têm vias aéreas anatomicamente relativamente livres conseguiram, em alguns casos, um fluxo de ar ligeiramente melhor.
  • Indivíduos com chamadas estreitamentos velofaríngeos (estreitamentos na zona do palato mole e da faringe) registaram uma piora do fluxo respiratório.
  • No conjunto, observou-se um quadro muito heterogéneo - dependente da anatomia de cada pessoa e do tipo de obstrução das vias aéreas.

Os investigadores sublinham, por isso, que sem uma avaliação detalhada do nariz, da faringe e dos padrões respiratórios não é possível prever se a selagem da boca ajuda ou prejudica em cada caso.

Grupo Reação à selagem da boca
Pessoas que respiram sobretudo pelo nariz fluxo de ar por vezes ligeiramente melhor
Estreitamento na zona do palato-faringe respiração frequentemente pior
Anatomia pouco clara / formas mistas efeitos imprevisíveis

Quando recorrer à fita é especialmente arriscado

Existem várias situações em que os médicos desaconselham expressamente a selagem da boca:

  • apneia do sono conhecida ou suspeita
  • problemas de ressonar intensos
  • nariz cronicamente obstruído (por exemplo, pólipos nasais, desvio do septo nasal)
  • asma ou outras doenças das vias respiratórias
  • tendência para ataques de pânico ou sensação de aperto

Quem se revê nestes grupos não deve basear-se em sugestões das redes sociais. Em caso de dúvida, um problema de sono deve ser sempre avaliado por um médico - seja no médico de família, no otorrinolaringologista ou num laboratório do sono.

Higiene do sono saudável em vez da moda da fita

Muitas pessoas recorrem a estes atalhos porque estão simplesmente desesperadas: dormem mal, sentem-se cansadas e não sabem por onde começar. A boa notícia é que existem várias medidas bem mais estudadas e que dispensam qualquer fita adesiva.

Alternativas comprovadas para dormir melhor

  • Horários de sono consistentes: deitar-se e levantar-se, de preferência, à mesma hora todos os dias
  • Reduzir os ecrãs antes de dormir: largar o telemóvel e o computador portátil pelo menos meia hora antes de se deitar
  • Evitar álcool à noite: apesar de relaxar a curto prazo, piora o sono profundo e favorece o ressonar
  • Testar a posição de dormir: dormir de lado pode aliviar parcialmente o ressonar e as apneias
  • Perder peso, se existir obesidade significativa - um fator de risco central para a apneia do sono

Quem não melhorar com estas medidas precisa de uma investigação adequada. Só depois de se perceber onde está o problema é que se podem escolher terapias sérias - desde aparelhos intraorais e máscaras CPAP até cirurgia.

O que está por trás da febre da respiração nasal

A tendência assenta num fundo de verdade: a respiração nasal tem, de facto, algumas vantagens. O nariz humidifica, filtra e aquece o ar antes de este chegar aos pulmões. Isso pode proteger as mucosas e aliviar as vias respiratórias.

Muitas pessoas respiram pela boca durante o dia e à noite, por exemplo devido a um desvio do septo nasal ou a rinite crónica. Nestes casos, vale a pena uma avaliação por otorrinolaringologia. Se for possível melhorar a respiração nasal, os afetados beneficiam muitas vezes de um sono melhor - sem fita.

Quando faz sentido experimentar a selagem da boca

Um teste cuidadosamente planeado só poderá fazer sentido num contexto acompanhado por um médico, por exemplo num laboratório do sono ou após uma avaliação otorrinolaringológica detalhada. Aí, com equipamento de medição, é possível observar se o fluxo de ar melhora realmente.

Testar isto sozinho em casa, sobretudo quando há sintomas sem explicação, continua a ser arriscado. Isto é ainda mais verdade no caso das crianças - para elas, a selagem da boca não é, de forma alguma, uma opção.

Muitos especialistas em medicina do sono veem, por isso, esta tendência como sintoma de um problema maior: o sono é, de forma sistemática, subestimado na nossa sociedade. Quem está constantemente cansado, irritado ou com dificuldade de concentração não deve tapar isso com uma tira de fita, mas sim procurar as causas reais - desde o stress e os hábitos de ecrã até doenças concretas como a apneia do sono.

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