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O cansaço, e não a traição, é o verdadeiro inimigo dos casais de hoje.

Casal deitado na cama, de mãos dadas, rodeado de chá, livros, telefone e computador portátil.

A grande catástrofe romântica muitas vezes não acontece num quarto de hotel com uma terceira pessoa, mas de forma quase invisível no sofá - com o telemóvel na mão, uma série em fundo e duas pessoas que já só estão demasiado cansadas. Um inquérito recente feito nos EUA mostra que não é a traição, nem a falta de atração, mas o simples esgotamento que trava o desejo em inúmeros relacionamentos.

Quando o quarto passa a ser uma estação de recuperação

Segundo o estudo da Talker Research, encomendado pela fabricante de produtos íntimos LELO, cerca de 25 por cento dos casais inquiridos têm sexo apenas uma vez por mês ou menos. À primeira vista, parece um período prolongado de seca, mas isso é apenas uma parte da história. A maioria destas pessoas não diz: “Já não quero o meu parceiro.” Diz antes: “Já não consigo mesmo.”

O principal motivo para a quebra na cama não é a infidelidade, mas o cansaço.

38 por cento dos participantes apontam o esgotamento como o maior obstáculo à vida sexual - muito à frente de discussões, divergências ou da diminuição da atração. Falta energia, não sentimento.

Outros travões no dia a dia dos casais são:

  • libido diferente (29 por cento),
  • problemas de saúde (29 por cento),
  • stress profissional (27 por cento),
  • sobrecarga com a educação dos filhos (22 por cento),
  • tarefas domésticas e organização da rotina (20 por cento).

Em média, os casais relatam quatro encontros sexuais por mês, com uma duração de cerca de 18 minutos. Em termos numéricos, isso não parece dramático. O estudo sugere, porém, que a paixão muitas vezes não desaparece - simplesmente deixa de ter espaço, porque a bateria anda permanentemente no vermelho.

Menos sexo não significa automaticamente uma relação pior

O dado interessante é este: 71 por cento dos inquiridos continuam satisfeitos com a sua vida sexual, apesar dos obstáculos. Ao que tudo indica, muitos casais não avaliam a relação apenas pela frequência com que têm sexo, mas pela forma como se sentem no conjunto.

A satisfação é especialmente elevada entre os adultos mais novos: cerca de 82 por cento dos millennials descrevem a sua vida sexual como boa, ao passo que apenas 58 por cento dos baby boomers fazem uma avaliação tão positiva. Provavelmente, aqui cruzam-se vários fatores: expectativas diferentes, menos tabus e uma comunicação um pouco mais aberta.

Ainda assim, mantém-se uma ligação clara: quanto mais frequentemente os casais têm sexo, mais estável percecionam a relação. No grupo que tem relações sexuais pelo menos oito vezes por mês, 56 por cento descrevem a parceria como “muito forte”. Entre os que têm sexo apenas uma vez por mês ou menos, esse valor desce para 26 por cento.

O sexo não é uma garantia de uma relação feliz - mas funciona como um termómetro da proximidade e da ligação.

A intimidade no casal começa muito antes de tirar a roupa

O relatório mostra isso com clareza: quem se sente próximo no quotidiano tem mais probabilidade de acabar na cama. A erotização raramente nasce do nada; vai sendo construída por muitos pequenos momentos que acontecem durante o dia.

Os casais com vida sexual mais ativa também dedicam mais tempo a dois noutras alturas. Segundo o estudo, saem em média 3,5 vezes por mês para um encontro - ir jantar fora, ao cinema, dar um passeio, tanto faz. Os casais com pouca atividade sexual chegam apenas a cerca de 1,2 encontros por mês. Quem nunca sai conscientemente da rotina difícilmente entra num estado de espírito mais erótico.

Também é interessante olhar para a comunicação digital. Nos casais com uma vida amorosa ativa, 35 por cento enviam mensagens “constantemente” - pequenas atualizações, piadas, uma fotografia pelo caminho. Nas relações com sexo raro, esse valor é apenas 9 por cento.

  • enviar mensagens com frequência transmite: “Estou a pensar em ti”
  • os encontros a dois criam experiências positivas fora do stress do dia a dia
  • pequenos gestos mantêm o flirt vivo, mesmo depois de muitos anos

O desejo, por isso, não surge do nada. Cresce da atenção, do humor, da familiaridade - e da sensação de ser visto.

O assassino silencioso do desejo: o esgotamento

A tudo isto junta-se um problema geral do nosso tempo: o stress permanente. A pressão no trabalho, a disponibilidade constante, as deslocações, os filhos, a casa, as redes sociais - o sistema nervoso fica muitas vezes em estado de alarme contínuo. Quando o corpo finalmente abranda à noite, quer sobretudo uma coisa: descanso.

Investigação, entre outros estudos publicados no Journal of Sex Research, mostra que o cansaço crónico afeta diretamente a libido. Os níveis hormonais alteram-se, a cabeça fica cheia de listas de tarefas em vez de fantasias. O sexo exige presença, atenção e um mínimo de calma interior - precisamente o que falta a muita gente na corrida diária.

O mito do desejo espontâneo e sempre disponível encaixa mal numa vida em que as pessoas já chegam aos seus limites a meio do dia.

O desejo sexual nasce muitas vezes de forma “reativa”: o corpo responde à ternura, à proximidade e ao contacto relaxado, em vez de surgir de repente um impulso avassalador vindo de dentro. Para isso, porém, é necessário um enquadramento que permita mesmo relaxar - e isso começa com sono e alívio de carga.

O que os casais podem fazer, na prática, contra a armadilha do esgotamento

Terapeutas de casal e de sexualidade aconselham a não entrar em pânico quando a vida íntima abranda durante algum tempo. Muito mais útil é olhar para a situação com pragmatismo: onde é que a rotina está a roubar tanta energia que já não sobra nada para a intimidade?

Estas estratégias atacam os pontos de stress mais comuns:

  • Mudar horários: quem à noite só tem energia para cair na cama pode levar a proximidade para a manhã - ao fim de semana, em teletrabalho ou numa pausa de almoço tranquila.
  • Repartir melhor o peso: distribuir de forma mais justa as tarefas domésticas e a organização para reduzir sobretudo a sobrecarga mental.
  • Retirar pressão: planear tempo a dois sem que isso signifique automaticamente “agora temos de ter sexo”. Primeiro a proximidade; a erotização pode vir a seguir, mas não tem de vir.
  • Criar rituais: uma noite fixa para o casal, uma série em conjunto, um passeio depois do jantar - pequenos hábitos dão consistência à relação.

Muitos casais sentem alívio assim que deixam para trás ideias rígidas do tipo “duas vezes por semana é o normal”. A pergunta mais útil é outra: a nossa proximidade parece-nos certa? Conseguimos dizer o que nos falta sem medo de dramatizar?

Quando menos desejo começa de repente a assustar

Sobretudo quando a vida sexual muda, surgem rapidamente inseguranças. O meu parceiro continua interessado? Fui eu que fiz algo mal? Será que há mesmo uma terceira pessoa envolvida? Estes pensamentos são humanos, mas alimentam precisamente a pressão que depois bloqueia ainda mais o desejo.

Uma cultura de diálogo aberta e sem acusações ajuda a evitar mal-entendidos. Em vez de “Já não me queres”, é melhor dizer: “Sinto falta da nossa proximidade, queria perceber o que se passa contigo.” Assim, o cansaço aparece como aquilo que muitas vezes é: um sintoma das circunstâncias de vida, não uma avaliação da relação.

Se alguém notar que por trás do esgotamento existe algo mais - como estados depressivos, queixas físicas ou conflitos intensos - deve considerar aconselhamento médico ou apoio terapêutico. Isso também pode aliviar a relação a longo prazo.

Como uma pequena atualização de energia pode mudar a relação

É interessante perceber como alterações pequenas podem ter efeitos tão grandes. Um ritmo de sono melhor organizado, menos horas extra, uma noite livre sem ter de cuidar das crianças - tudo isto pode devolver de repente aos casais espaço para a ternura. De “não tenho energia” passa-se para “talvez hoje até dê”.

Na prática, isto pode significar, por exemplo:

  • uma noite fixa por semana sem telemóvel, para desligar mentalmente,
  • ir dormir mais cedo em conjunto, em vez de ficar separado perante ecrãs,
  • trocar a guarda das crianças com amigos ou família para criar tempo regular a dois,
  • planear conscientemente domingos lentos, sem compromissos.

Quando o corpo volta a ter mais reservas, a forma como o parceiro é percebido também muda. De repente, um toque deixa de parecer uma exigência adicional e volta a ser aquilo que deveria ser: um convite à proximidade.

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