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Cuidar e trabalhar ao mesmo tempo: um quinto dos adultos está envolvido

Mulher e criança sentados numa mesa a trabalhar num computador portátil numa cozinha iluminada.

Quem se destaca durante o dia no escritório ou consegue manter o ritmo em teletrabalho pode, ao cair da noite, ainda preparar papas para a mãe com demência, organizar a medicação do companheiro doente ou acompanhar uma criança com doença crónica à clínica. Estas pessoas são conhecidas como “familiares cuidadores” ou “cuidadores que trabalham” - e são muito mais numerosas do que muitos imaginam. Novos dados provenientes de França traçam um retrato que, na Alemanha, aponta para uma realidade muito semelhante: a dupla função discreta está a transformar-se num fenómeno de massas, com impacto na saúde, nas finanças e na carreira.

Cuidar e trabalhar em simultâneo: um quinto dos adultos é afetado

A análise do inquérito francês mostra que cerca de um em cada cinco adultos presta, neste momento, cuidados regulares a uma pessoa próxima com doença, incapacidade ou fragilidade associada à idade. No mundo do trabalho, isso corresponde a cerca de cinco milhões de pessoas empregadas, ou seja, pouco mais de sete por cento da população total.

Este apoio está longe de ser apenas “ajudar de vez em quando”. Muitas destas pessoas ocupam-se de:

  • pais idosos com necessidade de assistência;
  • companheiras ou companheiros com doenças crónicas;
  • filhos com deficiência ou doença prolongada;
  • avós ou outros familiares que já não conseguem gerir o dia a dia sozinhos.

Em mais de um terço dos casos, os trabalhadores assumem a responsabilidade por vários familiares ao mesmo tempo. Quem cuida “apenas” de uma pessoa ajuda, na maioria das vezes, os próprios pais. A seguir surgem os cônjuges ou parceiros e os filhos.

A maioria de quem presta ajuda dedica pelo menos seis horas por semana a cuidados, organização e deslocações - para além do emprego habitual.

Quase dois em cada três inquiridos dizem investir seis horas semanais ou mais no apoio. Em pouco mais de um quinto, o tempo ultrapassa as vinte horas - praticamente um segundo trabalho a meio tempo, muitas vezes sem reconhecimento, sem remuneração e com total carga emocional.

Geração sanduíche: cuidar de pais e filhos sob pressão contínua

O impacto mais duro sente-se sobretudo entre os 45 e os 55 anos. Quem presta cuidados aos próprios pais tem frequentemente, ao mesmo tempo, filhos em casa. Esta “geração sanduíche” fica presa à responsabilidade de ambos os lados: acima, os pais a envelhecer; abaixo, os filhos ainda não independentes; entre os dois, a entidade patronal e as suas exigências.

O resultado é stress permanente: escola, emprego, consultas médicas, pedidos de avaliação de dependência, organização de ajuda domiciliária - a agenda rebenta pelas costuras, as noites ficam mais curtas e a cabeça nunca desliga. Erros no trabalho, cansaço excessivo e problemas de saúde tornam-se, mais cedo ou mais tarde, praticamente inevitáveis.

Quando a dupla função trava a carreira

Prestar cuidados em paralelo com o emprego não passa sem consequências no dia a dia profissional. No inquérito, mais de metade dos trabalhadores cuidadores relata fases em que esteve menos disponível ou menos produtivo. Muitos continuam a fazer o seu trabalho - mas com muito mais tensão, desgaste e maior risco de erro.

Entre os efeitos concretos no emprego contam-se, por exemplo:

  • atrasos mais frequentes ou faltas inesperadas;
  • recurso reforçado ao teletrabalho;
  • redução do horário de trabalho;
  • adiamento ou recusa de promoções e novos projetos.

Cerca de um quinto dos afetados diminuiu o seu horário, em alguns casos apenas temporariamente, noutros de forma permanente. Quase tantos renunciaram deliberadamente a uma oportunidade profissional - por receio de não conseguirem lidar com a carga extra ou de descuidarem o familiar.

Por trás de alguma “falta de evolução” no percurso profissional não está preguiça, mas sim responsabilidade de cuidar - e a tentativa de não entrar em exaustão total.

Ao mesmo tempo, as finanças costumam piorar: despesas adicionais com deslocações, medicamentos, ajudas técnicas ou apoio doméstico acumulam-se sobre um rendimento menor, porque desaparecem horas extraordinárias, os prémios encolhem ou o número de horas é reduzido. No levantamento francês, quase 60 por cento dos trabalhadores cuidadores sentem um acréscimo financeiro claramente pesado.

Porque é que tantas pessoas se mantêm em silêncio no trabalho

Apesar de tudo isto, a maioria continua calada. Nem quatro em cada dez trabalhadores cuidadores dizem abertamente, no emprego, em que situação vivem. A grande maioria tenta suportar sozinha a pressão de conciliar tudo.

As principais razões para o silêncio

Quem esconde o facto de cuidar de um familiar fá-lo, em regra, por vários motivos ao mesmo tempo:

  • vontade de separar rigorosamente a vida profissional da vida privada;
  • sensação de não ser “um caso de cuidados a sério” e de não ter legitimidade para reclamar;
  • falta de conhecimento sobre direitos, medidas de apoio e ofertas da empresa;
  • receio de prejuízos no salário, na carreira ou na atribuição de projetos;
  • medo de ser visto como menos resistente ou menos leal.

Muitos afetados dizem para si próprios: enquanto for possível, não falo sobre isto. Só quando a situação já está totalmente fora de controlo, quando o cansaço se torna visível ou as faltas aumentam, é que o tema pode vir à conversa - muitas vezes demasiado tarde.

A maioria silenciosa dos trabalhadores cuidadores arrasta-se pelo dia a dia - por lealdade para com a entidade patronal e por sentido de dever em relação aos familiares.

O que as empresas teriam agora de mudar

Os números franceses deixam clara a expectativa: uma grande parte dos afetados quer regras vinculativas nas empresas que protejam e aliviem quem cuida. Não se trata apenas de programas de bem-estar, mas de condições de trabalho concretas.

Medidas procuradas no local de trabalho

Os trabalhadores cuidadores consideram especialmente importantes, por exemplo:

  • modelos de horário flexíveis e acesso mais fácil ao teletrabalho;
  • dias adicionais de dispensa ou bolsas de horas para situações de cuidado;
  • possibilidade de passar temporariamente a tempo parcial sem penalização na carreira;
  • uma pessoa de contacto confidencial na empresa;
  • apoio psicológico ou acompanhamento de coaching para aliviar a pressão;
  • informação sobre apoios externos e ajudas financeiras.

O que se pede, acima de tudo, é um enquadramento claro: quem cuida deve poder falar sem estigma e sem medo de consequências negativas. A confidencialidade tem um peso decisivo, tal como regras transparentes em vez de soluções improvisadas caso a caso, ditadas pela simpatia.

O que os trabalhadores em Portugal podem retirar desta realidade

Também em Portugal a pressão está a aumentar: a sociedade envelhece, faltam profissionais de saúde e cada vez mais responsabilidade regressa às famílias. Isso faz crescer, inevitavelmente, o número de pessoas que cuidam de familiares ao mesmo tempo que mantêm o seu emprego.

Quem já vive esta situação pode dar alguns passos concretos:

  • verificar quais os direitos legais existentes (licença para assistência a familiar, medidas de apoio familiar, direitos de dispensa);
  • pedir internamente informações sobre acordos de empresa ou dados do comité de trabalhadores dirigidos a cuidadores;
  • falar cedo com a chefia, antes de a situação se agravar;
  • exigir combinações claras, por exemplo sobre disponibilidade, substituição e horário;
  • recorrer a apoio externo: estruturas de apoio ao cuidador, serviços de aconselhamento, grupos de entreajuda.

Ao mesmo tempo, vale a pena que as empresas observem a situação com mais atenção: quem chega habitualmente mais tarde, faz chamadas com frequência ou, de repente, abdica de projetos, não tem necessariamente baixo desempenho - pode estar, sim, a correr todos os dias para o hospital depois do trabalho ou a ajudar um familiar a lavar-se.

Familiares cuidadores: grupo de risco e, ao mesmo tempo, recurso

As pessoas que tentam conciliar emprego e cuidados vivem perto do limite da sobrecarga. Têm maior risco de depressão, perturbações do sono, doenças físicas e dificuldades financeiras. Nessa realidade, falar em esgotamento não é exagero, mas um cenário muito concreto.

Ao mesmo tempo, estes trabalhadores trazem competências que as empresas precisam com urgência: capacidade de organização, resistência à crise, empatia e sentido de responsabilidade. Quem lida diariamente com emergências na vida privada tende muitas vezes a manter a calma e a procurar soluções mesmo sob forte pressão.

Por isso, uma regra justa beneficia ambos os lados: os familiares cuidadores conseguem manter-se mais tempo saudáveis no emprego, as empresas perdem menos talento e asseguram colaboradores leais - pessoas que já provaram que sabem assumir responsabilidades, mesmo quando ninguém está a olhar.

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