As baleias cinzentas são conhecidas por uma das maiores migrações da Terra. Todos os anos, percorrem milhares de quilómetros entre as águas frias e ricas em alimento do Árctico e as lagoas quentes da Baja, no México, onde se reproduzem e dão à luz.
Durante décadas, esta rota manteve-se quase inalterada. Agora, porém, algo está a mudar. Estas baleias estão a surgir em locais que raramente visitavam antes, incluindo as movimentadas águas da Baía de São Francisco.
Não se trata de um desvio ocasional. A mudança sugere um problema mais profundo a desenvolver-se no oceano.
Uma paragem das baleias cinzentas que traz risco
A Baía de São Francisco não foi feita para baleias. Navios de carga, ferries e embarcações mais pequenas atravessam-na todos os dias.
O Estreito de Golden Gate canaliza todo esse tráfego por uma passagem estreita, criando um corredor apertado e congestionado. Isso torna a vida perigosa para animais que dependem de águas calmas e abertas.
"Gray whales have a low profile to the water when they surface, and this makes them difficult to see in conditions like fog which are common to San Francisco Bay," explicou Josephine Slaathaug, da Sonoma State University, autora principal do artigo publicado em Frontiers in Marine Science.
"Additionally, San Francisco Bay is a highly trafficked waterway, and the Golden Gate Strait serves as a bottleneck through which all traffic and whales must enter and exit."
Porque é que as baleias estão a mudar de trajecto
As baleias cinzentas costumam seguir uma rotina simples. Alimentam-se intensamente nas águas do Árctico, armazenando energia suficiente para aguentar a migração e a reprodução. Não se espera que comam muito pelo caminho.
Esse sistema está a desmoronar-se. As alterações climáticas estão a transformar os ecossistemas do Árctico, reduzindo a disponibilidade dos pequenos organismos de que as baleias dependem.
À medida que o alimento se torna mais difícil de encontrar, as baleias chegam às rotas migratórias já enfraquecidas.
Os números mostram a pressão. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) refere que a população de baleia cinzenta caiu mais de 50% desde 2016. As crias estão a tornar-se raras.
Algumas baleias parecem estar a adaptar-se, parando em novos locais para se alimentarem. A Baía de São Francisco pode ser uma dessas paragens de emergência.
A rastrear as “Bay Grays”
Os investigadores quiseram perceber o que se passava dentro da baía. Reuniram dados de 2018 a 2025, juntando levantamentos formais com fotografias tiradas por pessoas comuns.
Cada baleia foi identificada através de marcas únicas na pele.
Ao longo desse período, a equipa registou 114 baleias individuais a entrar na baía. A maior parte não regressou. Apenas quatro foram avistadas em vários anos.
Este padrão sugere que a baía não é um destino habitual. Pode funcionar como uma paragem de curta duração para baleias em más condições, a tentar encontrar alimento onde quer que consigam.
Um custo elevado para uma visita curta
O desfecho para muitas destas baleias é sombrio. Entre 2018 e 2025, foram encontradas 70 baleias cinzentas mortas na área local. Trinta foram confirmadas como tendo sido atingidas por embarcações. Outras morreram por desnutrição.
Das 45 baleias que poderiam potencialmente ser identificadas, os cientistas associaram 21 ao catálogo das baleias vistas a entrar na baía. Essa ligação ajudou a revelar o quão arriscada a área se tornou.
"Pelo menos 18% dos indivíduos identificados na Baía de São Francisco morreram posteriormente na área", disse Bekah Lane, do Center for Coastal Studies.
"A nossa análise mais ampla de encalhes locais, tanto dentro como fora da Baía de São Francisco, concluiu que mais de 40% destas baleias morreram devido a trauma provocado por embarcações."
As baleias famintas podem enfrentar perigo ainda maior. Um animal mais fraco pode não reagir com rapidez suficiente para evitar um navio em movimento.
Uma preocupação em crescimento
O número de baleias a entrar na baía não abrandou. Só em 2025, foram registadas 36 baleias, por vezes em grupos com mais de 10 ao mesmo tempo.
Os cientistas continuam a tentar perceber o que está por trás destes movimentos. Ainda não é claro quanto tempo as baleias ficam, com que frequência se alimentam ou como a sua condição muda durante estas visitas.
"Este estudo é a nossa melhor análise dos dados que recolhemos, mas é importante considerar que não temos o quadro completo dos movimentos de cada baleia numa escala temporal diária", disse Slaathaug.
"Estes resultados são uma peça importante do puzzle maior sobre o que está a acontecer na população global, à medida que tentam adaptar-se às alterações climáticas em tempo real."
O que pode ser feito
"Na Baía de São Francisco, a maior ameaça para estas baleias é o tráfego de embarcações", disse Lane. "A monitorização contínua ajudará a esclarecer os seus padrões de distribuição e comportamentos enquanto estiverem na Baía, o que pode influenciar o risco."
"Alterações nas rotas e restrições de velocidade têm demonstrado reduzir significativamente a mortalidade por colisão de embarcações em grandes baleias, e uma avaliação do risco pode ajudar a identificar as estratégias mais eficazes para proteger estes animais."
Medidas como reduzir a velocidade dos navios, ajustar rotas de ferries e aumentar a sensibilização entre os operadores poderiam fazer diferença.
Uma monitorização mais detalhada e a análise de baleias encalhadas também poderiam clarificar de que forma a fome e as colisões interagem.
Para já, a presença de baleias cinzentas na Baía de São Francisco conta uma história simples. O oceano de que estas baleias dependem está a mudar, e elas estão a tentar acompanhar essa mudança.
O estudo completo foi publicado na revista Frontiers in Marine Science.
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