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O que a tua maquilhagem revela sobre o teu lado mais sombrio

Mulher jovem a aplicar maquilhagem com pincel, sentada em frente a um espelho numa mesa de maquilhagem.

Muita gente pensa que a maquilhagem é apenas uma questão de moda - mas vários estudos sugerem que o teu estilo de maquilhagem diz mais sobre a tua personalidade do que talvez te agrade admitir.

Seja um visual nude, lábios vermelho-vivo ou um delineador marcante: a forma como te maquilhas vai muito além do gosto pessoal ou das tendências do TikTok. Uma investigação psicológica recente indica que a maquilhagem está associada a certos traços de caráter - incluindo alguns dos lados mais escuros e menos simpáticos da personalidade.

Porque é que os investigadores querem agora estudar a tua rotina de maquilhagem

A maquilhagem acompanha-nos ao longo de diferentes fases da vida e de várias modas. Ainda assim, sobra uma pergunta intrigante: porque é que duas mulheres da mesma idade, no mesmo ambiente, se maquilham de maneiras tão distintas? Uma quase nunca usa maquilhagem; a outra não sai de casa sem base, contorno facial e pestanas postiças.

Uma equipa internacional quis perceber se por trás disso havia mais do que tendências, referências e profissão. Num grande estudo online com 1410 mulheres do Brasil, os cientistas juntaram testes clássicos de personalidade a perguntas muito concretas sobre a rotina de maquilhagem - e sobre as situações em que se usa muito ou pouco produto.

"A ideia é esta: se a personalidade orienta o nosso comportamento, então também deverá aparecer no modo como nos maquilhamos - sobretudo nos contextos em que a imagem passada aos outros conta."

Foram avaliados dois modelos bem conhecidos: os “Big Five” (extroversão, amabilidade, conscienciosidade, abertura e estabilidade emocional) e a chamada tríade negra, formada por narcisismo, maquiavelismo e psicopatia.

Maquilho-me de forma diferente quando estou sozinha?

Um resultado foi pouco surpreendente, mas claramente mensurável: a maior parte das participantes usava menos maquilhagem quando estava sozinha - em casa, sem visitas, sem videochamada. Quanto mais social era a situação, maior era a tendência para recorrer a corretor, máscara de pestanas e afins.

O que se tornou mais interessante foi a comparação entre contextos. As mulheres disseram com particular frequência que usavam muito mais maquilhagem nestes momentos:

  • no primeiro encontro
  • em compromissos profissionais importantes ou entrevistas de emprego
  • em festas e eventos maiores
  • quando conhecem pessoas novas

O primeiro encontro destacou-se mesmo como uma espécie de “zona de alto risco” da maquilhagem: aí, a aplicação era especialmente reforçada - ao que tudo indica, porque a primeira impressão tem de sair logo certa.

A tríade negra: narcisismo, maquiavelismo e psicopatia

A tríade negra reúne três traços de personalidade particularmente desagradáveis:

Traço Descrição central
Narcisismo forte desejo de admiração, foco na própria imagem para o exterior
Maquiavelismo comportamento calculista e manipulador, uso estratégico dos meios disponíveis
Psicopatia impulsividade, pouca empatia, pouco interesse por regras sociais

O estudo analisou até que ponto estes traços se ligavam a determinados padrões de maquilhagem - isto é, com que frequência, com que intensidade e em que situações a maquilhagem era usada.

O que muita maquilhagem pode revelar sobre o narcisismo

As mulheres com pontuações elevadas em narcisismo sobressaíram de forma clara. Tinham tendência para:

  • dedicar mais tempo ao seu visual,
  • maquilhar-se com maior frequência,
  • gastar significativamente mais dinheiro em cosmética decorativa,
  • ajustar a maquilhagem de propósito consoante a ocasião.

"Quem tem uma forte inclinação narcisista usa a maquilhagem como se fosse um palco: ela deve atrair olhares, impressionar e alimentar o ego."

Sobretudo quando conheciam pessoas novas ou quando um bom primeiro impacto era decisivo, estas mulheres reforçavam o visual de forma visível. A maquilhagem torna-se, assim, uma estratégia para obter validação e atenção.

Extrovertida? Então a maquilhagem vira um cartão de visita

As pessoas extrovertidas, ou seja, muito abertas e sociáveis, também disseram investir mais dinheiro em maquilhagem. Nelas, o objetivo principal não era tanto a admiração pura, mas antes outra intenção: expressão.

Usam a maquilhagem para mostrar a personalidade, tornar o estado de espírito visível e sentirem-se com mais confiança. A diferença em relação às narcisistas é que estas mulheres ajustam menos a maquilhagem ao contexto. Quem é extrovertida tende a maquilhar-se mais “de acordo com o interior” - com o humor do momento - e menos “de acordo com o exterior” - para agradar a quem observa.

Psicopatia: menos maquilhagem, rotina mais estável

Também aqui a psicopatia mostrou uma relação clara, mas no sentido oposto: as mulheres com valores altos neste traço usavam, no geral, menos maquilhagem e mantinham hábitos surpreendentemente estáveis.

Mudavam muito menos o visual consoante a ocasião, ou seja, tinham menor disposição para se adaptar visualmente às expectativas alheias. Isso encaixa na imagem de pessoas para quem a opinião dos outros é, muitas vezes, simplesmente indiferente.

Quando a insegurança guia o pincel: personalidades neuróticas e maquilhagem

Outro resultado interessante diz respeito ao chamado neuroticismo - ou seja, uma tendência para instabilidade emocional, nervosismo e ansiedade. As mulheres com valores mais elevados nesta dimensão também recorriam à maquilhagem de forma muito dependente da situação.

"Maquilham-se muito mais assim que deixam de estar sozinhas - e a maquilhagem passa então a funcionar como uma armadura contra a insegurança."

Na presença de outras pessoas, a maquilhagem parece funcionar como uma espécie de controlo: é possível definir o que fica visível e o que fica escondido. Pequenas imperfeições podem ser disfarçadas, a tez parece mais calma, os lábios mais definidos - e isso dá a muitas pessoas uma sensação de segurança.

Aqui, o foco não é tanto brilhar, mas sim evitar chamar atenção pela negativa. A maquilhagem funciona como uma camada protetora entre a insegurança interior e o olhar exterior.

O que o teu estilo de maquilhagem não revela

Apesar de todas estas ligações interessantes, é importante ter cautela: nenhum tom de batom e nenhum traço de delineador permite chegar a um diagnóstico claro. O estudo mostra tendências num grupo grande, não regras fixas para indivíduos.

Um visual mais vistoso também pode ser apenas gosto por cor e estética. Um estilo mais natural pode resultar de comodidade, problemas de pele ou falta de tempo - e não de estabilidade psicológica ou de indiferença.

Há ainda outro ponto: a investigação foi feita no Brasil, um país com normas de beleza e influências culturais próprias. Na Alemanha, na Áustria ou na Suíça, os padrões podem alterar-se, mesmo que as tendências de base se mantenham parecidas.

Como podes usar estas conclusões a teu favor

A parte mais útil da investigação surge quando a usamos para refletir sobre o nosso comportamento ao espelho. Três perguntas podem ajudar:

  • Quando é que me maquilho muito mais - e para quem, na verdade?
  • Sinto-me desconfortável sem maquilhagem, ou isso é apenas hábito?
  • Uso a maquilhagem para me expressar ou para esconder alguma coisa?

Quem perceber que quase já não sai de casa sem maquilhagem pode experimentar, de forma consciente, ir para situações inofensivas com um visual leve ou mesmo sem maquilhagem - por exemplo, à padaria ou num passeio. Só estes pequenos testes mostram rapidamente até que ponto o próprio visual tem poder sobre a autoestima.

Quando a maquilhagem se torna um fardo

Na maioria dos casos, a maquilhagem continua a ser um tema lúdico ou estético. O problema aparece quando surge uma sensação de obrigação: nenhuma videochamada sem filtro, nenhuma ida ao lixo sem base, pânico quando a máscara de pestanas favorita acaba.

Aqui vale a pena olhar com mais atenção para a própria imagem de si. Muitas vezes, estes padrões estão ligados a ideais de redes sociais, à pressão da comparação e a feridas antigas. Quem percebe que a vergonha e o medo de ser avaliado dominam o dia a dia pode beneficiar de uma conversa com amigos ou até com um profissional de saúde mental.

Ao mesmo tempo, a maquilhagem pode ser uma peça importante de autonomia para muitas pessoas - por exemplo, para quem tem acne, cicatrizes ou passou por intervenções médicas. Nesses casos, ajuda a reforçar a sensação de controlo sobre a própria aparência, o que pode ser muito valioso para o bem-estar psicológico.

No fim, o estudo mostra sobretudo uma coisa: a maquilhagem nunca é apenas cor no rosto. É um diálogo silencioso com a própria personalidade - por vezes alto, por vezes baixo, por vezes claro, por vezes escuro. Quem conduz esse diálogo de forma consciente, em vez de apenas aplicar produto por automatismo, acaba muitas vezes por aprender mais sobre si do que em qualquer teste de personalidade.

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