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O que há de diferente no cérebro dos psicopatas: cientistas identificam estrutura cerebral invulgar.

Cientista analisa imagens cerebrais coloridas num ecrã em laboratório com modelos de cérebro e equipamentos médicos.

Os neuropsicólogos espanhóis detetaram alterações marcantes no cérebro de homens com traços psicopáticos muito acentuados. Em especial, a camada externa da substância cinzenta, o chamado córtex, apresenta em certas zonas uma espessura inferior à de outras pessoas. Isso poderá ajudar a explicar por que razão alguns indivíduos quase não sentem compaixão, reagem com agressividade de forma súbita e ignoram as regras sociais de forma persistente.

Psicopatia: quando a empatia falha de forma duradoura

A psicopatia é considerada uma perturbação grave da personalidade. Quem a apresenta revela uma forte ausência de empatia, usa os outros de maneira deliberada e, depois de causar danos, sente quase nenhuns remorsos. Muitos parecem superficialmente encantadores, mas, no fundo, são extremamente frios.

Os especialistas apontam vários fatores em simultâneo. Uma infância dura e marcada pela violência, a ausência de limites na educação e a negligência crónica podem contribuir para o quadro. Em paralelo, a investigação olha cada vez mais para as bases biológicas, sobretudo para a estrutura e o funcionamento do cérebro.

É precisamente aí que entra a equipa liderada pelo neuropsicólogo espanhol Ángel Romero-Martínez. Os investigadores tinham já analisado mais de vinte estudos e encontrado indícios de três regiões cerebrais particularmente importantes: os lobos frontais, as zonas temporais e os lobos parietais. Estas áreas regulam o pensamento, os sentimentos, o planeamento e o processamento das sensações.

Uma estrutura alterada destas regiões cerebrais poderá explicar por que motivo algumas pessoas agem de forma permanentemente fria, sem consideração pelos outros e impulsiva.

Estudo com homens condenados por violência na relação

Como a psicopatia é vista como um fator de risco claro para comportamentos brutais, os investigadores escolheram um grupo onde estes traços surgem com especial frequência: homens condenados por violência na relação. O objetivo era perceber se nestes participantes seria possível identificar padrões típicos no cérebro.

No total, participaram 125 homens:

  • 67 homens condenados por violência na relação
  • 58 homens sem atos violentos conhecidos como grupo de controlo
  • Teste padronizado de psicopatia PCL-R com entrevista de 45 minutos
  • Recolha da idade, nível de escolaridade e consumo de drogas
  • Ressonância magnética (RM) com software específico para medir a espessura do córtex

O PCL-R é considerado o padrão de ouro para avaliar características psicopáticas. Nesse teste são observados, entre outros aspetos, a ausência de remorsos, a tendência para mentir, o comportamento manipulador e a impulsividade intensa. A intensidade destes elementos é depois convertida numa pontuação global.

A RM destinava-se a revelar particularidades estruturais. Um programa informático analisou a espessura do córtex em muitas pequenas sub-regiões do cérebro. Assim, tornou-se possível verificar se existia relação entre o grau de traços psicopáticos e a constituição da camada cerebral externa.

O que os investigadores encontraram no cérebro

O resultado foi claro: quanto mais elevado era o resultado em psicopatia, mais fino se mostrava o córtex numa rede de áreas frontais, temporais e parietais - independentemente de o homem já ter sido violento ou não. Por outras palavras, a arquitetura cerebral específica parecia estar mais ligada aos traços de personalidade do que ao crime cometido.

Estas regiões estão associadas a funções essenciais:

Região Funções principais
Áreas frontais (lobos frontais) Planeamento, controlo dos impulsos, avaliação moral
Áreas temporais (lobos temporais) Processamento da linguagem, reconhecimento de rostos e emoções
Áreas parietais (lobos parietais) Integração de estímulos sensoriais, orientação espacial, controlo da atenção
Ínsula Perceção corporal, empatia, avaliação de sentimentos como agradáveis ou ameaçadores

Quando o córtex é mais fino nestas zonas, isso parece estar associado a menor capacidade de empatia, maior frieza emocional e mais propensão para violar regras. Os afetados aparentam ter mais dificuldade em travar internamente atos que prejudiquem outras pessoas.

Pessoas com traços psicopáticos muito fortes percebem o que fazem - só que atribuem a isso muito menos peso como problema moral.

Psicopatia e hemisférios cerebrais: fragilidades diferentes

A análise mostrou ainda que os dois hemisférios apresentam focos distintos. No hemisfério esquerdo, as diferenças na substância cinzenta relacionam-se mais com decisões racionais. Quando o córtex é mais fino nessa zona, os participantes tendem a agir de forma arriscada, mal planeada e com explosões súbitas.

No lado direito do cérebro, as alterações parecem estar mais ligadas às emoções. Uma espessura reduzida aí estava associada a sentimentos mais atenuados, menor medo de castigo e a uma quebra acentuada da capacidade de empatia.

Os investigadores consideraram especialmente interessante o papel da ínsula. Esta região, escondida nas profundezas do cérebro, ajuda a ligar as sensações corporais próprias aos sentimentos de outras pessoas. Quem “sente” a dor de alguém recorre precisamente a esta área. Quando a ínsula era mais fina, os participantes tinham claramente mais dificuldade em colocar-se no lugar dos outros.

O que o córtex mais fino significa para o dia a dia

Para psicólogas e psicólogos forenses, estes resultados podem vir a ser decisivos. Isto porque sugerem que os testes psicológicos e as imagens cerebrais podem ser combinados com utilidade. Dessa forma, as especialistas poderão fazer previsões mais precisas sobre o grau de perigosidade.

Ainda assim, não se pode concluir automaticamente que uma imagem de RM anómala anuncia um crime iminente. Um córtex mais fino aumenta provavelmente apenas a probabilidade de determinados padrões de comportamento. Se isso acaba ou não em violência depende muito do ambiente, da educação, dos contactos sociais e do consumo de substâncias.

Para familiares ou parceiras de pessoas com estes traços, este conhecimento pode, mesmo assim, ser útil. Não elimina o medo, mas ajuda a compreender melhor por que razão a noção de culpa e o arrependimento muitas vezes não aparecem - mesmo depois de quebras graves de confiança ou de episódios de violência.

Explicações de conceitos centrais

  • Córtex: camada externa do cérebro, composta por substância cinzenta. É aí que se encontram neurónios que processam informação.
  • Substância cinzenta: tecido formado sobretudo por corpos celulares de neurónios, responsável por calcular e avaliar sinais.
  • Psicopatia: perturbação da personalidade marcada por frieza, falta de empatia, forte impulsividade e ausência de culpa.
  • PCL-R: questionário padronizado usado por especialistas para avaliar o grau de traços psicopáticos.
  • Empatia: capacidade de perceber os sentimentos de outras pessoas, senti-los de forma vicária e reagir adequadamente.

Que oportunidades e riscos a nova investigação sobre psicopatia traz

O estudo, publicado na revista científica “Agressão e Comportamento Violento”, mostra de forma clara que a biologia desempenha um papel relevante na psicopatia. Isso abre perspetivas para melhorar a prevenção, mas também levanta questões delicadas. Com que antecedência se deve procurar estes padrões? E como evitar que alguém seja estigmatizado apenas por causa de uma imagem cerebral?

Seria possível, por exemplo, analisar com maior detalhe grupos em risco - como jovens autores de delitos graves - e desenvolver programas de treino específicos. Exercícios de reconhecimento emocional, controlo dos impulsos e adoção da perspetiva do outro podem começar a atuar antes de se fixar um padrão rígido de comportamento frio e sem consideração pelos outros.

Ao mesmo tempo, os especialistas avisam: uma pessoa é mais do que a sua imagem de RM. Mesmo que o córtex seja mais fino em certas regiões, relações estáveis, limites claros na infância, terapia precoce e um contexto sem violência podem atenuar bastante o risco. A estrutura cerebral fornece, assim, um pano de fundo sobre o qual se desenrolam a biografia e as decisões - não um guião fechado.

Quem se interessa por este tema depressa esbarra na questão da culpa e da responsabilidade. Se o cérebro está “ligado” de forma diferente, até que ponto existe liberdade de escolha? A resposta estará provavelmente algures no meio: a estrutura cerebral define o enquadramento, mas dentro desse enquadramento continuam a existir margens de manobra. Reconhecer essas margens e aproveitá-las em contexto terapêutico deverá tornar-se, nos próximos anos, um dos campos mais fascinantes da psicologia criminal.

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