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Jardins verticais em casa?

Homem a cuidar de plantas numa parede verde num sala com muita luz natural e decoração moderna.

Pode soar a mera decoração, mas pode vir a alterar o nosso quotidiano de forma profunda - sobretudo em escolas, escritórios e habitações.

Muitas pessoas associam logo o ar poluído ao pó fino das estradas muito movimentadas. No entanto, a verdadeira área de risco está muitas vezes mesmo à nossa frente: dentro de casa ou no local de trabalho. Um novo estudo realizado em Espanha mostra agora até que ponto certas plantas, instaladas em chamadas “paredes verdes”, conseguem limpar o ar interior - e os números são surpreendentemente expressivos.

Perigo invisível: porque é que os espaços interiores podem ser mais tóxicos do que a rua

Nos edifícios modernos existem inúmeras fontes de substâncias poluentes. A maioria não se vê, algumas mal se cheiram e quase todas acabam por ser aceites no dia a dia, sem grande reflexão.

  • Tintas e vernizes aplicados em paredes e móveis
  • Superfícies de plástico, aglomerado, pavimento laminado
  • Sprays aromáticos, perfumes, produtos de limpeza
  • Aquecedores e velas
  • Fumo de cigarro e fumos libertados durante a cozinha

Tudo isto liberta os chamados compostos orgânicos voláteis (COV), como o formaldeído ou a acetona. A isto juntam-se gases como o dióxido de azoto proveniente dos gases de escape ou o dióxido de enxofre. Estas substâncias podem provocar dores de cabeça, cansaço, irritação nos olhos e nas vias respiratórias, além de reduzirem de forma notória a capacidade de concentração.

As autoridades de saúde agrupam este tipo de queixas sob a designação de “síndrome do edifício doente”. Refere-se a espaços onde as pessoas se sentem constantemente mal, sem que exista, à primeira vista, uma causa evidente.

Experiência espanhola: paredes verdes num recipiente de vidro

Investigadores da Universidade de Sevilha quiseram perceber se as paredes interiores vegetadas podiam reduzir estes poluentes de forma significativa - e, em caso afirmativo, com que rapidez. Para isso, montaram uma experiência relativamente simples, mas muito clara.

  • Uma câmara de vidro fechada simula um espaço interior.
  • Na parede dessa câmara são instalados módulos verticais com plantas - uma “parede verde”.
  • Em seguida, os investigadores introduzem deliberadamente vários poluentes no ar.
  • Equipamentos de medição acompanham, em intervalos curtos, a evolução das concentrações.

“Ao fim de 24 horas, os poluentes no espaço estavam 96 a 98 por cento mais baixos - praticamente uma purificação quase total do ar.”

Foram testados, entre outros:

  • Dióxido de azoto (NO₂)
  • Dióxido de enxofre (SO₂)
  • Formaldeído (COV, considerado cancerígeno)
  • Acetona (por exemplo, em solventes e em alguns produtos domésticos)

O mais interessante é que o efeito não surgiu apenas ao cabo de muitas horas. Logo após um quarto de hora, os níveis de poluição já tinham baixado de forma clara.

A rapidez com que as plantas atuam realmente em espaços interiores

A análise das séries de medições mostra com que velocidade as plantas começam a trabalhar.

“Apenas 15 minutos após a introdução dos poluentes, os valores tinham descido entre 24 e 40 por cento, consoante o gás.”

Para o dia a dia, isto significa que estas paredes não funcionam apenas a longo prazo: podem fazer diferença de forma visível mesmo pouco depois de cozinhar, pintar ou limpar. As plantas não absorvem estas substâncias só através das folhas; também as captam pelo substrato e pelos microrganismos que ali vivem. Na zona das raízes existem inúmeras bactérias que degradam estes compostos.

Quais as plantas testadas que se destacaram mais

Para as experiências, a equipa utilizou cinco espécies comuns de plantas de interior, que também podem ser cultivadas na sala ou no escritório:

  • Spathiphyllum wallisii (lírio-da-paz)
  • Tradescantia zebrina (trapoeraba-zebra)
  • Philodendron scandens (filodendro trepador)
  • Ficus pumila (figueira-rasteira)
  • Chlorophytum comosum (clorófito)

Os resultados mostram diferenças nítidas entre as espécies e entre os respetivos poluentes.

Lírio-da-paz: muito eficaz contra o dióxido de azoto

O lírio-da-paz, conhecido em muitos escritórios como uma planta fácil de cuidar, revelou no ensaio uma ação particularmente forte contra o dióxido de azoto. Em apenas uma hora, conseguiu reduzir este gás irritante em cerca de 60 por cento. O NO₂ surge sobretudo da combustão, por exemplo do tráfego, dos sistemas de aquecimento ou dos fogões a gás.

Clorófito: resposta rápida ao formaldeído

O clorófito mostrou-se especialmente eficiente na degradação do formaldeído, um dos poluentes interiores mais problemáticos. O formaldeído pode libertar-se de móveis de aglomerado, revestimentos de pavimentos, colas e têxteis, e está sob suspeita de poder causar cancro.

“O clorófito eliminou o formaldeído no ensaio mais depressa do que as outras espécies analisadas - um argumento forte para o seu uso em espaços novos ou recentemente remodelados.”

O filodendro, a figueira-rasteira e a trapoeraba-zebra também contribuíram para a redução de vários poluentes, embora apresentassem pontos fortes diferentes consoante o gás em causa. É precisamente essa combinação de espécies que torna as paredes verdes tão interessantes: podem ser montadas de forma direcionada, para abranger o maior leque possível de gases.

Não são uma solução milagrosa, mas sim um complemento forte à ventilação e aos filtros

Os investigadores sublinham que as paredes vegetadas não substituem os sistemas clássicos de ventilação. A entrada de ar fresco, os sistemas de filtragem e um comportamento sensato no uso do aquecimento continuam a ser pilares fundamentais de um interior saudável.

Ainda assim, os dados indicam que as paredes com plantas podem tornar-se uma ferramenta complementar muito eficaz - sobretudo nos locais em que as janelas abrem mal ou onde muitas pessoas trabalham ou estudam em espaço reduzido.

  • Escritórios de espaço aberto com ar condicionado
  • Escolas e creches com elevada ocupação das salas
  • Habitações em zonas centrais muito poluídas
  • Consultórios médicos, salas de espera, edifícios públicos

Para além da limpeza do ar, as plantas trazem efeitos psicológicos: as pessoas tendem a considerar os espaços verdes mais agradáveis, dizem sentir menos stress e relatam maior sensação de equilíbrio.

Como são construídas estas paredes verdes

Os sistemas profissionais são, em regra, compostos por elementos modulares fixados à parede. Nestes módulos entram recipientes com substrato ou vasos onde as plantas crescem. Um sistema de rega integrado fornece automaticamente água e nutrientes às plantas.

Componente Função
Módulo de suporte Mantém as plantas na parede e assegura estabilidade
Substrato Dá suporte às raízes e armazena água e nutrientes
Rega Fornecimento automático, evita a secagem
Mistura de plantas Determina que poluentes são decompostos de forma mais eficaz

Para espaços domésticos existem versões mais simples, como painéis de plantas ou sistemas modulares suspensos na parede, semelhantes a uma estante. O essencial continua a ser a escolha adequada das espécies e uma manutenção minimamente constante.

O que este estudo pode significar no dia a dia com jardins verticais

Quem quiser tornar a casa ou o escritório mais saudável não precisa de revestir logo uma parede inteira com plantas. Mesmo algumas plantas maiores, escolhidas com critério e colocadas perto das zonas mais problemáticas, podem fazer diferença - por exemplo junto à secretária, no quarto ou ao lado de móveis que ainda libertam compostos.

Uma abordagem possível:

  • Lírio-da-paz em divisões com pouca renovação de ar ou junto a ruas movimentadas
  • Clorófito em quartos com muitos móveis novos ou pavimento laminado
  • Filodendro e figueira-rasteira como complemento em salas e escritórios

Apesar dos valores impressionantes obtidos na câmara de vidro, há um ponto importante: a casa real não é um laboratório. Correntes de ar, portas abertas, variações de temperatura e hábitos de ventilação influenciam o efeito. Ainda assim, os números de Sevilha mostram com bastante clareza o potencial de um conceito de plantas bem pensado.

Contexto: de que forma as plantas retiram poluentes do ar

As plantas usam as folhas e os estomas - pequenas aberturas - como se fossem filtros de pequena escala. Os gases entram, depositam-se na superfície foliar e, em parte, passam para o interior da planta. No substrato vivem microrganismos que transformam muitas destas substâncias em compostos menos nocivos.

Quanto maior for a área foliar e mais densa for a vegetação, maior será a superfície de contacto com o ar. É precisamente aqui que os jardins verticais ganham vantagem: em poucos metros quadrados de parede, concentram uma quantidade enorme de massa foliar.

Para gabinetes de arquitetura, promotores e autarquias, isto abre novas possibilidades. As escolas, por exemplo, poderiam combinar corredores vegetados com ventilação técnica. As empresas poderiam valorizar salas de reunião com níveis elevados de CO₂ e de poluentes com paredes de plantas, em vez de apostarem apenas em aparelhos de ar condicionado mais potentes.

Uma coisa é certa: o estudo de Sevilha apresenta dados concretos que mostram que os sistemas verticais de plantas são muito mais do que um mero adorno visual. Podem ser uma peça no combate ao mau ar interior - e, ao mesmo tempo, ajudam a criar espaços onde as pessoas preferem estar.

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