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Mineradores de ouro de 6.000 anos: Este túmulo está a revolucionar a História.

Mulher arqueóloga a examinar um esqueleto com artefactos dourados numa escavação próxima do mar.

Na Bulgária, onde à primeira vista tudo parecia apenas um estaleiro comum, operários dos anos 1970 acabaram por encontrar algo que hoje é considerado um dos mais importantes sítios arqueológicos da Europa. Sob a terra, junto a Varna, estava escondida uma necrópole antiquíssima, onde, há mais de 6.000 anos, as pessoas já usavam adereços de ouro - e, com esse ouro, moldavam a sua ideia de poder, crença e ordem social.

Um achado fortuito no Mar Negro transforma-se numa sensação mundial

A descoberta aconteceu por acaso: no outono de 1972, trabalhadores da construção civil atuavam na periferia da cidade portuária búlgara de Varna, mesmo junto à costa do Mar Negro. Ao escavarem o terreno, deram de caras com ossos e fragmentos de cerâmica. Rapidamente se percebeu que ali existia um antigo campo funerário. Foram chamados arqueólogos - e estes concluíram depressa que não se tratava de um cemitério vulgar.

Ao longo dos cerca de vinte anos seguintes, os investigadores desenterraram quase 300 sepulturas. 62 dessas sepulturas continham objetos de ouro, muitos deles em quantidade e qualidade extraordinárias. No final, os especialistas contabilizaram mais de 3.000 peças individuais de ouro e de outros materiais.

Mais de seis quilogramas de ouro - trabalhados há cerca de 6.600 anos - são hoje considerados as mais antigas joias de ouro conhecidas da história da humanidade.

Entre os achados estavam:

  • colares delicados em ouro finamente trabalhado
  • braceletes e anéis
  • brincos e pendentes ornamentados
  • pequenas contas de ouro, provavelmente cosidas em roupa
  • pequenas placas de ouro, que em tempos terão sido fixadas em tecidos ou em coberturas para a cabeça

Noutro local da Bulgária, surgiu em 2016 uma minúscula pérola de ouro, possivelmente ainda mais antiga. No entanto, a sua datação continua incerta. Por isso, Varna mantém-se como a origem seguramente comprovada do trabalho do ouro.

A enigmática sepultura 43 de Varna: um homem, um oceano de ouro

Entre as quase 300 sepulturas, há uma que continua no centro de muitos debates: a sepultura 43. Nessa cova funerária foi colocado o esqueleto de um homem, estimado em mais de 60 anos, enterrado há cerca de seis milénios. Para a época, essa idade era extraordinária.

À sua volta havia uma verdadeira avalanche de ouro. Quase um terço de todo o ouro da necrópole de Varna provém apenas desta sepultura. A lista dos objetos depositados deixa perceber o quão excecional este homem terá sido.

Peça encontrada Significado presumido
Cabo de machado decorado com ouro Sinal de poder, talvez um insígnia de chefia ou de juízo
Numerosas peças de adorno (colares, anéis, placas) Riqueza, posição social, função religiosa
Proteção peniana em ouro (bainha peniana) Símbolo de masculinidade, fertilidade e estatuto elevado
Recipientes de cerâmica e outras oferendas Alimentos, bebidas ou dádivas para a vida após a morte

Sobretudo a proteção peniana em ouro causa, hoje em dia, uma impressão quase desconcertante. Este objeto continua a ser único e gera interpretações controversas entre os especialistas. Teria sido apenas um símbolo de estatuto? Um objeto sagrado com função ritual? Ou um emblema de poder que encenava publicamente masculinidade e fertilidade?

A abundância de ouro na sepultura 43 sugere que ali não foi enterrado um membro comum da tribo, mas sim uma espécie de líder, sacerdote ou especialista de elevado estatuto.

O Museu Arqueológico de Varna entende que apenas uma elite muito reduzida recebia um ritual funerário deste tipo. Essas pessoas estavam no topo da comunidade, dispunham de riqueza, influência - e, ao que tudo indica, também de uma relação especial com símbolos religiosos em ouro.

Novos indícios das primeiras sociedades de classes

As sepulturas de Varna não falam apenas das mais antigas joias de ouro da humanidade. Acima de tudo, desenham o retrato de uma sociedade que já estava longe de ser igualitária. Quem morria rico tinha, em vida, claramente mais poder e prestígio do que os restantes.

Os arqueólogos veem em Varna um exemplo precoce de uma comunidade fortemente estratificada. Algumas sepulturas apresentam abundantes ofertas em ouro, cobre e materiais nobres; outras, pelo contrário, quase nada. Daí resulta uma imagem nítida de diferenças estruturais.

Vários fatores apontam nesse sentido:

  • sepulturas individuais com concentração extremamente elevada de objetos de valor
  • muitas inumações mais pobres, por vezes sem ofertas relevantes
  • combinação de armas, joias e objetos rituais nas sepulturas de elite
  • esforço de trabalho investido na produção dos adornos e nos enterros

Varna mostra, assim, os primórdios de uma sociedade em que certas pessoas estavam permanentemente acima das outras. Aqui surgem formas iniciais de governantes, de uma casta sacerdotal e, possivelmente, de uma espécie de elite administrativa. E isto acontece cerca de mil anos antes de as primeiras pirâmides serem planeadas no Egito.

Porque precisamente ali: ouro, cobre e comércio

A grande questão é a seguinte: por que razão os primeiros ourives aparecem precisamente junto ao Mar Negro, no atual território da Bulgária, e não, por exemplo, no Egito ou na Mesopotâmia? Muitos indícios apontam para uma combinação de matérias-primas, técnica e comércio.

A região nos limites ocidentais do Mar Negro era, na Idade do Cobre, um ponto nevrálgico de recursos. Nas montanhas vizinhas existiam não só jazidas de cobre, mas também minérios auríferos em rios e cursos de água. As pessoas já conseguiam lavar pepitas de ouro do sedimento com métodos simples.

Em paralelo, a metalurgia foi avançando: aprendeu-se a fundir cobre, a moldar ferramentas e a criar ligas metálicas. Nesse contexto técnico, fazia sentido experimentar também o ouro, martelando-o, dando-lhe forma e polindo-o.

Naquele tempo, o ouro não era meio de pagamento nem material de uso corrente, mas sobretudo um elemento de simbolismo, rituais e encenação social.

A isto juntava-se o comércio de longa distância. Achados de conchas, pedras exóticas e outros bens importados mostram que a comunidade de Varna estava ligada a redes extensas. As joias de ouro eram ideais para exibir estatuto ao longo de grandes distâncias - e para expressar alianças políticas.

Ouro como distinção sagrada, não como moeda

Em Varna, o ouro parece ter servido menos para pagar e mais para representar posição social e significado religioso. Quem o usava exibía a sua condição especial - até para lá da morte.

Muitas das peças de ouro foram colocadas intencionalmente em zonas específicas do corpo: ao pescoço, sobre o peito, nas mãos ou na cabeça. Formava-se assim uma mensagem inequívoca: esta pessoa pertence ao topo da comunidade, liga o mundo dos vivos ao dos mortos e talvez também os seres humanos a uma força superior.

Para os investigadores, Varna é, por isso, um possível candidato a uma das mais antigas “células iniciais” da civilização europeia. Uma comunidade com estrutura social complexa, artesanato especializado e conceções religiosas em que o ouro era muito mais do que um metal brilhante.

O que a descoberta revela sobre o nosso presente

As escavações de Varna também lançam luz sobre as sociedades atuais. A forma como o ouro era utilizado mostra quão cedo os seres humanos começaram a concentrar riqueza e a tornar visíveis as diferenças. Enquanto agricultores, artesãos e membros comuns da comunidade eram sepultados com poucos ou nenhuns bens, nos arredores das elites acumulavam-se riqueza e objetos de prestígio.

A proteção peniana em ouro da sepultura 43 parece quase uma forma inicial de símbolo de estatuto extremo: um objeto de que ninguém precisava por razões práticas, mas que afastava de forma muito evidente o portador de todos os outros. Objetos como este mostram até que ponto o desejo de distinção está enraizado na história da humanidade.

Explicação de alguns termos técnicos

Vários conceitos surgem repetidamente no contexto de Varna e costumam causar estranheza a quem não é especialista:

  • Necrópole: designa um campo funerário extenso ou uma “cidade dos mortos”, ou seja, um conjunto de muitas sepulturas num só local.
  • Idade do Cobre: fase de transição entre a Idade da Pedra e a Idade do Bronze. O cobre impôs-se como matéria-prima antes de o bronze (liga de cobre e estanho) se generalizar.
  • Artefacto: objeto fabricado por seres humanos e estudado pela arqueologia.

Quem se dedica à pré-história do sudeste europeu encontra Varna com frequência. Para escolas, museus e o público em geral, este sítio oferece um exemplo concreto de como os desenvolvimentos técnicos e sociais podem reforçar-se mutuamente: trabalho do metal, comércio, formação de elites, rituais religiosos - tudo isso se entrelaça.

A descoberta de Varna também influencia a interpretação de sítios semelhantes noutras regiões. Quando numa necrópole aparecem bens funerários distribuídos de forma muito desigual, os arqueólogos pensam hoje com maior frequência em centros de poder em formação e em estruturas políticas. Varna serve, neste sentido, como uma espécie de grelha comparativa para enquadrar melhor outras descobertas.

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