Ontem, os melros andavam aos saltinhos debaixo do comedouro, a atirar folhas para o lado como mini-escavadoras. Hoje de manhã, os mesmos pássaros pousam na vedação de costas voltadas, com as penas eriçadas, como quem não se deixa impressionar pelas suas pevides de girassol e pelas bolas de gordura.
Mesmo assim, volta a encher o comedouro e fica a ver os amendoins a balançar no ar frio. Um pisco-de-peito-ruivo entra e sai num instante, os chapins-azuis atravessam o jardim como se estivessem atrasados para o trabalho, mas os melros mantêm-se no relvado, a sondar a terra, indiferentes ao banquete que lhes passa por cima da cabeça.
Visto da janela da cozinha, é difícil não levar a coisa a peito. Gastou dinheiro, dedicação e tempo, e o “pássaro principal” do jardim no inverno comporta-se como se a sua oferta lhe ficasse mal. Há ali qualquer coisa que a maioria das pessoas não repara.
E, a partir do momento em que percebe, deixa de conseguir ignorar.
Porque é que os melros parecem virar costas aos comedouros quando arrefece
Se observar um melro no inverno durante cinco minutos, a ideia salta-lhe à vista: não é uma ave feita para se pendurar em grades metálicas. Os melros alimentam-se no chão por natureza - foram talhados para saltar, remexer e espetar o bico em tudo o que fica escondido na terra e na manta de folhas.
Quando o frio aperta, esse impulso intensifica-se. Mesmo com o relvado gelado, ainda há minhocas perto da superfície; maçãs a apodrecer acabam por ceder e virar açúcar macio; e sebes densas guardam bagas caídas do vento. Do ponto de vista do melro, um tubo a oscilar cheio de sementes parece estranho, exposto e, em certa medida, arriscado.
Por isso, ele afasta-se. De costas para o seu comedouro, corpo encolhido e olhos no chão, continua a fazer aquilo para que o seu corpo foi apurado ao longo de milhares de anos.
Levantamentos de jardins por toda a Europa repetem o mesmo padrão sempre que há uma vaga de frio. Os melros continuam a ser visitantes comuns, mas raramente são os que ficam agarrados a poleiros ou pendurados em metades de coco. Eles estão debaixo dos comedouros, não em cima.
Pense num jardim suburbano típico em janeiro. Os chapins-reais fazem fila nos orifícios do comedouro, um pintassilgo toma conta do comedouro de niger. E o melro ronda por baixo como um cão cauteloso num piquenique, à espera de migalhas, a apanhar tudo o que cai do tumulto lá em cima.
Um estudo britânico concluiu que os melros consumiram significativamente mais alimento em tabuleiros no chão e em mesas abertas do que em comedouros tubulares, mesmo com geada forte. A comida era a mesma; a posição mudou tudo.
Há ainda o lado social da coisa. Comedouros altos e estreitos significam disputa com aves ágeis que se torcem e se agarram com facilidade: chapins, tentilhões, até estorninhos. Os melros não foram feitos para esse tipo de luta aérea. Já no chão, o tamanho e o bico afiado dão-lhes vantagem.
Assim, quando a temperatura desce e a margem de sobrevivência encolhe, não é por “desdém” que ignoram o comedouro. Estão apenas a jogar com os seus pontos fortes. Fontes de alimento baixas, estáveis e abrigadas são mais seguras, mais eficientes e mais próximas do seu padrão natural de procura.
Quando aceita isto, a alimentação de inverno para melros muda por completo. Em vez de perguntar “Porque é que eles não usam o meu comedouro?”, a pergunta certa passa a ser “Como é que levo a comida para onde o instinto deles se sente em casa?”.
Como alimentar melros corretamente no inverno (para que usem mesmo o que põe cá fora)
A alteração mais simples é, muitas vezes, a mais eficaz: pense em “nível do chão”, não em “teto”. Coloque um tabuleiro raso - ou um prato de vaso antigo - no chão, perto de um arbusto ou de uma sebe, e espalhe ali a comida. Esse pequeno ajuste pode transformar um visitante tímido numa verdadeira hora de ponta de melros.
Escolha alimentos macios e muito energéticos, que reconheçam depressa. Passas e sultanas demolhadas em água morna, pedacinhos de maçã ou pera, queijo suave ralado, aveia misturada com um pouco de gordura. Os melros têm queda por fruta, mesmo quando está um pouco pisada ou demasiado madura.
Ponha o tabuleiro num local onde, se fosse o melro, também se sentiria relativamente seguro: não no meio do terreno totalmente descoberto, nem enfiado debaixo de um arbusto escuro, mas na borda da cobertura, com uma rota de fuga fácil. Não está só a alimentá-los; está a dar-lhes um “palco” onde podem manter-se atentos.
Muita gente ou atira tudo para um único sítio, ou muda a rotina de alimentação de poucos em poucos dias. Para as aves, isso é sinal de confusão. Tente manter, durante o inverno, um “canto dos melros” fixo no jardim: o mesmo local, o mesmo tipo de comida e, mais ou menos, a mesma hora do dia.
Sejamos honestos: praticamente ninguém consegue fazer isto todos os dias. A vida mete-se pelo caminho, o trabalho acontece e a luz do dia desaparece estupidamente cedo. Falhar um dia não é problema. O importante é o padrão em que as aves, aos poucos, aprendem a confiar - não um horário militar.
Erros típicos? Pão seco (pouco nutritivo e incha no estômago), sobras com sal, pedaços enormes de gordura que eles não conseguem gerir, ou colocar comida onde os gatos podem emboscar com facilidade. Se alguma vez viu um melro parar a meio de um salto e ficar a fixar uma sombra, sabe que eles estão programados para esse tipo de ameaça.
Como diz a ecóloga de aves de jardim Kate Risely:
“Se quer ajudar os melros numa vaga de frio, pense menos em comedouros sofisticados e mais em onde eles se alimentariam naturalmente. Quanto mais perto estiver da manta de folhas, de fruta e de calorias macias e fáceis, mais depressa eles lá chegam.”
Para tornar isto o mais simples possível, aqui fica um kit rápido de inverno para melros, que dá para improvisar em minutos:
- Um tabuleiro raso ou prato de vaso colocado no chão, perto de um arbusto ou de uma sebe baixa
- Restos de fruta macia: caroços de maçã cortados em pedaços pequenos, bagas já passadas, uvas cortadas ao meio
- Uma mistura de aveia e queijo suave ralado, com um pouco de gordura sem sal para aumentar a energia
- Um jarro de água morna para renovar um bebedouro quando o resto está completamente gelado
- Uma nota mental para deixar algumas folhas de outono debaixo de uma árvore, como buffet natural
Repensar o seu jardim de inverno através dos olhos de um melro
Há um prazer discreto em imaginar o jardim ao nível do joelho. De repente, aquela zona nua debaixo da macieira deixa de ser “feia” e passa a ser uma cantina de inverno. E o emaranhado de hera que tencionava limpar “um dia” transforma-se num corta-vento e num bar de bagas de emergência.
Numa manhã gelada, ao ver um melro macho a tomar posse do seu pequeno tabuleiro no chão, começa a notar personalidade onde antes existia apenas “um pássaro”. A forma como ele se endireita quando ouve uma pega. O duplo arranhar rápido das patas na folha seca. A decisão de arriscar mais uma passa antes de disparar para a sebe.
Para nós, humanos, é aí que a ligação se aprofunda. Toda a gente reconhece aquele instante em que um animal selvagem parece aceitar a nossa presença - por um segundo - como parte do cenário, em vez de nos ver como ameaça. Alimentá-los “à maneira deles” é uma das poucas formas de conquistar essa confiança, nem que seja por pouco tempo.
Nada disto exige uma reserva natural nem um jardim perfeito para redes sociais. Um canto mais desleixado, um pouco de fruta, um prato raso e o hábito de espreitar pela janela chegam para começar. O resto é, essencialmente, observar, ajustar e deixar as aves votarem com os pés.
E se os melros continuarem a virar costas aos seus comedouros pendurados? Isso não é falhanço. É informação.
| Ponto-chave | Detalhe | Benefício para o leitor |
|---|---|---|
| Os melros evitam comedouros pendurados | São aves que se alimentam no chão, feitas para procurar na terra, nas folhas e em fruta baixa, em vez de se agarrarem a poleiros | Explica porque é que o seu comedouro atual pode parecer “ignorado” durante todo o inverno |
| Traga a comida para o nível deles | Use tabuleiros rasos no chão perto de abrigo, com fruta macia, fruta seca demolhada, aveia e queijo | Dá uma forma clara e simples de atrair mais atividade visível de melros |
| Crie uma rotina de inverno, não a perfeição | Mantenha um ponto de alimentação e uma mistura consistentes, evite alimentos inseguros e locais onde gatos possam emboscar | Torna a alimentação sustentável, realista e mais alinhada com o comportamento natural |
Perguntas frequentes:
- Porque é que os melros ignoram o meu comedouro pendurado de sementes no inverno?
Os melros são aves clássicas de alimentação no chão. Sentem-se mais à vontade a saltar e a procurar comida debaixo de arbustos ou em relvados do que a agarrar-se a poleiros estreitos, por isso muitas vezes ignoram comedouros tubulares ou em gaiola.- Qual é a melhor comida para dar aos melros quando está frio?
Resultam melhor alimentos macios e ricos em energia: maçã ou pera cortada, passas ou sultanas demolhadas, queijo suave ralado, aveia misturada com um pouco de gordura sem sal e misturas próprias para aves de bico macio.- É seguro dar pão aos melros?
Pequenas quantidades de pão simples e duro não lhes vão causar danos imediatos, mas tem poucos nutrientes e enche-os, por isso é preferível oferecer alternativas mais nutritivas.- Onde devo colocar comida para melros no meu jardim?
Coloque um tabuleiro raso ou espalhe alimento no chão perto de uma sebe ou arbusto, onde tenham alguma cobertura, mas também visibilidade para detetar predadores e escapar.- Os melros lembram-se mesmo de locais de alimentação regulares?
Sim, aprendem depressa fontes de alimento fiáveis e podem voltar aproximadamente às mesmas horas todos os dias, sobretudo em tempo gelado, quando é mais difícil procurar comida na natureza.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário