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Ignorada pela maioria dos jardineiros, esta planta atrai polinizadores melhor do que flores.

Mulher a cuidar de flores amarelas num jardim, usando chapéu e jardineira, com ferramentas próximas.

A primeira vez que reparei nisso, o jardim estava quase em silêncio. As pétalas das minhas dálias estavam impecáveis, as rosas carregadas de cor, as salvias alinhadas como pequenos soldados roxos. Bonito, sem dúvida. Mas o ar mal se mexia. Umas poucas abelhas preguiçosas, uma borboleta meio perdida, e pouco mais. Depois, ao fundo do quintal, num canto de que quase me tinha esquecido, um verde diferente zumbia como um mercado de verão. Sem flores vistosas. Sem cores fortes. Apenas um emaranhado de caules finos até à cintura.

Aproximei-me e percebi que cada centímetro daquilo estava cheio de vida. Vespas minúsculas, abelhas de todos os tamanhos, sirfídeos a pairar em câmara lenta, qualquer coisa que parecia suspeitamente uma mini traça-beija-flor. Os meus canteiros floridos eram um postal. Esta planta anónima era uma festa.

A maioria dos jardineiros arranca-a sem pensar duas vezes.

A planta “aborrecida” que transforma o seu jardim num aeroporto para polinizadores

A planta de que estou a falar é o funcho. Funcho comum, esguio, um pouco selvagem. Do tipo que aparece ao lado do compostor ou junto à vedação e que muitos jardineiros arrancam porque “tem mau aspeto”. Quando entra em floração, lança essas grandes umbelas leves de minúsculas flores amarelas que mal parecem flores. E, no entanto, é precisamente aí que acontece a magia.

Fique perto de um funcho em flor durante mais de trinta segundos e sente logo: um zumbido baixo e constante, como uma linha elétrica feita de asas. As abelhas não estão apenas de passagem; estão em fila. Vespas parasitas minúsculas, crisopas, joaninhas, sirfídeos - todos os pequenos trabalhadores com que sonhamos quando os pulgões atacam as rosas - alimentam-se dessas flores pequenas e ricas em néctar. É como se o funcho virasse a tabuleta para “aberto” para todos os insetos úteis da vizinhança.

Em julho passado, uma vizinha convidou-me para ver a sua “renovação amiga das abelhas”. Tinha gasto bastante em misturas para polinizadores, equináceas vistosas, echinaceas, e salvias elegantes dispostas em blocos perfeitos. Parecia saída de um catálogo. Ficámos à espera que o zumbido acompanhasse a estética. Não acompanhou. Umas poucas abelhas-do-mel passaram, provaram, e seguiram caminho. Bonito, mas silencioso.

No caminho lateral, junto aos caixotes, um tufo de funcho selvagem tinha nascido sozinho. Ela pediu desculpa pela “erva daninha”, disse que queria arrancá-lo. Mas aquela planta, esquecida e sem rega, estava coberta de insetos. Abelhas carpinteiras empurravam-se por espaço. Sirfídeos pairavam por cima como pequenos drones. Se contássemos presenças, o funcho estava a superar todas as flores glamorosas juntas. Acabámos por passar mais tempo a observar aquele canto desgrenhado do que as bordaduras cuidadosamente compostas.

Há uma razão simples para o funcho ser um íman. Essas cabeças florais em forma de guarda-chuva são compostas por dezenas, por vezes centenas, de flores microscópicas. Cada uma é rasa e fácil de alcançar, por isso até a menor vespa ou mosca consegue beber sem esforço. Muitas flores de jardim têm tubos profundos ou formas complexas que só certos polinizadores conseguem usar. O funcho é como um buffet plano e aberto, acessível a quase toda a gente.

Além disso, o funcho floresce durante semanas, não apenas dias. Não exige solos perfeitos nem rega constante. Enquanto outras flores amuam durante ondas de calor ou se desfazem depois de uma tempestade, o funcho continua discretamente a alimentar a população local de insetos. Não é que as suas flores sejam inúteis. É que o funcho desempenha outro papel - o amigo fiável, ligeiramente despenteado, que aparece sempre quando é preciso ajuda para mudar de casa.

Como cultivar funcho para ajudar os polinizadores (sem deixar que domine tudo)

Comece por uma escolha simples: quer funcho culinário (de bolbo) ou funcho selvagem/bronze (sem bolbo)? Para os polinizadores, ambos funcionam, mas o funcho selvagem e o funcho bronze costumam produzir mais flores e crescer mais em altura. Pode semear diretamente no solo na primavera, assim que a terra aquecer, ou plantar pequenas mudas compradas num centro de jardinagem. Escolha um local soalheiro - o funcho adora luz e inclina-se na direção dela se ficar em meia-sombra.

O solo não precisa de ser perfeito. Um terreno ligeiramente seco, até pedregoso, serve muito bem ao funcho. Regue um pouco enquanto a planta se estabelece e depois reduza. Esta é uma planta que prospera com alguma negligência. O truque principal é dar-lhe espaço: um ou dois tufos no fundo de um canteiro, ou ao longo de uma vedação, onde os seus caules altos e leves possam balançar sem tapar as suas dálias favoritas. Deixe pelo menos alguns caules irem até à floração completa e à semente. É aí que os polinizadores tiram verdadeiro proveito.

Se já matou funcho no passado, não está sozinho. Muitos de nós tratamo-lo como um legume exigente, exageramos no adubo e na água, e depois perguntamo-nos porque é que tomba ou apodrece. O funcho detesta raízes encharcadas e solo pesado e compacto. Quer drenagem e leveza, não mimos constantes. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. É por isso que esta planta sabe tão bem - perdoa os dias de preguiça e as regas saltadas.

O outro erro é arrancá-lo assim que começa a florir. Do ponto de vista culinário, os melhores bolbos colhem-se antes de a planta “espigar”. Do ponto de vista dos polinizadores, é exatamente aí que a verdadeira festa começa. Se estiver a cultivar funcho de bolbo, mantenha algumas plantas para comer e deixe uma ou duas crescer à vontade e florir. Um para si, outro para eles. Esse equilíbrio sabe surpreendentemente bem.

Todos já passámos por aquele momento em que olhamos para o jardim e percebemos que parece perfeito no Instagram e estranhamente sem vida na realidade.

Plantar funcho é um pequeno gesto de rebeldia contra essa sensação de perfeição polida, mas vazia. Os seus caules inclinam-se, semeia-se sozinho aqui e ali, nem sempre fica direito depois de uma tempestade. *Mas é precisamente esse ligeiro caos que atrai a vida.* Se quiser mantê-lo sob controlo, basta cortar algumas sementes antes de secarem, ou aproveitar alguns caules na cozinha. O resto pode ficar como uma nuvem vertical cheia de asas a zumbir.

  • Melhor local para o funchoFundo de bordaduras soalheiras, junto a vedações, ou perto da horta para que os insetos benéficos possam patrulhar.
  • Quando semear ou plantarPrimavera para sementes ou plantas; em climas amenos, também pode semear no fim do verão para o ano seguinte.
  • Água e cuidadosRega ligeira enquanto é jovem, depois apenas durante períodos longos de seca; não precisa de fertilizante rico.
  • Como mantê-lo sob controloCorte algumas cabeças florais antes de formarem semente se não quiser mudas espontâneas por todo o lado.
  • Combinação com floresJunte a textura leve do funcho com zínias, cosmos ou tagetes para ter cor e estrutura sem perder o ar mais selvagem.

Uma forma diferente de ver o que é um jardim “bonito”

Depois de observar um tufo de funcho no auge, a sua ideia de um jardim bem-sucedido muda discretamente. Começa a reparar no som, não apenas no aspeto. Nos pequenos voos em ziguezague entre os caules. Nas vespas minúsculas a recolher material para a próxima geração de devoradores de pragas. Os momentos mais valiosos do seu jardim podem acabar por acontecer não em frente ao arco de rosas, mas ao lado de uma simples nuvem amarelo-esverdeada de funcho junto ao portão das traseiras.

Não precisa de transformar o quintal num prado selvagem de um dia para o outro. Uma planta, num canto, basta para mudar a energia do espaço. Pode plantar funcho pelos polinizadores e descobrir que afinal gosta do sabor das folhas sobre peixe grelhado, ou que as cabeças secas das sementes ficam lindas numa jarra. Ou pode simplesmente deixá-lo como um aliado silencioso, a trabalhar todos os dias enquanto anda ocupado com tudo o resto. E se um amigo aparecer e perguntar porque é que os insetos ignoram as flores exuberantes dele e voam para aquela planta alta e discreta, terá uma resposta discretamente satisfatória.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O funcho atrai polinizadores variados As suas umbelas planas de pequenas flores alimentam abelhas, sirfídeos, vespas e besouros durante muitas semanas Mais polinização para frutos e legumes, além de melhor controlo natural de pragas
Crescimento fácil e de baixa manutenção Desenvolve-se bem ao sol, em solo pobre ou seco, e precisa de pouca rega depois de estabelecido Ideal para jardineiros ocupados que querem resultados sem cuidados diários
Um aliado discreto mas poderoso no jardim Pode ser colocado no fundo dos canteiros ou junto à horta e controlado em parte com a remoção das flores secas Aumenta a biodiversidade sem comprometer o estilo visual do jardim

FAQ:

  • O funcho atrai mesmo mais polinizadores do que as flores? Não mais do que todas as flores, mas o funcho atrai muitas vezes uma maior diversidade de insetos do que muitas espécies ornamentais, porque as suas flores rasas e numerosas são fáceis de usar por espécies pequenas.
  • O funcho vai espalhar-se por todo o jardim? O funcho pode semear-se sozinho, sobretudo os tipos selvagens. Corte algumas cabeças de semente antes de secarem se quiser limitar as plantas espontâneas, ou cultive-o num canteiro contido.
  • É seguro plantar funcho perto dos meus legumes? Sim, e os insetos benéficos que atrai podem ajudar a reduzir pragas. Apenas evite plantá-lo mesmo ao lado do endro, porque podem cruzar-se e afetar a pureza da semente.
  • Posso continuar a comer funcho se o deixar florir? Pode colher folhas jovens em qualquer altura e usar as sementes na cozinha quando amadurecerem. Os bolbos são melhores antes da floração, por isso convém ter plantas separadas para comer e para os polinizadores.
  • O funcho resulta em vasos? Pode resultar, desde que o recipiente seja fundo e bem drenado, mas normalmente desenvolve-se melhor no solo, onde as raízes se podem expandir e a planta atinge o tamanho ideal para produzir o máximo de flores.

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