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Choque no mundo da arte: o museu retira pinturas clássicas para expor selfies de influenciadores.

Visitantes numa galeria de arte observam retratos femininos em molduras douradas, com espaço vazio para uma pintura.

Os primeiros gritos vieram da fila dos bilhetes, não das galerias. Um grupo de estudantes tinha acabado de abrir o Instagram e percebeu que o quadro que tinham ido ver - uma paisagem do século XIX que estudaram durante todo o semestre - tinha desaparecido. No lugar dele: um ecrã LED gigante a passar em loop selfies de influencers, a fazer beicinho sob a luz suave do museu, emolduradas como se fossem ícones sagrados.

A sala parecia estranha. Menos um templo da arte, mais uma pop-up store num centro comercial. Um segurança encolheu os ombros. “Queriam algo mais… atual”, murmurou, como se estivesse a pedir desculpa.

As pessoas não sabiam se haviam de rir, filmar ou ir embora.

Lá fora, as publicações indignadas começaram a espalhar-se mais depressa do que os visitantes lá dentro.

O que acabou de acontecer neste museu reflete, em silêncio, uma mudança muito maior.

Quando as obras-primas desaparecem e surgem paredes de selfies

O choque começou numa terça-feira chuvosa de manhã, quando os visitantes habituais do museu de arte moderna da cidade entraram na Galeria 4 e ficaram parados. Os óleos suaves e contidos dos pintores clássicos europeus tinham desaparecido de um dia para o outro. As molduras douradas estavam empilhadas a um canto, meio escondidas sob plástico-bolha, como mobília durante uma mudança.

Nas paredes, painéis digitais luminosos exibiam capturas de ecrã enormes de smartphones. Influencers a posar com cafés, casais de influencers a beijarem-se em frente a praias, cães de influencers com óculos minúsculos de sol. Cada imagem vinha acompanhada de um nome de utilizador, número de seguidores e logótipo de marca parceira.

A sala passou, de repente, a parecer menos eterna e mais passageira. Menos sobre séculos, mais sobre as últimas 24 horas.

A diretora do museu chamou-lhe “uma experiência ousada de cultura contemporânea”. O comunicado de imprensa falava em “democratizar o olhar” e “honrar novas formas de autorretrato”. Mas os visitantes que ali estavam não falavam dessa maneira.

Uma professora reformada apontou para o espaço vazio onde esteve pendurado um Renoir durante quarenta anos e sussurrou: “O meu marido pediu-me em casamento em frente àquele quadro.” Ao lado dela, um adolescente sorria enquanto filmava as selfies em LED para o TikTok: “Isto é surreal. Até gosto.”

No Twitter, as hashtags pegaram fogo: #NotMyMuseum, #SelfieOverArt, #BringBackTheMasters. Ao meio-dia, as críticas no Google do museu já eram um campo de batalha.

O que parece um escândalo local e estranho é, na verdade, um sinal bastante claro. Os museus estão a lidar com orçamentos públicos mais curtos, contas mais altas e a pressão silenciosa para serem “relevantes” numa era em que a atenção vive nos telemóveis.

As marcas, por seu lado, procuram espaços culturais onde os seus logótipos pareçam mais elevados, e não apenas encaixados entre duas Stories. Uma parede de museu oferece exatamente isso: prestígio, seriedade, a ilusão de profundidade.

Por isso, ambos os lados encontram-se a meio caminho e algo muda. O cubo branco transforma-se num estúdio de conteúdo. A palavra “obra-prima” começa a querer dizer “mais gostado”. E o olhar silencioso e contemplativo afoga-se sob os ring lights.

Como os museus estão a deslizar para a economia dos influencers

Por trás da manchete chocante há um mecanismo relativamente simples. Uma marca aproxima-se de um museu com uma “parceria criativa”. O dinheiro do patrocínio cobre custos de funcionamento, uma nova ala, talvez um café reluzente. Em troca, a marca ganha visibilidade, eventos e, cada vez mais, espaço nas paredes.

Depois entra uma agência com um conceito: substituir uma seleção de obras clássicas por uma “experiência imersiva” temporária com selfies dos principais influencers. A linguagem soa polida - “cocriação”, “celebrar o eu”, “ligar gerações”. O verdadeiro argumento são os números. Fala-se de “alcance potencial” de dezenas de milhões.

Curadores que antes discutiam pinceladas e composição agora sentam-se em reuniões para ouvir falar de taxas de engagement e tempo médio de visualização.

O erro seria pensar que tudo isto acontece com más intenções. Muitas equipas de museus estão genuinamente a tentar evitar tornar-se espaços vazios e empoeirados. Viram os dados: um TikTok viral pode trazer mais visitantes num fim de semana do que uma exposição académica bem recebida em três meses.

Por isso testam salas de selfies, instalações “instagramáveis”, noites em que influencers entram mais cedo em troca de publicações. No início, estes eventos ficam nas margens. Depois, um dia, uma sala inteira é entregue a selfies cuidadosamente selecionadas.

Todos conhecemos esse momento em que um compromisso aceite “só desta vez” se transforma, sem alarde, no novo normal.

A questão mais profunda não é um museu, uma campanha ou uma decisão desajeitada. É uma mudança lenta sobre quem tem o poder de definir o que conta como arte. Durante séculos, esse poder pertenceu a críticos, instituições e, sim, a colecionadores ricos. Hoje, um critério diferente está a ocupar esse lugar: a viralidade.

Isto não significa automaticamente pior arte. Significa, sim, que o valor de uma imagem fica mais ligado à sua capacidade de ser partilhada do que à sua vida interior. Um retrato subtil do século XVII simplesmente não consegue competir num feed com uma selfie iluminada a néon e uma legenda certeira.

Sejamos honestos: ninguém fica parado cinco minutos inteiros diante de um quadro todos os dias. Mas quando deixamos de oferecer essa possibilidade de todo, alguma coisa se quebra em silêncio.

O que isto diz sobre nós (e o que podemos fazer com isso)

Há um gesto simples que muda a forma como esta história nos atinge: da próxima vez que entrar num museu, repare no que as pessoas fotografam. Captam a obra, a legenda, ou a si próprias? E para onde aponta instintivamente o seu telemóvel?

Se tudo o que sente é a vontade de provar que esteve ali, já entrou na lógica influencer. Sem vergonha nisso - é assim que as plataformas estão montadas. Experimente antes isto: tire uma selfie, se quiser, e depois guarde o telefone e passe um minuto, literalmente sessenta segundos, com apenas uma obra.

A sua mente vai protestar. Os dedos vão querer mexer-se. Fique na mesma. É nessa pequena resistência que começa uma relação diferente com as imagens.

Muitos visitantes sentem-se culpados quando percebem que atravessam as galerias a correr, à procura apenas da “famosa” para publicar. Acham que estão a visitar os museus “mal”. A verdade é que todo o ambiente agora incentiva essa pressa. As placas de orientação destacam as obras mais instagramadas. As lojas vendem filtros já pensados. Algumas salas são praticamente concebidas como cenários de fundo.

Por isso, se se sente dividido entre aproveitar o momento e registá-lo, não está sozinho. Está apenas no ponto exato de colisão entre duas culturas: a contemplação lenta e a transmissão constante.

O truque não é escolher uma e desprezar a outra. É mudar de modo conscientemente. Faça scroll e partilhe quando quiser. E depois, às vezes, entre num ritmo mais antigo: silencioso, lento, quase offline, mesmo com o telemóvel ainda no bolso.

“O que me preocupa não é haver selfies nos museus”, disse-me um jovem curador, enquanto via visitantes a posar na nova sala dos influencers. “É estarmos a começar a esquecer-nos de como é olhar para algo que não olha de volta para nós, que não pede likes.”

  • Uma sala com selfies de influencers não “mata a cultura” automaticamente. Mas revela para onde estão a ir o dinheiro e a atenção.
  • Os quadros clássicos enviados para reserva não desapareceram para sempre, mas cada mês fora da parede é mais um mês em que menos pessoas tropeçam neles por acaso.
  • A entrada de marcas nos museus pode financiar restauro e acesso - ou transformar discretamente espaços públicos em campanhas de lifestyle.
  • Os visitantes continuam a ter poder real: números de entradas, adesões e formulários de feedback enviam sinais mais depressa do que qualquer artigo de opinião.
  • *A luta não é selfies contra obras-primas; é profundidade contra velocidade, e cada um de nós negocia essa linha sempre que abre a aplicação da câmara.*

Quando a moldura se torna a história

Ao sair dessa galeria controversa, há um pequeno detalhe que fica. No átrio, duas raparigas comparam fotografias: numa aparecem a sorrir em frente às selfies dos influencers, na outra estão diante de uma paisagem silenciosa e empoeirada que sobreviveu à reorganização. Olham para a segunda imagem durante mais um instante.

Essa pausa lembra-nos que os nossos gostos não são fixos. São treinados - por algoritmos, por espaços, por aquilo que é colocado à altura dos olhos e pelo que é escondido em reserva. Um museu trocar pinturas por selfies de influencers é uma manchete chocante, sim, mas também um espelho. Devolve-nos os nossos próprios hábitos, a nossa própria fome de visibilidade, o nosso medo de ficar offline nem que seja por uma hora.

O que pedirmos aos museus nos próximos anos vai decidir mais do que um simples calendário de exposições. Vai moldar a forma como as gerações futuras aprendem a olhar para o mundo: como pano de fundo para conteúdo, ou como um lugar que ainda merece alguns momentos de atenção não publicados.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Selfies de influencers em museus Algumas instituições estão a substituir obras clássicas por instalações de selfies com marcas Ajuda a perceber porque é que as suas peças favoritas podem de repente “desaparecer” da exposição
Pressões económicas Patrocínios e conteúdo “imersivo” trazem dinheiro e alcance social Dá contexto a decisões que podem parecer apenas ideológicas ou provocatórias
O seu papel como visitante A forma como olha, fotografa e reage influencia futuras exposições Mostra como o seu comportamento e feedback ainda podem moldar os espaços culturais

FAQ:

  • Pergunta 1Os museus estão mesmo a retirar quadros clássicos só para pôr selfies de influencers?
  • Pergunta 2Porque aceitaria uma instituição séria este tipo de parceria?
  • Pergunta 3Isto quer dizer que as selfies agora são consideradas “arte verdadeira”?
  • Pergunta 4O que podem os visitantes fazer se discordarem destas escolhas?
  • Pergunta 5Existe uma forma saudável de usar o telemóvel num museu sem estragar a experiência?

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