O que à primeira vista soa a uma postura tranquila muitas vezes revela, na verdade, uma evitação de conflito muito bem treinada. Uma pessoa passou um ano inteiro a registar todas as decisões em que dizia: “Tanto faz, escolhe tu.” O resultado é desconfortável - e mostra com que facilidade se pode perder o contacto com os próprios desejos.
Como um “tanto faz” inofensivo começa a mandar na vida
“Tanto faz”, “tu decides”, “está bem assim” - estas frases parecem simpáticas e descomplicadas. Muita gente usa-as quase como um selo de qualidade: sou fácil de agradar, não dou trabalho, não crio stress. Sem discussões sobre restaurantes, sem debates sobre filmes, sem atritos no trabalho.
Foi exatamente isso que a pessoa por trás da experiência pensou durante anos. Evitava decisões em tudo: quando saía para comer, nos planos para o fim de semana, e até no emprego, quando havia que escolher direções de projeto. Via-se como particularmente ponderada. Mas, por dentro, o que funcionava era um programa impecável de prevenção de chatices: não chatear ninguém, não provocar resistência, não chamar a atenção.
Quem está sempre a dizer “Tanto faz” parece descontraído - e, no entanto, pode estar completamente tenso por dentro.
O essencial aqui é este: muita gente dita “descontraída” tem, de facto, preferências. Apenas deixou de as sentir com nitidez, porque as foi cobrindo durante anos - por medo de conflito ou de rejeição.
A experiência: 47 decisões num mês, 31 delas fingidas
O ponto de viragem aconteceu quando a pessoa começou a anotar com que frequência entregava a decisão a outra pessoa. Sempre que dizia “decide tu”, registava:
- De que se tratava? (comida, encontro, percurso, férias, questão profissional…)
- Tinha, no fundo, uma preferência própria?
- Como se sentia ao abdicar da decisão?
Logo no primeiro mês, contabilizou 47 momentos destes. Os mais frequentes foram:
- Escolha de restaurante e de refeições
- Planeamento do fim de semana
- Local e hora do encontro
- Pequenas decisões do dia a dia: lugar sentado, trajeto, música no carro
Em 31 desses casos - ou seja, em cerca de dois terços - havia uma opinião muito clara. Sabia perfeitamente do que tinha vontade. Simplesmente não o dizia. Por hábito e pela convicção profunda de que: “Não quero dar trabalho a ninguém.” Essa proporção manteve-se surpreendentemente estável ao longo de todo o ano.
Dois terços dos momentos de “Tanto faz” eram inverdades embrulhadas em simpatia - ditas para não correr o risco de enfrentar resistência.
Quando evitar conflitos é vendido como personalidade
A parte enganadora é esta: quem vive assim acaba por tomar esse padrão como a sua verdadeira identidade. Começa a pensar: “Eu é que não sou esquisito”, “os outros têm opiniões mais fortes do que eu”, “eu sou a pessoa flexível”.
Estudos psicológicos sobre evitamento de conflito mostram um mecanismo semelhante: quando alguém passa muito tempo a baixar as próprias emoções e desejos, chega a um ponto em que quase já não sente que algo está a ser reprimido. O comportamento passa a correr em automático, como um programa em segundo plano. E aquilo que acontece automaticamente já não é vivido como uma decisão - mas como “eu sou assim”.
A verdadeira serenidade é outra coisa: ter uma opinião, dizê-la - e conseguir aceitar quando, no fim, as coisas seguem outro rumo. Para isso é preciso confiança em si mesmo. A autoanulação, por sua vez, só precisa de medo.
De onde costuma vir este padrão
Muitas destas formas de agir começam na infância. Em muitas famílias, a harmonia é tratada como o valor mais alto. Não se discute em voz alta; engole-se o que se sente em silêncio. A mensagem implícita costuma ser a seguinte:
- “As boas famílias não têm conflitos.”
- “Quem discorda magoa os outros.”
- “Amar é não causar problemas.”
As crianças aprendem então o seguinte: se eu quiser algo diferente do que a mãe ou o pai querem, o ambiente arrefece. Talvez ninguém levante a voz, mas a atmosfera muda. Daí nasce um reflexo: melhor não desejar nada que provoque atrito.
De “não discutimos” passa-se depressa a “eu não preciso de nada” - e, no fim, a “é melhor eu não existir de forma demasiado evidente”.
Mais tarde, o padrão continua em amizades, relações amorosas e no trabalho. Diz-se: “Escolham vocês”, “eu estou na boa”, “tanto faz”, embora por dentro já exista um protesto discreto a crescer.
O verdadeiro preço: deixas de saber o que queres
A descoberta realmente chocante do registo não esteve nos dois terços de preferências reprimidas. Estava no resto: nos 34 por cento em que não surgia qualquer preferência percetível - nem sequer em assuntos importantes.
Não se tratava de “pizza ou hambúrguer”. Falava-se antes de questões como:
- Para onde ir de férias?
- Que oferta de emprego aceitar?
- A que evento dizer sim e a qual dizer não?
Nesses momentos, havia apenas ruído. Nenhum sinal interno, nenhuma direção. A capacidade de decidir tinha ficado embotada. Quem passa demasiado tempo a ler sobretudo o que os outros querem desaprende a reconhecer os próprios impulsos. Isto já não é uma simpatia inocente - é autoapagamento.
E há ainda outra coisa que a investigação sobre comportamento de evitamento mostra: entregar sempre a decisão protege de uma coisa com bastante eficácia - a culpa. Quem nunca escolhe também nunca pode ser responsabilizado depois. Má escolha de restaurante? Filme errado? Opção de carreira errada? “Nem fui eu que decidi.” Generosidade aparente, mas na realidade uma gestão de risco bastante astuta.
Como é, na prática, uma formulação saudável do desejo
Passado cerca de meio ano, a pessoa começou a contrariar conscientemente o padrão. Sempre que lhe surgia por dentro o reflexo “Tanto faz”, fazia a si mesma uma pergunta contrária:
“Se não me fosse indiferente, o que é que eu preferia?”
No início, as respostas eram muito cautelosas: “Talvez me apetecesse um pouco mais italiano” ou “Acho que preferia ficar em casa hoje”. A linguagem denunciava o receio de estar a impor algo aos outros.
Com o tempo, tudo ficou mais claro e mais curto: “Italiano. O restaurante da esquina.” - sem pedido de desculpa, sem três camadas de justificação.
E a grande surpresa foi esta: ninguém reagiu com aborrecimento. Não houve revirar de olhos, nem comentário atravessado. Pelo contrário: muita gente pareceu até aliviada. Afinal, assumir sempre a responsabilidade por decidir também cansa os que estão à volta.
Uma amiga próxima disse, depois de alguns meses, algo neste sentido: “Antes tinha a sensação de que eu tinha de te arrastar pela minha vida. Agora parece que estás mesmo aqui.”
Três níveis de “tanto faz”
Ao longo do ano, foram surgindo três formas diferentes de entregar a decisão:
- Indiferença genuína: é realmente indiferente se a comida é tailandesa ou mexicana. Isto é flexibilidade saudável.
- Preferência escondida: na verdade quer-se claramente uma coisa específica, mas não há coragem para a dizer.
- Cegueira do desejo: já não se sente qualquer inclinação própria - sobretudo nas grandes encruzilhadas da vida.
As questões pequenas do quotidiano eram, na maioria das vezes, o caso 1 ou 2. As grandes decisões de vida caíam frequentemente na categoria 3 - e são precisamente essas que causam mais dano a longo prazo.
Reforçar a “musculatura” dos desejos
A boa notícia é que não é preciso virar a vida inteira do avesso. Não faz falta um grande confronto nem um discurso dramático. O regresso acontece através de muitos passos pequenos e discretos.
Uma possível forma de começar:
- Ao pedir café, escolher mesmo: curto, com leite, frio, quente?
- No restaurante, selecionar o prato em vez de deixar que outra pessoa “decida por ti”.
- No carro, dizer uma música concreta em vez de “põe o que quiseres”.
- Ao sentar-se no café, dizer: “Prefiro o lugar junto à janela.”
Em situações mínimas como estas, treina-se a ocupação de um pequeno espaço próprio. Aguenta-se por instantes a sensação desconfortável de “Estou a ser exigente agora?” - e percebe-se depois que nada de grave acontece.
Querer não torna ninguém automaticamente difícil. Mas não querer nada, de forma permanente, torna as relações desonestas ao longo do tempo.
O mais interessante é isto: as necessidades reprimidas nunca desaparecem por completo. Quando não são expressas com clareza, acabam muitas vezes por sair noutro lado - sob a forma de irritação subterrânea, comentários passivo-agressivos ou daquele famoso “Está tudo bem”, que soa a tudo menos a bem.
O que mudou realmente ao fim de um ano
No final do ano, o número mensal de momentos de “Tanto faz” desceu de 47 para cerca de 18. E, nessa altura, cerca de 70 por cento desses casos eram mesmo de indiferença real - já não de medo.
Mais importante do que a simples estatística foi a nova perceção: de repente, começaram a surgir por todo o lado pequenas preferências que antes estavam encobertas. Por exemplo:
- Como quero organizar a minha rotina da manhã?
- Com que pessoas me sinto mais leve depois de um encontro, e com que pessoas me sinto mais pesado?
- Que tipo de trabalho dá energia - e que tipo de trabalho a drena de forma sistemática?
Algumas dessas descobertas foram desconfortáveis. A pessoa apercebeu-se de que havia certos rituais sociais de que afinal não gostava, apesar de os ter acompanhado de forma simpática durante anos. Apercebeu-se também de que tinha posições muito claras sobre assuntos em relação aos quais dizia sempre: “Estou aberta a tudo.” E percebeu que a imagem da pessoa extremamente relaxada, sempre adaptada, era sobretudo uma coisa: um papel.
No meio envolvente, algo interessante aconteceu: muitas pessoas aceitaram a mudança com naturalidade, embora algumas relações se tenham tornado mais difíceis. Isso notou-se sobretudo onde a proximidade se apoiava muito no facto de uma pessoa ceder sempre. Quando alguém começa a mostrar-se, surgem de repente expectativas - e limites.
Se alguém só consegue estar bem contigo enquanto tu não queres nada, isso diz menos sobre ti do que sobre essa relação.
Um teste simples para uma semana
Quem se reconhecer neste padrão pode fazer um teste simples. Durante sete dias, sempre que te apetecer dizer “Tanto faz”, pára durante cinco segundos e pergunta-te em silêncio:
- Será que há ali, mesmo assim, uma pequena tendência?
- Preferia eu secretamente uma das opções?
Não tens de verbalizar já a resposta. Basta reparares nela. Se, ao fazê-lo, descobrires que mais de metade das tuas reações de “Tanto faz” escondem desejos reais, é provável que o teu sistema não esteja a funcionar com descontração - mas com medo.
A perspetiva encorajadora é esta: o medo responde muito bem a pequenas confrontações repetidas. Um “Hoje apetece-me sushi” aqui, um “Prefiro ficar em casa” ali - e o sistema vai aprendendo, aos poucos, que é possível querer alguma coisa e continuar a ser apreciado.
A diferença parece subtil, mas na prática é enorme: ou és realmente flexível - por escolha. Ou habituaste-te a não querer nada - por medo. A primeira opção traz calma. A segunda parece silenciosa, mas deixa um vazio interior.
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