Muita gente suspeita que más companhias não lhe fazem bem e que pessoas afetuosas fazem bem à alma. Mas a investigação recente mostra algo mais concreto: o teu meio molda os teus traços de carácter - por vezes em apenas alguns meses. E o que mais pesa aí é uma atitude muito específica por parte de quem te rodeia.
Porque é que o teu meio é mais do que uma simples «influência»
Há anos que psicólogas e psicólogos defendem que não existimos desligados dos outros. Amigos, família, parceiros, colegas - todos funcionam como uma moldura social que fortalece ou trava. Quem se sente aceite e apoiado tende, em regra, a viver a vida de forma mais positiva. Quem se sente constantemente criticado, controlado ou mal compreendido cai com mais facilidade na insatisfação e na solidão.
É popular a frase: «És a média das cinco pessoas com quem passas mais tempo». Por trás disso há mais do que um dito de calendário. Estudos em psicologia e sociologia associam o apoio social de forma directa à satisfação, à motivação e à estabilidade emocional.
O teu meio empurra-te por dentro numa certa direcção - para mais serenidade e crescimento ou para mais insegurança e estagnação.
Novos dados de um estudo longitudinal de oito meses com jovens adultos mostram agora que a forma como as pessoas próximas interagem contigo altera, de forma mensurável, traços centrais da personalidade - e também o teu valor percebido de felicidade na vida.
Autonomia em vez de controlo: o fator decisivo subestimado
No centro da investigação esteve um conceito-chave da chamada teoria da autodeterminação: interacção promotora da autonomia. Trata-se de um estilo em que os outros não te querem comandar, mas respeitam e incentivam as tuas próprias decisões.
O que significa, na prática, uma interacção promotora da autonomia
- Escutam-te em vez de te imporem logo conselhos.
- Levando os teus sentimentos a sério, mesmo quando discordam de ti.
- Encorajam-te a encontrar as tuas próprias soluções.
- Explicam os motivos, em vez de recorrerem a «porque eu disse».
- Deixam-te ser quem és - também com arestas e imperfeições.
O contraponto nítido é um estilo controlador: pressão, culpa, manipulação, avaliação constante. Na linha de: «Se me amasses, farias …», «Tens de fazer isso assim», «Eu sei melhor o que é certo para ti».
O estudo de investigadoras e investigadores de Nova Iorque e Montreal demonstra: quando jovens adultos encontram, ao longo de meses, mais apoio promotor da autonomia, a sua personalidade desloca-se - e numa direcção surpreendentemente positiva.
Cinco Grandes: como mudam traços centrais de personalidade
A equipa de investigação recorreu ao modelo dos Cinco Grandes, muito usado em psicologia. Este descreve a personalidade em cinco dimensões:
| Traço | Em que consiste |
|---|---|
| Abertura à experiência | Curiosidade, criatividade, interesse pelo novo |
| Conscienciosidade | Fiabilidade, autodisciplina, organização |
| Extroversão | Gosto pelo contacto, energia, assertividade |
| Amabilidade | Disponibilidade para cooperar, empatia, capacidade de compromisso |
| Neuroticismo | Tendência para a insegurança, ruminação, stress |
Quem experimentou de forma duradoura mais apoio promotor da autonomia apresentou, ao longo dos meses, sobretudo três alterações:
- Mais amabilidade: As pessoas tornaram-se mais cooperantes, compreensivas e empáticas.
- Mais conscienciosidade: Passaram a lidar com tarefas e objectivos de modo mais estruturado e fiável.
- Mais abertura: Revelaram maior curiosidade, aventuraram-se mais em coisas novas e pensaram de forma mais flexível.
Quando os outros confiam que consegues construir a tua vida por ti próprio, cresce em ti a capacidade de agir com responsabilidade, curiosidade e empatia.
Ou seja: a proximidade promotora da autonomia não altera apenas a forma como te sentes, mas também a forma como és - a personalidade parece, assim, menos solidamente fixada do que muitos acreditaram durante muito tempo.
Mais bem-estar: como as pessoas próximas elevam o teu nível de felicidade
As investigadoras e os investigadores avaliaram também o grau de satisfação dos participantes com a sua vida e a frequência com que sentiam emoções positivas e negativas. Quem recebeu muito apoio promotor da autonomia relatou:
- maior satisfação geral com a vida,
- mais alegria, gratidão e confiança,
- menos tristeza persistente ou vazio interior.
O efeito não surgiu porque estas pessoas não tivessem problemas. Pelo contrário: lidavam com eles de forma mais estável, sentiam-se menos abandonadas a si mesmas e viviam os conflitos menos como um ataque ao seu valor pessoal.
Relações em que ninguém tenta controlar o outro e em que a tónica está no desenvolvimento mútuo criam, assim, uma espécie de espaço interno de segurança. Nesse espaço cresce a vontade de mudar, de experimentar coisas novas e de assumir responsabilidades.
Como reconhecer influências saudáveis e prejudiciais
O estudo sugere o seguinte: não basta «não estar sozinho». A qualidade da relação é que decide. Três perguntas ajudam a avaliar isso:
- Depois de me encontrar com esta pessoa, sinto-me mais claro ou mais confuso?
- Atrevo-me a dizer a minha opinião - mesmo quando é diferente?
- Sou apoiado nos meus próprios objectivos ou estou constantemente a ser desviado?
Se se acumulam sentimentos de culpa, pressão ou pequenez, a relação tende a travar mais do que a impulsionar. Sinais de alerta típicos são a desvalorização constante, as picadas irónicas, a inversão da culpa («És demasiado sensível»), a chantagem emocional ou a sensação de ter de se justificar sem parar.
Por outro lado, há pessoas que respeitam a tua autonomia. Não precisam de aprovar cada decisão, mas reconhecem-te o direito de aprender com os erros. Sobretudo na idade adulta jovem, que foi o foco do estudo, esta forma de apoio faz uma grande diferença.
Como tornar o teu meio num aliado da tua personalidade
Escolher conscientemente quem deixas chegar mais perto
Ninguém consegue escolher livremente todo o seu meio. Família, trabalho, estudos ou vizinhança impõem limites. Ainda assim, é possível controlar com quem passas mais tempo e gastas mais energia emocional.
- Procura deliberadamente pessoas que demonstrem interesse no teu desenvolvimento.
- Fala abertamente sobre o facto de quereres tomar as tuas próprias decisões.
- Define limites suaves, mas claros, quando alguém te diminui ou tenta conduzir-te.
- Afasta-te de pessoas que agem de forma duradouramente manipuladora, paternalista ou egocêntrica.
Até pequenas mudanças - mais uma noite com amigos que apoiam, menos uma chamada para a tia que critica sempre - acumulam-se, ao longo dos meses, num efeito claramente perceptível.
Tornar-te tu próprio uma pessoa promotora da autonomia
O mais interessante é que não és apenas produto do teu meio: também o moldas. Quem oferece aos outros mais autonomia altera, a longo prazo, a cultura relacional do seu círculo. Alguns instrumentos simples:
- Pergunta: «O que queres?» em vez de «Eu digo-te o que deves fazer».
- Apresenta a crítica como uma proposta, não como um julgamento.
- Partilha também as tuas próprias inseguranças - isso reduz a pressão e a exigência de perfeição.
- Reconhece pequenos progressos nos outros, em vez de avaliares apenas resultados.
Estes padrões reduzem o clima de controlo e competição. Num meio favorável, as pessoas sentem-se mais à vontade para serem autênticas. E é precisamente essa autenticidade que volta a reforçar os traços positivos de personalidade que a investigação observou.
Porque é que estas descobertas sobre o desenvolvimento da personalidade são tão relevantes
A ideia de que a personalidade está definida de uma vez por todas pode paralisar: «Sou assim mesmo» acaba por servir de desculpa ou de juízo resignado sobre nós próprios. Os dados deste estudo actual sustentam uma imagem diferente: o carácter desenvolve-se, sobretudo quando as pessoas vivem um apoio fiável e promotor da autonomia.
Termos como «autodeterminação», «interacção promotora da autonomia» ou «Cinco Grandes» soam a teoria, mas estão no centro do quotidiano: no tom de voz com que os pais falam com os filhos. Na questão de saber se uma chefia confia nas decisões dos colaboradores. Na forma como os parceiros discutem entre si.
Quem percebe que cada conversa trabalha, em silêncio, a própria personalidade, passa a olhar para os contactos de forma diferente: menos automática, mais como se estivessem a ser ajustados pequenos botões de regulação. Pequenas correcções de rumo - uma frase clara, um limite, um convite, uma pergunta honesta - podem, no fim, determinar se te sentes ano após ano mais livre e mais estável ou se ficas preso ao mesmo padrão emocional.
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