Raramente é por acaso.
Uma investigadora de comportamento ligada à Universidade de Harvard descreve um padrão que muita gente reconhece no dia a dia: alguém faz uma pergunta, ouve pouco - e usa a resposta apenas como trampolim para falar longamente sobre si. Por trás deste small talk aparentemente inofensivo está um mecanismo típico de pessoas muito centradas no próprio “eu”.
O que psicólogos entendem por Ichbezogenheit
O conceito psicológico por trás disto chama-se Ichbezogenheit (auto-centramento). Refere-se à tendência de colocar a própria perspetiva e as próprias necessidades no centro - quase como uma “câmara” mental do ego, sempre apontada para a própria pessoa.
Quem é muito auto-centrado relaciona quase tudo consigo: o tempo, o ambiente no escritório, os problemas do companheiro, até acontecimentos políticos. A pergunta interna, muitas vezes silenciosa, é sempre: “O que é que isto significa para mim?”
Pessoas auto-centradas fazem com que conversas internas e externas voltem, sem perceber, repetidamente para elas próprias.
Cenas típicas do quotidiano:
- Está a chover: em vez de “Que chato para quem trabalha na rua”, sai logo “Bolas, arruinou-me o penteado”.
- Uma colega fica de baixa: o pensamento não é “Espero que ela melhore depressa”, mas “Pronto, agora vou ter ainda mais stress”.
- O parceiro fala de preocupações: mal termina uma frase, vem “Eu sei bem como é, comigo foi pior quando …”.
Importante: auto-centramento não é o mesmo que puro egoísmo. Pessoas egoístas ignoram os outros muitas vezes por completo. Já as muito auto-centradas até se orientam pelo que se passa à volta - mas com um objetivo claro: querem ter um papel central, ser reconhecidas, ser “necessárias”.
Ichbezogen ou egoísta – a diferença subtil
Pessoas egoístas pensam sobretudo nas suas vantagens: mais dinheiro, mais tempo, mais conforto. Deixam os outros para trás se isso lhes convier. As reações do meio interessam-lhes relativamente pouco, desde que obtenham o que querem.
Já pessoas auto-centradas são muitas vezes socialmente mais hábeis. Investem energia nas relações, cuidam da imagem e esforçam-se por parecer indispensáveis. Querem ser a pessoa sem a qual, na família, na equipa ou no grupo de amigos, “nada anda”.
- Egoísmo: “O que ganho com isto?”
- Auto-centramento: “Que papel tenho aqui - e como é que fico na fotografia?”
Por isso, pessoas muito auto-centradas podem parecer, à primeira vista, prestáveis, atentas e conversadoras. O padrão costuma revelar-se nos detalhes - por exemplo, em certas técnicas de conversa.
Conceito de Harvard “Boomerasking”: perguntas para falar de si
Uma professora de investigação comportamental da Harvard Business School cunhou o termo “Boomerasking”. A palavra junta “boomerang” e “asking” e descreve um comportamento que, para muitos, soa imediatamente familiar.
Boomerasking significa: uma pergunta serve apenas de bumerangue, que regressa rapidamente à própria pessoa.
O essencial é isto: alguém faz uma pergunta não para ouvir de verdade, mas para criar uma deixa e, o quanto antes, começar a falar de si. A pergunta parece interessada, mas funciona sobretudo como um meio para um fim.
Como soa o boomerasking no dia a dia
Formas típicas, fáceis de passar despercebidas:
- “O que vais almoçar hoje? Eu vou buscar sushi já, o sítio ali na esquina é brutal.”
- “Como foram as tuas férias? As minhas foram incríveis, já te mostro umas fotos.”
- “Vais fazer alguma coisa na Páscoa? Eu vou ficar completamente sozinho, é uma longa história …”
Em cada exemplo, a conversa começa com uma pergunta aparentemente simpática. Mas o foco salta de imediato de volta para quem pergunta - como um bumerangue.
Três objetivos por trás do boomerasking
A professora de Harvard descreve três motivos principais por trás deste estilo de comunicação. As fronteiras entre eles são fluidas e, muitas vezes, misturam-se.
| Ziel | Typisches Muster |
|---|---|
| Sich in Szene setzen | Die Person nutzt jede Frage, um eigene Erfolge, Erlebnisse oder Vorzüge zu präsentieren. |
| Mitleid bekommen | Die Frage endet in ausführlichen Schilderungen von Stress, Leid oder Überforderung. |
| Eigene Geschichten erzählen | Der andere dient als Stichwortgeber für immer neue persönliche Anekdoten. |
1. Sich in Szene setzen
Aqui, a pergunta é um trampolim para pequenas ou grandes fanfarronices. Exemplo: “Treinas com regularidade?” - e, sem esperar por uma resposta real, segue-se uma descrição detalhada do próprio plano de treino, incluindo recordes pessoais e contagem de calorias.
2. Mitleid und Bestätigung einfordern
Outra variante: “Como está a correr no trabalho?” - e, no instante seguinte, vem uma torrente sobre horas extra, colegas incompetentes e nível de stress. O interlocutor fica reduzido ao papel de público compreensivo.
3. Eigene Anekdoten ausbreiten
Aqui, o objetivo é contar histórias. “Já foste alguma vez a Itália?” - e lá vêm quinze minutos de relato de viagem da pessoa que perguntou. A resposta do outro fica curta ou perde-se por completo.
Como reconhecer padrões de conversa auto-centrados
Quem quer perceber com quem está a lidar pode estar atento a alguns sinais. Raramente aparecem todos ao mesmo tempo, mas em pessoas muito auto-centradas tendem a acumular-se de forma clara.
- As conversas acabam de forma visível, vezes sem conta, nos temas da outra pessoa: trabalho, filhos, hobbies, preocupações.
- As perguntas de seguimento são superficiais ou nem chegam a existir; a pessoa muda rapidamente para a própria experiência.
- Os problemas dela parecem, em comparação, sempre maiores, mais pesados, mais dramáticos.
- Quando se critica o estilo de conversa, há incompreensão: “Mas eu só queria mostrar interesse.”
O decisivo não é um episódio isolado, mas um padrão repetido ao longo de muitas conversas.
Deve-se evitar pessoas auto-centradas?
A resposta fácil “Sim, sem dúvida” é curta demais. O auto-centramento existe num espectro. Algumas pessoas são apenas um pouco centradas em si, sem serem maldosas ou manipuladoras. Simplesmente não se apercebem de como dominam a conversa.
Fica problemático quando se juntam outros traços: forte necessidade de admiração, pouca empatia, culpabilização dirigida. Aí, aproxima-se do que especialistas descrevem como padrões narcisistas ou até manipuladores/exploradores.
Como lidar com o boomerasking
Algumas estratégias ajudam a proteger o seu bem-estar:
- Nomear o tempo de conversa: “Deixa-nos ficar um pouco na minha situação, preciso mesmo do teu conselho.”
- Redirecionar de forma intencional: Quando a pessoa volta a falar de si: “Interessante, vou guardar isso - e em relação ao meu caso, como é que vês concretamente?”
- Definir limites: “Estou demasiado cansado para uma conversa tão longa, continuamos noutro dia.”
- Criar distância: Se nada muda, dose com mais consciência quanto tempo e energia emocional investe.
Como avaliar o seu próprio estilo de conversa
O interessante é quando nos observamos a nós próprios. Muitas pessoas usam, pontualmente, perguntas-bumerangue sem dar por isso - sobretudo em fases de stress ou quando precisam de validação.
Perguntas úteis para refletir:
- Estou mesmo a ouvir, ou só à espera da minha vez de falar?
- Faço perguntas de seguimento que vão além de um “Ah, fixe”?
- Saio das conversas mais vezes com a sensação “Finalmente consegui contar tudo” - e o outro quase não falou?
Pequenas mudanças já fazem diferença: depois de cada intervenção mais longa, fazer de propósito uma pergunta aberta, aceitar pausas, perguntar mais a fundo, em vez de responder de imediato com uma história própria.
Porque é que este padrão desgasta relações
O boomerasking constante tem um custo. Quem é usado sempre como “deixa” acaba por se sentir pouco levado a sério. A confiança no apoio mútuo diminui, as conversas tornam-se superficiais ou acabam por morrer.
Em relações amorosas, isto cria facilmente um desequilíbrio invisível: uma pessoa sustenta emocionalmente, ouve, consola - a outra ocupa sobretudo o espaço. No grupo de amigos, pessoas mais caladas e reflexivas tendem a afastar-se quando se sentem continuamente “puxadas” para ouvir, em vez de poderem expressar-se livremente.
Quando se entende este conceito, torna-se mais fácil identificar esses padrões. Isso cria a base para reagir de outra forma ou - se necessário - ganhar distância. E abre a oportunidade de tornar o próprio estilo de comunicação mais consciente, mais calmo e um pouco menos centrado no “eu”.
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