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Gravação esquecida de 1949 muda a nossa perceção do canto das baleias.

Jovem com auscultadores numa biblioteca imagina uma baleia azul a sair da fita de um gravador antigo.

Um disco de plástico discreto, guardado numa caixa cheia de tecnologia antiga, está a entusiasmar os biólogos marinhos. Nele está registado um canto que, durante décadas, pareceu irrelevante para toda a gente: a voz de uma baleia-jubarte fêmea, captada em março de 1949 ao largo das Bermudas. Agora que o achado está a ser analisado, torna-se claro: este documento histórico pode ampliar de forma decisiva a nossa compreensão da “evolução da linguagem” das baleias.

Como um achado fortuito do pós-guerra passou a fazer história com uma gravação histórica de baleia-jubarte

No final da década de 1940, a ciência mal dedicava atenção aos cantos das baleias. Nessa altura, a Guerra Fria dominava as prioridades, e os investigadores testavam, a pedido da Marinha dos EUA, novos sistemas de sonar. Microfones instalados no fundo do mar serviam para localizar submarinos inimigos, não para captar o canto de mamíferos marinhos.

Num desses testes ao largo das Bermudas, os investigadores depararam-se com sons estranhos vindos das profundezas. Perceberam que não se tratava de ruído mecânico, mas não conseguiram identificar com precisão a origem. O mais importante foi a intuição do grupo: desligaram o motor do navio, deixaram os microfones a funcionar e, sem o saber, registaram um dos mais antigos cantos de baleia-jubarte claramente reconhecíveis que ainda existem hoje.

O material acabou por ser entregue à Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), nos Estados Unidos, foi arquivado e ficou praticamente esquecido. Só investigações modernas nos arquivos voltaram a trazer a gravação à luz, cerca de duas décadas antes de o célebre investigador de baleias Roger Payne se tornar famoso pelos seus estudos sistemáticos sobre cantos de baleias.

Uma faixa sonora desaparecida de 1949 permite hoje aos investigadores ouvir diretamente como soava um oceano em grande medida sem perturbações.

Porque é que o suporte sonoro de 1949 se manteve tão bem preservado

Houve ainda outra sorte extraordinária: o canto não foi guardado nas fitas magnéticas usuais da época, que perdem qualidade de forma acentuada com o passar dos anos. Em vez disso, os investigadores adaptaram um gravador de ditado e registaram o som numa placa de plástico - um método rudimentar, mas surpreendentemente resistente.

Graças a isso, a gravação continua a poder ser analisada mesmo depois de várias décadas. O ruído e os estalidos podem ser filtrados digitalmente, enquanto a altura e a estrutura dos cantos das baleias permanecem bem distinguíveis. Para os bioacústicos de hoje, este achado funciona como uma fotografia histórica, só que para os ouvidos.

O que mudou entretanto na acústica do oceano

A gravação vem de uma época em que os navios de carga eram mais pequenos, o turismo de cruzeiro tinha pouca relevância e os testes militares no mar eram menos frequentes. O oceano atual soa muito mais cheio:

  • ruído permanente da navegação comercial com cargueiros cada vez maiores
  • barcos a motor rápidos, ferries e iates em zonas costeiras
  • sistemas de sonar militar e exercícios subaquáticos
  • projetos industriais, como medições sísmicas para prospeção de petróleo e gás

Todas estas fontes produzem um “smog” acústico constante. A gravação histórica de 1949 oferece agora um raro ponto de referência para perceber quão ruidoso era o mar antes - ou, mais exatamente, quão silencioso.

Canto da baleia-jubarte como linguagem: o que os especialistas ouvem

As baleias-jubarte são conhecidas pelos seus cantos complexos, formados por motivos e frases repetidos. Estas estruturas podem ser comparadas a padrões musicais: sequências, repetições e variações.

Quando os investigadores comparam hoje a gravação antiga com sons atuais da mesma espécie, há sobretudo três aspetos que lhes interessam:

  • Tonalidade: Em que registo base canta a baleia? Os sons situam-se num tom mais alto ou mais baixo do que nas gravações atuais?
  • Intensidade sonora: Quão forte é o sinal em relação ao ruído de fundo da época?
  • Estrutura: Já se conseguem reconhecer certos “trechos melódicos” que também são usados pelas baleias-jubarte de hoje?

Já se considera provável que as baleias tenham ajustado o canto ao longo das décadas. Em regiões com tráfego marítimo intenso, investigadores registam há anos que algumas populações cantam mais baixo ou mais alto para conseguirem sobrepor-se ao som dos motores.

A gravação de 1949 pode mostrar como soa uma baleia-jubarte quando ainda não tem de lutar contra o rugido de milhares de motores a diesel dos navios.

Porque o ruído no mar se torna um problema para as baleias

As baleias orientam-se pelo som. Usam os tons para manter contacto entre si a longas distâncias, encontrar parceiros, demarcar territórios ou coordenar movimentos. Quando essa rede acústica fica desregulada, o seu dia a dia torna-se muito mais difícil.

Estudos realizados em vários oceanos mostram que consequências pode ter o ruído subaquático persistente:

  • o alcance da comunicação diminui - os chamamentos são abafados pelo barulho dos motores
  • aumentam as respostas de stress, mensuráveis através de valores hormonais
  • a procura de alimento e a orientação tornam-se mais incertas, sobretudo com nevoeiro ou no escuro
  • em casos extremos, os animais entram em pânico e encalham

A gravação histórica fornece aos investigadores um raro valor de referência acústica. Com ela, conseguem avaliar melhor o quanto o ambiente sonoro dos mamíferos marinhos mudou em apenas algumas décadas.

O que os investigadores querem agora fazer com o material histórico

Acústicos e biólogos marinhos da WHOI e de outros institutos estão a preparar atualmente uma análise pormenorizada da gravação de 1949. O som será digitalizado, limpo de ruído e dividido em sequências individuais. Depois, algoritmos informáticos compararão alturas tonais e padrões com vastas bases de dados de cantos modernos de baleias.

Estas são as questões que neste momento orientam as equipas

  • Existiam menos variações no canto na altura, porque as populações estavam mais reduzidas?
  • A altura tonal média difere de forma clara do canto atual da mesma região?
  • É possível identificar um “precursor” dos padrões melódicos de hoje?
  • Qual era a distância, em decibéis, entre o canto e os sons do ambiente?

Os modelos acústicos também beneficiam do achado. Ao introduzir o sinal antigo em simulações de condições oceânicas de 1949 e do presente, os investigadores podem calcular a que distância uma baleia teria ouvido o mesmo chamamento naquele tempo e hoje. Deste modo, obtém-se uma medida de até que ponto a comunicação está atualmente limitada.

O que este achado significa para a proteção dos oceanos

A gravação, por si só, não vai silenciar nenhum navio. Mas pode influenciar o debate sobre limites para o ruído subaquático. Quanto mais claramente se demonstrar até que ponto o ser humano alterou o habitat acústico das baleias, mais difícil será ignorar as preocupações.

Há já algum tempo que especialistas discutem medidas como limites de velocidade para navios em determinadas áreas marinhas protegidas, motores de navio mais silenciosos ou zonas de silêncio obrigatórias para testes militares. Uma comparação claramente comprovada entre “antes” e “agora” fornece aqui um argumento forte.

O que também os leigos podem aprender com este tipo de achado

Descobertas de arquivo acústico como esta são muito úteis para tornar a investigação marinha mais concreta. Muitos institutos disponibilizam gravações ao público, por vezes com explicações sobre a espécie, a situação e o significado dos sons. Quem tiver interesse pode:

  • ouvir gravações de diferentes espécies de baleias e distinguir as suas diferenças
  • usar ferramentas de áudio gratuitas para visualizar a altura tonal
  • comparar gravações antigas e novas, quando estiverem disponíveis

Assim, cria-se uma perceção de que o “barulho no mar” não é algo abstrato, mas sim um fator que altera o quotidiano de animais extremamente sensíveis. Tal como a poluição luminosa esconde o céu estrelado, o ruído no oceano sobrepõe-se a uma comunicação que estamos apenas a começar a compreender.

Expressões como canto da baleia-jubarte podem soar românticas, mas escondem um sistema de sinais altamente complexo. Esse sistema pode transmitir informações sobre a condição física do animal, a sua localização e talvez até “acentos” individuais de diferentes grupos. Cada gravação histórica preservada com a qualidade do achado de 1949 fornece, por isso, não apenas um som belo, mas também uma peça de um puzzle ainda longe de estar completo sobre a comunicação marinha.

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