Longe do turismo de pacote, das cadeiras de praia e dos blocos de hotéis, Bougainville trabalha em silêncio para dar um passo histórico: o conjunto de ilhas entre Papua-Nova Guiné e as Salomão quer surgir no mapa mundial como país independente a partir de 1 de setembro de 2027 - e poderá tornar-se assim o 194.º Estado do planeta.
Onde fica Bougainville, afinal?
Bougainville situa-se no sudoeste do Pacífico, sensivelmente a meio caminho entre Papua-Nova Guiné e as Salomão. Politicamente, ainda integra Papua-Nova Guiné; geograficamente, pertence à Melanésia. Vivem ali cerca de 300.000 pessoas, distribuídas pela ilha principal de Bougainville, pela ilha de Buka, a norte, e por pequenas ilhas dispersas.
A partir da Europa, a região parece o proverbial fim do mundo: vários voos de longo curso, uma escala na região e depois um voo doméstico para Buka - para, no fim, ainda ser preciso seguir de barco ou de piroga. Foi precisamente essa dificuldade de acesso que manteve o arquipélago longe do turismo em massa durante décadas.
Bougainville é um dos últimos grandes pontos em branco do turismo internacional - e, ao mesmo tempo, um foco político em formação.
Um arquipélago entre cicatrizes de guerra e praias de sonho
O nome vem do navegador francês Louis-Antoine de Bougainville, que passou brevemente pelas ilhas em 1768. Depois disso, o arquipélago saiu quase por completo do radar mundial. Mais tarde, a região foi abalada por uma guerra civil de dez anos, provocada por conflitos em torno de uma enorme mina de cobre e por exigências de autonomia.
Hoje, já não se vê esse passado à primeira vista, mas as marcas continuam presentes: quase não existe infraestrutura turística, há apenas algumas casas de hóspedes, lodges simples e pouca promoção. Quem chega a Buka encontra uma capital pequena, mas viva, cujo centro é o mercado coberto: ali trocam de mãos tubérculos de taro, chuchus, cocos e nozes de areca, no meio de uma cacofonia em tok pisin, inglês e línguas locais.
Praias sem espreguiçadeiras, recifes sem barbatanas
Nas praias da ilha de Arovo, a sul, estende-se areia branca e fina diante de uma laguna de águas transparentes e azul-turquesa. A água é ideal para mergulho com snorkel e mergulho autónomo, e os recifes de coral são considerados, em grande parte, intocados. Muitos troços da costa nunca viram uma escola de mergulho, e muitos recifes nunca receberam um único grupo de turistas de barbatanas.
- não há grandes resorts, apenas alguns alojamentos familiares
- recifes de coral com elevada diversidade de espécies e boa visibilidade
- praias sem espreguiçadeiras, bares ou música de fundo
- um mercado onde quase tudo é produzido localmente
Entre a ilha de Buka e a ilha principal de Bougainville corre uma estreita passagem marítima, a Passagem de Buka. A travessia custa apenas algumas unidades da moeda local - num barco a motor simples, que ali é chamado de “barco-banana”.
Vulcões como vizinhos permanentes em Bougainville
Quem visita Bougainville convive com vulcões como parte da paisagem. O mais imponente é o Bagana, no interior da ilha. Ele eleva-se cerca de 1.750 metros e, desde o ano 2000, liberta sem interrupção nuvens de fumo e enxofre. Em julho de 2023, voltou a lançar cinzas para a atmosfera; os rios ficaram turvos e os moradores das aldeias recorreram temporariamente a água de coco até a água superficial voltar a apresentar maior clareza.
O Bagana é considerado um dos vulcões mais jovens e mais ativos da Melanésia - um cone perfeito, que até os vulcanólogos preferem observar à distância.
O terreno em torno da cratera é tão instável que a subida é considerada demasiado arriscada. Em vez disso, miradouros a uma distância segura permitem observar, de noite, rios de lava incandescentes e, durante o dia, estandartes de enxofre amarelados.
Poucos quilómetros mais a leste encontra-se um vizinho mais calmo: o vulcão Billy-Mitchell. Na cratera, brilha um lago de cor turquesa a mais de 1.000 metros de altitude. O caminho até lá atravessa florestas tropicais primárias densas - uma caminhada exigente, que deixa claro o quanto esta área continua pouco desflorestada e pouco desenvolvida.
Paraíso para os amantes de aves
Bougainville também tem grande relevância biológica. Na ilha vivem 98 espécies terrestres de aves já conhecidas, e 12 delas só existem aqui no mundo inteiro. Entre elas está o notável “moustached kingfisher”, um guarda-rios com uma larga faixa azul-violeta que vai do bico até à nuca. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN, restam apenas algumas centenas de exemplares.
Igualmente endémicos são o melíflago de Bougainville, uma espécie específica de melífago, o corvo de Bougainville e um pássaro canoro com uma touca escura na cabeça. Os ornitólogos sonham com expedições a estas florestas, mas a distância e a infraestrutura limitada fazem com que apenas poucos investigadores e observadores de aves cheguem até ali.
Ao pôr do sol, grandes colónias de morcegos-da-fruta saem das palmeiras de coco. As criaturas cruzam as lagunas enquanto, no horizonte, a silhueta do Bagana se recorta na luz do entardecer - uma paisagem que quase parece irreal.
O caminho até ao 194.º Estado
No plano político, Bougainville aproxima-se de uma viragem histórica. Em 2019, os habitantes votaram num referendo e 97,7 por cento optaram, de forma esmagadora, pela independência de Papua-Nova Guiné. Desde então, decorrem negociações sobre a forma concreta de concretizar esse passo.
Em março de 2025, a liderança da região autónoma fixou uma data clara: a soberania deverá ser proclamada a 1 de setembro de 2027. A constituição já foi redigida, e instituições como o parlamento, o governo e a administração estão a ser preparadas; até já existe uma bandeira própria.
Para quem viaja para Bougainville, a experiência significa assistir ao nascimento de um país - ainda parte de um Estado, mas possivelmente independente em breve.
A forma e o momento em que a comunidade internacional reconhecerá oficialmente Bougainville dependem das negociações com Papua-Nova Guiné e da reação de outros países. Uma coisa é certa: o processo está a ser seguido com atenção, sobretudo porque Bougainville é rico em recursos naturais e, ao mesmo tempo, possui ecossistemas sensíveis.
Como chegar a este fim do mundo?
Quem parte do espaço lusófono costuma voar pela Ásia ou pela Austrália até Port Moresby, a capital de Papua-Nova Guiné. De lá, segue num voo doméstico para Buka. Depois disso, normalmente restam pequenos trajetos de barco ou deslocações por estradas não asfaltadas.
O esforço é elevado, mas o resultado é uma experiência muito longe das rotas turísticas clássicas. Não há cadeias hoteleiras grandes; em vez disso, os visitantes encontram lodges simples, pequenas pensões e quartos em casas particulares. Água quente, eletricidade estável ou cobertura móvel permanente não são garantidas, mas o contacto com os habitantes locais surge depressa.
Cultura entre estruturas de clã e artesanato em Bougainville
A vida social organiza-se fortemente em torno dos clãs. Cada grupo preserva as suas próprias canções, danças, línguas e rituais. Nas tradicionais festas “sing sing”, homens e mulheres usam pintura corporal elaborada, cocares de penas e colares de conchas. Cada cor e cada padrão representam histórias específicas, linhagens ou figuras míticas.
Um artesanato particularmente distintivo são os chamados cestos “Buka-ware”. São feitos a partir de fibras vegetais enegrecidas sobre o fogo. A partir delas, artesãos e artesãs criam padrões delicados, considerados em toda a Melanésia como peças de grande qualidade.
As oportunidades - e os riscos - da independência
O desejo de Bougainville se tornar um Estado autónomo tem várias razões: muitos habitantes querem maior controlo sobre os recursos naturais, decisões políticas próprias e uma forma de lidar com o legado da guerra civil. Ao mesmo tempo, o território enfrenta desafios enormes.
Um pequeno novo Estado terá de criar a sua própria administração, garantir saúde, educação e segurança, regular a moeda e as finanças e controlar as suas fronteiras. Em paralelo, empresas mineiras internacionais pressionam pelo acesso às matérias-primas. Forma-se assim uma tensão entre desenvolvimento económico acelerado e proteção ambiental e cultural.
- Vantagens: mais autodeterminação política, política própria para os recursos naturais, identidade cultural mais forte
- Riscos: dependência de poucos produtos de exportação, pressão sobre ecossistemas sensíveis, capacidades estatais limitadas
O turismo, em particular, poderá tornar-se a longo prazo uma fonte alternativa de rendimento, se crescer de forma lenta, em pequena escala e em coordenação com as comunidades. Projetos-piloto noutros Estados insulares mostram que um turismo orientado para a ecologia cria emprego sem destruir a natureza - desde que o número de visitantes permaneça limitado e os lucros não acabem apenas nas mãos de investidores estrangeiros.
O que espera os viajantes no terreno
Quem viajar hoje para Bougainville deve levar flexibilidade e curiosidade, e não a expectativa de conforto. Os passeios de barco dependem do tempo, os voos podem ser alterados à última hora e nem todos os alojamentos têm gerador ou ar condicionado. Em contrapartida, o visitante encontra uma forma de vida insular que segue mais o sol, as marés e o calendário das aldeias do que os horários das companhias aéreas internacionais.
As costas oferecem pontos de snorkel onde nunca entrou uma GoPro debaixo de água. Os trilhos atravessam floresta tropical, onde o som dominante são os pássaros e não os motores. Ao fim da tarde, o céu sobre a margem da laguna ganha tons rosados, enquanto nas aldeias há panelas ao lume em fogueiras de lenha e crianças de uniforme escolar cruzam o caminho de regresso a casa.
Para muitas pessoas do arquipélago, o que está em jogo nos próximos anos é mais do que o simples estatuto no mapa. Está em causa a forma como um novo pequeno Estado concilia natureza, recursos e tradições - e se conseguirá evitar os erros cometidos por outros Estados insulares. Quem vai agora até lá não vê apenas palmeiras e recifes, mas também um laboratório político no Pacífico, a trabalhar em silêncio no seu futuro.
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