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"Depois dos 65 anos, deixei de fazer várias coisas ao mesmo tempo e, para minha surpresa, a minha concentração melhorou."

Mulher idosa sentada a escrever num caderno numa mesa com relógio de areia e telemóvel à sua frente.

Estava na minha cozinha, com o telemóvel entre a orelha e o ombro, a mexer num tacho de sopa com uma mão e a responder a uma mensagem com a outra. O alarme de fumo disparou antes de a minha irmã acabar a frase. A sopa tinha queimado, a mensagem estava a meio e quase incompreensível, e eu não fazia ideia do que a minha irmã acabara de me dizer sobre a consulta com o médico.

Naquele dia, aos 65 anos, alguma coisa rompeu em silêncio.

Percebi que passava as manhãs a saltar entre separadores, a ler pela metade, a ouvir pela metade, a viver pela metade. A minha cabeça parecia um navegador aberto com trinta separadores, todos a tocar músicas diferentes.

Veio-me uma ideia estranha, quase como um desafio.

E se eu simplesmente parasse?

Quando a multitarefa deixou de parecer um superpoder

Durante anos, vesti a multitarefa como se fosse uma medalha. Eu era a mulher que conseguia responder a correios electrónicos, dobrar a roupa, ouvir um programa áudio e vigiar os netos tudo ao mesmo tempo. As pessoas elogiavam a minha “energia”. Eu sentia um orgulho secreto, mesmo quando, à noite, a cabeça me zumbia.

Algures entre os 60 e os 65, esse zumbido transformou-se em nevoeiro. Entrava numa divisão e esquecia-me do motivo. Relia o mesmo parágrafo três vezes. Começava uma conversa e perdia o fio a meio, a ver as minhas próprias palavras escaparem-me como um lenço deixado cair.

Já não me parecia eficiência.

Parecia estática.

O momento que realmente me abalou aconteceu numa terça-feira à tarde. Estava a pagar uma conta online, a ouvir as notícias e a responder a uma mensagem do meu neto sobre os trabalhos de casa. Enganei-me num número e paguei o valor errado. Não foi o fim do mundo, mas foram precisas três chamadas e quarenta minutos para corrigir.

Naquela mesma noite, o meu neto disse-me com delicadeza: “Avó, na verdade não respondeste ao que eu perguntei.” Não tinha um ar acusador, só confuso. Tinha-me enviado uma mensagem a dizer que estava stressado na escola. Eu respondi com uma ligação para um vídeo de matemática.

Percebi que não estava apenas a cometer pequenos erros nos ecrãs.

Estava a estar a meio com as pessoas de quem gosto.

Fui parar a uma investigação sem fim. Descobri que aquilo a que eu chamava “multitarefa” era, na maior parte do tempo, uma troca rápida de atenção. Cada pequena mudança, sobretudo à medida que envelhecemos, exige esforço e energia ao cérebro. É como mandar um automóvel parar e arrancar em todos os semáforos, durante quilómetros.

As neurociências dizem-no com frieza: a mudança constante entre tarefas reduz o desempenho e aumenta os erros. A minha versão dessa frase era feita de momentos perdidos, sopa queimada e uma cabeça exausta às 15h.

Continuei a ler que o cérebro mantém plasticidade mais tarde na vida. Ainda pode aprender novos hábitos. Essa ideia deu-me uma esperança tranquila.

Talvez eu não tivesse de passar o resto da vida num trânsito mental de pára-arranca.

Como aprendi a fazer uma coisa de cada vez, de propósito

A minha primeira experiência foi embaraçosamente simples. Decidi que, durante uma semana, beberia o café da manhã sem fazer mais nada. Sem telemóvel, sem notícias, sem lista de tarefas. Apenas café e a vista da janela.

Nas duas primeiras manhãs senti-me agitada, como se tivesse perdido alguma coisa. A minha mão foi três vezes na direcção do telemóvel antes de eu me aperceber. Depois aconteceu algo curioso. Ao terceiro dia, o café soube mesmo mais intenso. Os pássaros lá fora pareciam mais ruidosos. Os meus pensamentos, que antes tropeçavam uns nos outros, começaram a alinhar-se com mais educação.

Esse ritual de dez minutos tornou-se a minha primeira “ilha de tarefa única” num dia ocupado.

Um pequeno território onde o meu cérebro finalmente podia respirar.

Encorajada, levei esta ideia para outros cantos do meu dia. Lavar a loiça? Sem programa áudio. Apenas água quente, pratos e o som suave da loiça a tocar em cerâmica. Falar ao telefone? Sentava-me, parava de dobrar roupa e escutava. Ler? Um separador, um livro, um artigo.

Houve uma coisa engraçada com a minha memória. Comecei a lembrar-me dos finais dos artigos que lia. Consegui guardar pormenores de conversas dias depois. O nevoeiro na cabeça começou a rarear, como uma divisão a arejar depois de alguém abrir finalmente a janela.

Claro que houve recaídas. Numa tarde, dei por mim a responder a um correio electrónico enquanto mexia noutro tacho de sopa. Os velhos hábitos são traquinas.

Sejamos honestos: ninguém faz isto certinho todos os dias.

Também mudei o meu ambiente. Passei a deixar o telemóvel noutra divisão em certas tarefas. Nos momentos de escrita, fechava todos os separadores excepto o que me fazia falta. Quando cozinhava, cozinhava. A música era permitida, mas não havia notícias, comentadores nem séries a meio na bancada da cozinha.

O que mais me surpreendeu foi a sensação no corpo. Os ombros ficaram menos tensos. A mandíbula, que tinha passado aqueles anos de multitarefa discretamente cerrada, começou a soltar-se. O meu ritmo interior abrandou o suficiente para eu conseguir habitar de facto a minha própria vida.

Não fiquei subitamente mais nova nem mais lúcida do que toda a gente.

Fiquei apenas menos dividida.

Também descobri um efeito secundário inesperado: quando as notificações deixaram de mandar em mim, o meu dia ganhou silêncio suficiente para eu distinguir melhor o que era urgente e o que era apenas ruído. Isso ajudou-me a começar as manhãs com mais intenção e a terminar as noites com menos sensação de corrida, como se eu estivesse finalmente a fechar o dia em vez de o arrastar.

Da dispersão ao foco: pequenas regras que mudaram os meus dias

A regra mais útil que inventei para mim foi dolorosamente básica: um ecrã, um propósito. Quando abro o computador, decido: vou ler, escrever ou pagar contas? Escolho só uma coisa. Se me ocorre outra tarefa, escrevo-a num bloco de notas em vez de saltar logo para ela.

Faço o mesmo com o telemóvel. Ou ligo ou envio mensagem, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Se estou ao telefone, sento-me. Nada de limpar a bancada nem de arrumar a sala enquanto alguém me conta o seu dia. Esse pequeno acto de imobilidade física ancora o meu cérebro.

O meu dia continua cheio. Mas tem um contorno mais limpo.

Menos arestas irregulares, mais linhas rectas.

Se experimentar isto, a primeira armadilha em que pode cair é a autojulgamento. Vai apanhar-se a fazer multitarefa e pensar: “Lá estou eu outra vez, nunca vou mudar.” Essa voz é familiar a muitos de nós, e raramente ajuda.

O que me salvou foi tratar isto como uma experiência, não como um teste moral. Houve dias em que estive mais concentrada; houve dias em que o caos antigo tomou conta, sobretudo quando o grupo da família começou a apitar. Quando isso acontecia, eu não me castigava. Limitava-me a reparar, parar e voltar com delicadeza a uma única coisa.

Todos já passámos por isso, aquele momento em que o cérebro parece uma gaveta cheia até à tampa que já não fecha.

Não se resolve com mais força. Tira-se uma coisa de cada vez.

Na minha secretária, mantenho um pequeno lembrete escrito à mão que resume a mudança que senti:

“A profundidade vence a velocidade. A presença vence a produtividade. Uma coisa de cada vez vence dez coisas pela metade.”

Para me manter honesta, criei uma lista curta e visível que consulto todas as manhãs:

  • Escolher uma tarefa principal para a próxima hora e dizê-la em voz alta.
  • Retirar uma distracção óbvia da divisão antes de começar.
  • Dar atenção total às pessoas: telemóvel pousado, olhar em frente, corpo quieto.
  • Usar blocos curtos de concentração de 20 a 30 minutos e depois fazer uma pausa verdadeira.
  • Terminar o dia a escrever em papel as três tarefas mais importantes para amanhã.

Nos dias bons, sigo quase tudo. Nos dias maus, cumpro uma linha e considero isso uma vitória discreta.

Foi esse padrão gentil que me manteve a andar tempo suficiente para sentir a mudança mais profunda.

Outra coisa que me ajudou foi reduzir ao mínimo a tentação logo ao acordar. Durante meses, deixei de pegar no telemóvel antes de me sentar com um copo de água e olhar pela janela durante alguns minutos. Parece insignificante, mas esse pequeno começo sem pressa ensinou o meu cérebro a não entrar logo em modo de alarme.

Uma forma diferente de envelhecer dentro da própria mente

Depois de um ano de quase nenhuma multitarefa, aconteceu algo inesperado. Não fiquei apenas mais concentrada. Fiquei mais… presente. A ver a minha neta a desenhar, eu já não estava ao mesmo tempo a planear o jantar e a espreitar as manchetes. Via a forma como ela punha ligeiramente a língua de fora quando se concentrava, a pequena ruga entre as sobrancelhas.

As conversas começaram a parecer mais longas, mesmo quando eram breves. O tempo esticou-se. Não de forma dramática, mas o suficiente para eu deixar de sentir que estava sempre atrasada para a minha própria vida. Os dias não mudaram. A minha atenção, sim.

Ainda me esqueço de onde deixo os óculos. Ainda tenho manhãs com nevoeiro na cabeça. Isto não é uma cura milagrosa para envelhecer; é uma forma diferente de o atravessar. O que mudou foi a minha relação com a minha própria mente.

Deixei de a tratar como uma máquina capaz de correr vários programas ao mesmo tempo.

Comecei a tratá-la como uma casa onde eu queria mesmo viver.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
“Ilhas” de tarefa única Pequenos momentos diários dedicados a uma só actividade, como o café ou um passeio Uma entrada fácil no foco, sem ter de transformar toda a rotina de uma vez
Um ecrã, um propósito Definir antecipadamente para que serve cada sessão no dispositivo Reduz a sobrecarga mental e diminui erros por distracção
Suave, não perfeito Reparar nas recaídas para a multitarefa e recomeçar com calma, sem culpa Torna o hábito sustentável e mais gentil para a autoestima

Perguntas frequentes:

  • Pergunta 1: É normal sentir mais cansaço mental com a multitarefa depois dos 60?
  • Resposta 1: Sim. À medida que envelhecemos, o cérebro tende a precisar de mais esforço para mudar depressa entre tarefas. Isso não quer dizer que esteja a “perder capacidades”; significa apenas que o antigo estilo de alta velocidade passa a custar mais energia, e um foco mais lento e profundo pode saber muito melhor.
  • Pergunta 2: Deixar a multitarefa significa que vou fazer menos coisas?
  • Resposta 2: No início pode parecer isso, porque já não está a fazer malabarismos com tantas coisas ao mesmo tempo. Com o tempo, muitas pessoas concluem que acabam mais tarefas de forma correcta, com menos erros e menos retrabalho. Troca-se a ilusão de rapidez por um progresso calmo e consistente.
  • Pergunta 3: Quanto tempo demorou até notar diferença no foco?
  • Resposta 3: As primeiras mudanças apareceram ao fim de algumas semanas, sobretudo no ruído mental que sentia ao final do dia. A alteração mais profunda na clareza e na memória foi surgindo ao longo de alguns meses, à medida que fazer uma coisa de cada vez deixou de ser um esforço especial e passou a ser o padrão.
  • Pergunta 4: E se a minha vida for ocupada e as pessoas precisarem constantemente de mim?
  • Resposta 4: A minha realidade também era essa. O segredo foi escolher blocos curtos e realistas de concentração, até 10 ou 15 minutos, e proteger alguns deles todos os dias. Não precisa de um mosteiro silencioso; precisa apenas de pequenos intervalos em que a sua atenção pertença a uma única coisa.
  • Pergunta 5: Isto pode ajudar mesmo que eu já me considere bastante concentrado(a)?
  • Resposta 5: Sim. Fazer uma tarefa de cada vez não serve apenas para “consertar” o que está partido. Pode aprofundar o prazer no que já faz bem, baixar os níveis de stress e fortalecer relações, porque as pessoas sentem quando têm a sua atenção inteira.

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